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Críticas

Cineplayers

Um corpo estranho no cinema de Orson Welles.

8,0

O Estranho (The Stranger, 1946) é um título curioso na filmografia de Orson Welles por duas principais razões. Primeiro por ser, talvez, o seu trabalho menos lembrado, apesar de bem recebido pela crítica. Segundo, por se tratar de um paradoxo em que se notam as características mais marcantes de seu cinema ao mesmo tempo em que tudo soa tão diferente. Interessante que O Terceiro Homem (The Third Man, 1949), filme dirigido por Carol Reed, pareça mais um filme de Welles (inclusive muitos acreditam que ele seja de fato o nome por trás da direção) do que o próprio O Estranho, mas no fundo ambos tratam de temas muito próximos. No contexto histórico, este é um trabalho meio perdido na filmografia do cineasta, passando batido após o enorme sucesso de Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941) e precedendo o lamentável fracasso de A Dama de Shanghai (The Lady from Shanghai, 1947), os dois extremos que definiram a carreira ao mesmo tempo canônica e maldita de Welles como diretor.

Fora desse contexto, existe um filme gigante mergulhado em um dos melhores trabalhos técnicos de Welles, onde ele assimila como nunca a força estética do noir em um jogo de contrastes de sombras e luzes que se projeta direto na trama sobre antagonismos morais. Diferente de outros filmes da época que discutiam sobre a influência do nazismo no Ocidente pós-guerra, aqui não existe necessariamente vilões e mocinhos, e nem tudo está tão preto no branco quanto a mise-en-scène expressionista indica. Entre as luzes e as sombras existe um meio termo simbólico no qual todos os personagens transitam cedo ou tarde, em especial o trio principal composto pelo investigador/caçador de nazistas (trabalho excepcional do ator Edward G. Robinson), o farsante alemão infiltrado e a mulher dividida entre os dois. Apesar de os três, a princípio, ocuparem papéis burocráticos dentro da estrutura narrativa (o policial bom, o nazista mau e a presença feminina como ponto de convergência) para o nascimento de um conflito inicial, o desenrolar de cada um aos poucos os desprende desses papéis e os solta dentro de um universo onde não existem mais separações categóricas entre anjos e demônios.

A partir do ponto em que os três atores (entre eles o próprio Welles na pele do nazista Franz Kindler) começam a adquirir uma espécie de independência do roteiro, a trama ganha uma nova consistência e revela a coragem de Welles em abordar um tema tão delicado sem se apegar a um discurso pré-fabricado sobre os bons e os maus dentro de um conflito. Temos que lembrar que a Segunda Guerra havia terminado há apenas um ano e os seus efeitos ainda não eram bem assimilados pelas pessoas, por isso o impacto de uma história sobre um nazista cruel sendo perseguido por um americano não exatamente bom. A dubiedade moral inerente ao filme noir é a ferramenta principal para que Welles construa uma perigosa teia de relações incertas, e nesse meio ainda nasce uma perspectiva interessantíssima com a personagem de Loretta Young, uma moça a princípio inocente que fica noiva do inimigo e aos poucos descobre sobre a real identidade deste, como que numa representação da corrupção e mácula atingindo aos poucos a inocência das pessoas até então poupadas dos efeitos diretos da guerra. Mas esse câncer representando pelo personagem de Welles, que se hospeda sutil e invisível numa comunidade pequena e protegida e aos poucos vai se revelando, se choca com a ideia de que o hospedeiro também não se mostra tão acima do bem e do mal. O saldo não poderia ser mais pessimista no retrato histórico do povo americano, aqui questionado novamente por Welles, como feito antes em Cidadão Kane.

Há um parentesco muito próximo de O Estranho com O Terceiro Homem, o que inclui diálogos entre um filme e outro, além da sensação de que Harry Lime (personagem de Welles no filme de Carol Reed) parecer uma variação Franz Kindler, o que nos sugere a ideia de que talvez Welles tenha usado sua influência sobre Reed no filme de 1949 para trabalhar melhor algumas ideias iniciadas aqui, fazendo de O Terceiro Homem a obra-prima que O Estranho não conseguiu se tornar. Mas isso não desqualifica o filme de 1946, e sim o coloca como peça essencial para o amadurecimento de Welles, por mais que hoje não seja reconhecido como tal. A principal ressalva é o fato de Franz conseguir, com o fim da Segunda Guerra tão recente, apagar seus rastros e assumir uma nova identidade, sem levantar suspeitas entre os moradores da cidade.

Outro ponto interessante é ver Welles optar por recursos narrativos convencionais. Apesar de seu domínio técnico sobre as ferramentas que compõem um autêntico quadro noir de encher os olhos, a narrativa é linear e sem muitas surpresas, e de certa forma corajosa por desde o começo revelar ao espectador todos os segredos e tramas, sem que haja de fato aquele mistério sugerido pela atmosfera sombria que ele constrói. Isso coloca O Estranho numa posição curiosa dentro do universo de Welles, por carregar consigo todo o apuro técnico e estético do realizador (fora reforçar o interesse dele no taciturno cenário pós-guerra, tal qual O Processo [Le Procès, 1962]) ao mesmo tempo em que se mostra, no fundo, um tradicional thriller hollywoodiano.

O Estranho também se equilibra em cima de uma fresta onde o noir se faz presente ao mesmo tempo em que se mostra incompleto. A falta de um mistério ou de uma reviravolta, assim como a ausência de uma femme fatale o poderiam desclassificá-lo como exemplar do gênero, mas temos que lembrar que Welles nunca se apegou a qualquer tradição, e futuramente realizaria outro noir “incompleto” na obra-prima A Marca da Maldade (Touch of Evil, 1958). Mais um motivo para enxergá-lo, ao perdão do trocadilho, como um estranho no universo wellesiano, sem que isso seja algo ruim. Pelo contrário, um gênio desse porte nunca fez nada de fraco, apenas alguns títulos incompreendidos.

Comentários (3)

Felipe Ishac | sábado, 09 de Maio de 2015 - 10:07 | Responder

Muito boa a crítica Heitor! Esperando ansiosamente pela crítica de "O Processo".

Anderson de Souza | sábado, 09 de Maio de 2015 - 10:59 | Responder

Eu acho esse excelente, melhor até que Marca da Maldade se eu não for contar a técnica dos dois filmes.
Tava na hora já uma crítica do filme no site 😁

eu tbm percebi as semelhanças com o filme do Reed, e vc comparou bem, com detalhes que eu não havia percebido.

Cristian Oliveira Bruno | quarta-feira, 13 de Maio de 2015 - 10:16 | Responder

Sinceramente, ainda não assisti esse...um sacrilégio de minha parte! Se for mesmo tão bom quanto a Marca da Maldade, rntão é top!

Na espera por Otello!

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