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Espelho, O

(Ayneh, 1997)
8,0
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

O Labirinto de Mina

8,0

Diante do caos de uma cidade em movimento, a pequena Mina (Aida Mohammadkhani) tenta voltar sozinha da escola para a sua casa. Sua mãe, que normalmente a busca, não aparece, o que faz com que a menina comece uma jornada pela cidade inicialmente atrás dos rastos da sua mãe e finalmente para casa. 

O que vemos nas primeiras cenas de O Espelho (1997), de Jafar Panahi, é uma garotinha aparentemente indefesa, com o braço engessado, a expressão chorosa e um pouco amedrontada, caminhando sozinha pelas ruas tumultuosas entre carros e ônibus. Para o espectador, as imagens despertam um certo desconforto, uma sensação premonitória de que algo ruim pode acontecer com uma menina tão pequena sozinha pela cidade.

Ao longo do filme, a jovem Mina parece ainda mais perdida. Ela desconhece o caminho de casa. Chora com frequência, olha para as pessoas ao seu redor com hesitação e desconfiança. A tensão da personagem aumenta a cada desvio até seu destino, seja por conta das suas escolhas em tomar um ônibus ou seguir andando, seja pela decisão de terceiros. 

Este labirinto de Mina de volta para casa parece lembrar o espectador sobre a imersiva jornada de Alice no País das Maravilhas: ela tenta voltar para casa, mas nunca encontra o caminho. Tal percurso também kafkaniano da protagonista faz com que os primeiros minutos do filme sejam de muita agonia. Em repetidas cenas vemos Mina atravessar no meio dos carros (que invadem o quadro), perder-se ao correr pelas ruas e pedir orientação a desconhecidos (em sua maioria homens). 

Ocorre, porém, um momento de mudança brusca na narrativa em que Mina parece irritada e decide romper com o seu personagem. A partir disto, toda a trama inicial do filme se desfaz, muda de percurso, trazendo em quadro as incertezas da equipe e do próprio diretor. O filme deixa de ser sobre uma menina perdida e torna-se um filme sobre um filme e seus percursos.

O Espelho ganha, então, o traço mais marcante nos filmes do Panahi: o constante diálogo entre realidade e ficção. Conhecido pelo aspecto documental dos seus filmes, Panahi apresenta uma narrativa ficcional que, devido às suas escolhas estéticas (principalmente a seleção de não-profissionais visando atuações mais verdadeiras), despertam a dúvida no espectador sobre até que ponto a realidade emerge em cena.

Filmes do diretor como 3 Faces (2018), Táxi Teerã (2015) e Isto não é um filme (2011) apresentam o mesmo aspecto. Panahi aproveita o percurso sinuoso entre realidade e ficção proposto nas narrativas para expôr alguns aspectos da realidade do Irã, país onde nasceu e produz boa parte dos seus trabalhos. Panahi usa seu cinema como ferramenta de crítica social, o que faz com que tenha problemas com a República Islâmica.

Um assunto frequente em seus filmes é a questão das mulheres e as restrições impostas a elas na sociedade islâmica. Faz parte da linguagem do cinema de Panahi a enumeração de relatos e histórias dos mais variados personagens capturados em cena, relatos estes sobre seus cotidianos, perdas, angústias e desejos.

Em O Espelho, o assunto é retratado pelas conversas entre mulheres. Algumas falam sobre a morte de seus maridos e as consequências disso em suas vidas, outras discutem no ônibus (com áreas separadas por sexo) sobre suas sortes com a ajuda da quiromancia. Mas o notório em suas falas é o modo como suas perspectivas de vida se baseiam no casamento, na casa e nos filhos. A partir dessas conversas, nos parece que o universo da mulher iraniana pós-revolução se restringe àquilo que lhes é permitido.

Contudo, compreendendo a força crítica dos filmes do Panahi, bem como as interferências entre ficção e realidade presentes em O Espelho, a mudança na postura de Mina (ou seria um rompante da atriz?) parece representar o confronto com a repressão e a transformação da postura da população feminina iraniana.

Mina diz não querer mais aparecer nas câmeras de modo fragilizado, com o braço engessado e constantemente aos prantos. Ao dizer isso, retira o gesso e o hijabe (conjunto de vestimentas ou o próprio véu de uso obrigatório no Irã). A partir disto, Mina continua sendo filmada, porém não mais cabisbaixa. A menina se apropria de uma atitude rebelde, ágil e firme. Mina rompe com sua imagem inválida e parece não mais encenar. Se antes a atriz mirim se movia conforme a câmera, agora é a câmera que aparenta segui-la, posicionar-se conforme os seus movimentos.

O Espelho é, portanto, um filme que te faz questionar até que ponto o que acontece em cena representa a ficção ou o acaso, a espontaneidade. Considero tal estética operada pela dúvida, pelos frequentes questionamentos do espectador, um dos diversos elementos que fazem o cinema despertar encantamento. Há tanto um labirinto nos percursos da Mina de volta para casa quanto no olhar do espectador, o qual tenta capturar em O Espelho as diversas facetas e potências do registro.

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