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Espírito Vivente

(Vif-argent, 2019)
7,3
Média
3 votos
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Críticas

Cineplayers

Contemplação, fantasmagoria e romance. Tudo no mesmo filme.

8,0

Assistir ao primeiro filme ficcional e longa-metragem de Stéphane Batut é, definitivamente, uma experiência. Espírito Vivente (Vif-argent, 2019) é um filme carregado de excessos do início ao fim, em que o que começamos a ver não parece em nada com o que vamos terminar de ver e ao levantarmos da cadeira do cinema, e ainda assim, de alguma forma, vemos essa jornada ser aberta e descoberta frente aos nossos olhos.

Alguns comentários mais ácidos poderão chamar de "Ghost - Do Outro Lado da Vida (Ghost, 1990) francês" sobre a história de Juste, um rapaz que vive de encontrar pessoas pelas ruas de Paris, ouvindo suas memórias e guiando-as quando estão perdidas. Tudo muda quando encontra Agathe, que parece conhecê-lo de antes. Porém, enquanto ela tem trinta anos, ele permanece jovial. E como vamos entendendo pouco a pouco, o protagonista é um fantasma, apaixonado por uma humana e preso à sua função de guia das almas dos recém-falecidos. Aí que mora o diferencial; o protagonista não é ativo desde o início, mas sim enfrenta uma jornada até a ação.

Mas Bastut controla a informação. A condição de espírito de alma desencarnada é entendida pouco a pouco. A palavra em si é pouco ou nada mencionada - e debatida apenas após a informação estar plenamente estabelecida. Por um bom tempo, o filme se trata apenas de Juste vivendo em sua condição solitária e vivendo das histórias e memórias dos outros. Memórias que também são imagem, muitas vezes, o protagonista consegue presenciar, mas não interagir, tal qual espectador. Eis que surge Agathe. 

A estranha forma do longa até então, baseada nesse personagem-espectador, tem essa superfície muito lentamente, pois o protagonista primeiro escuta as histórias de Agathe e desenvolve seu desejo e paixão pela mulher com vida radicalmente diferente da sua - ele mora sozinho em uma invasão, ela em uma cobertura com vista para o Rio Sena com a filha. Ele recusa o trabalho de guia e some após uma noite de amor. E então, tal como se rompesse a crisálida, o filme se revela como um melodrama sobrenatural.

Isso é operado em vários campos; Juste perambula com uma roupa de cetim púrpura brilhante, uma sugestão constante de sua aura etérea que contrasta com as roupas opacas e rotineiras de outros personagens. Por falar neles, a câmera trabalha com um trabalho de alternância de pontos de vista: Juste some para os vivos, os vivos somem para os mortos. E onde antes havia silêncio quebrados pelos diálogos, toca o Concerto Para Piano Nº 2 em Dó Menor de Rachmaninoff, cujo ar de amor e drama já figurou em filmes tão díspares quanto Desencanto (Brief Encounter, 1945), de David Lean, Além da Vida (Hereafter, 2010), de Clint Eastwood e até mesmo a comédia romântica de Billy Wilder O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch, 1955). E onde antes havia luz natural e apenas a realidade da câmera, luz neon e efeitos especiais tomam o lugar.

Nessas viradas de chave mais que sutis, Batut preocupa-se em fazer com que tudo pareça natural, sem grandes momentos de surpresa ou horror; a admissão do que é invisível aos olhos vem atrvés de conversas, bem como sua aceitação. Nos momentos de silêncio, há a dor do amor impossível de ver a pessoa onde depositamos nosso afeto, mas não conseguimos sermos vistos, e a interação é reduzida ao mínimo. O segredo, ao que parece, está nas histórias: quando as leva até o outro lado, quando entende o drama de se estar vivo, o protagonista parece que se completa, descobre o que tem de fazer a partir dos outros, não impõe a sua vontade friccionada conta a de outros, como na típica história do gênero. Seu drama, assim como seu amor, é imaterial, e apenas a convivência humana e a sensibilidade humana com pessoas queridas que tornam seu legado duradouro. Em quantos filmes a ação mais benéfica do protagonista é ouvir?

Por conta disso mesmo,  boa parte do filme é Juste em conversas calmas e reflexivas com outras almas e com conhecidos e familiares ainda vivos, em uma escolha interessante - a mediunidade é filmada como uma simples conversa onde duas pessoas se olham, sem a fumaça e espelhos que se tornaram clichês, com seus jogos de copo e olhos virados. Evita-se, inclusive, qualquer diálogo com horror e suspense que poderiam ser esperados; a chave é a do realismo fantástico, sobre um herói romântico em uma situação impossível, onde o melodrama ilustrado é a impossibilidade da concretude material do desejo e a importância de abraçar o sensível imaterial romântico.

Se podem acusar de longo demais, abusando de recursos demais, que inverte expectativas demais e lidando pouco com personagens interessantes que apresenta além do casal principal, o que tem até certo fundo de verdade, ninguém pode negar que, ao menos, que trata-se de um filme consciente desde o princípio das intenções do seu autor: a busca por filmar sentimentos em cores, sons e texto, algo tão intangível e abstrato que beira a utopia, mas ninguém pode negar que ele tentou arduamente com uma mão pesada de estilo mas também com uma consciência de escrita dramatúrgica e encenação no campo cinematográfico que, definitivamente, estreia surpreendendo.

Crítica da cobertura do 21º Festival do Rio

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