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Estranho Encontro

(Estranho Encontro, 1958)
7,4
Média
25 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Estranho seria se eu não achasse estranho encontrar você

9,0

Christopher Cross (Edward G. Robinson) encontra a doce e indefesa Kitty March (Joan Benett) desamparada em Almas Perversas (Scarlett Street, 1945) de Fritz Lang. Neste preciso momento, a vida de qualquer cinéfilo mudaria. Mesmo aqueles que nunca viram um clássico do noir saberiam eternamente que chegaram a um.

Portanto, encontrar Julia (Andrea Bayard), uma mulher branca, cabelos loiros, 1,62 m de altura e 51 quilos no exato momento que o seu salto quebra no meio de uma estrada deserta deve parecer estranho apenas para Marcos (Mario Sergio). Mais uma terrível vítima do arquétipo galã quase inocente, praticamente obrigado a desviar de seu caminho por uma brilhante loira misteriosa. Já que o seu caráter não permite ignorar uma donzela indefesa desamparada nas densas sombras da noite, naquele instante sua vida também mudara.

Walter Hugo Khouri, muito mais do que nós, sempre soube disto. Parte, portanto, da premissa base de vários filmes do gênero, passando por Jacques Tourneur e Nicholas Ray, até chegar, claro, em Alfred Hitchcock, para jogar o espectador num tenso encontro, filmado num preto e branco sombrio, mediado pela densa combinação entre um domínio virtuoso de iluminação e a trilha sonora composta pelo maestro Gabriel Miglori.

Quando os faróis do carro que levam os protagonistas cruzam às escondidas os portões da mansão abastada de Wanda (Lola Brah), ricaça que sustenta as vaidades de Marcos, invadem também o núcleo nervoso da burguesia paulista do final dos anos 50. O “sobrinho” da patroa é recebido por um desconfiado caseiro que inaugura sua participação com um fervoroso debate de classe com Marcos. Entende-se no choque entre explorados que adentro da aparente superficialidade narrativa em até então reproduzir (com primazia) a estética do gênero, Khouri opta por sujar a beleza de sua fotografia com as sombras da hipocrisia da classe média brasileira.

Enquanto isto, Julia, atordoada pelo medo de ser encontrada, apresenta-se sentada na penteadeira do quarto de Wanda numa sequência alucinante inaugurada num plano aberto tendo Marcos ao seu lado. Confronta-se com a aproximação do foco em seu próprio rosto estampado no espelho, caminha até o passado, num estiloso flahsback para revelar ao espectador a fuga de suas próprias escolhas, da sua prisão de mulher casada e do próprio tempo, materializado em vários cortes de exuberantes relógios cuco.

Acusada de histérica pelo noticiário por escapar da casa de seu abusivo companheiro, descobre em Marcos uma nova possibilidade de viver uma relação amorosa. Para isto, no entanto, o casal deveria escapar não só de Wanda mas também de Hugo, figura misteriosa e assombrosa que flerta seriamente com um certo vampiro expressionista do gênio alemão anteriormente citado. Tão obsessivo por Julia e com tantos recursos econômicos, o marido fantasmagórico seria capaz caçá-la onde quer que fosse.

A chegada de Wanda, figura da imponência e presença de quadro de Norma Desmond (Gloria Swanson) em Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950) de Billy Wilder, para formar o triangulo amoroso e de tormento na mente do protagonista, acrescenta uma camada ainda mais densa nos questionamentos burgueses impostos pela narrativa. A milionária solitária exige o corpo, a presença, a dedicação; ela paga caro por um homem caro e quer receber na mesma moeda. Júlia precisa de coragem para escapar do destino, quer respirar ares de normalidade, suspirar livremente pelo novo amor.  Marcos, então, vive um constante embate interno por optar constantemente pela mentira, escolhe por serpentear por todos os lados e é constantemente horrorizado para abandonar a covardia de uma vida que não lhe pertence.

Estranho Encontro é a marca inicial da assinatura de um artista que preocupou-se em desenvolver psicologicamente através da própria psique humana, e das tentações do corpo, os distúrbios de seus personagens. O plano de fuga infalível exaure-se nas mãos do tempo. O inimigo invisível que já perseguia Júlia, começa a empurrar Marcos aos limites de sua vida de bon-vivant bancado pela madame até finalmente dominar a narrativa e transforma-la num angustiante horror psicológico.

O noir paulista com flertes expressionistas de Khouri é um ser estranho meticulosamente geometrizado em composições de corpos que pouco se tocam, mas esbarram-se constantemente na beleza do enquadramento de um dos filmes mais marcantes da carreira de um dos cineastas mais interessantes para ser conhecido no obsessivo mundo da cinefilia-mesmo que o Cinema Novo achasse tudo ao contrário, mas isto é papo para outro encontro.

 Crítica integrante do especial Abrasileiramento apropriador do Halloween

Comentários (2)

Rodrigo Torres | terça-feira, 13 de Outubro de 2020 - 08:20

Belo texto.

Igor Guimarães | quarta-feira, 14 de Outubro de 2020 - 17:05

tem um cara aí que edita bem os textos! Brigadão, meu parceiro!

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