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Críticas

Cineplayers

A balada do fracasso.

7,5
A década de 90 foi turbulenta: os escândalos sexuais de Bill Clinton, Hugh Grant, Eddie Murphy, Pee-Wee Herman e Pamela Anderson, os julgamentos de Michael Jackson e OJ Simpson, as mortes da Princesa Diana,  Notorious BIG e Tupac Shakur… Perseguição de paparazzi, vazamento de vídeos íntimos, assédios sexuais, rivalidades tóxicas e assassinatos cercavam como uma nuvem o mundo das personalidades à época. E até patinação artística, tão inofensiva no imaginário popular com suas danças graciosas e saltos acrobáticos, conheceu em 1991 o horror da agressão contra a patinadora Nancy Kerrigan, duas vezes medalhista de prata e uma vez medalhista de bronze, nascida de sua rivalidade com Tonya Harding, quatro vezes medalhista de ouro.

Prodígio da patinação artística no gelo, Tonya Harding foi a primeira americana e a segunda patinadora a realizar o dificílimo axel triplo, um salto no ar onde o patinador gira três vezes no ar. Lá pela segunda metade dos anos 80, sua projeção foi meteórica - e na primeira metade dos anos 90, também foi sua queda. De uma das esportistas mais amadas do país, que iniciou a patinação aos três anos e superou inúmeras dificuldades, logo tornou-se uma das grandes vilãs da nação. Do dia para a noite, da água para o vinho. É esta a história que vemos em Eu, Tonya.

A cinebiografia de Craig Gillespie ressoa como seu filme mais pessoal desde sua estreia na direção de longas-metragens com A Garota Ideal. Mas, camaleônico como é, conseguiu boa recepção com a refilmagem do terror cômico A Hora do Espanto (2011) e posteriormente fez o drama de superação Arremesso de Ouro (2014) - o diretor faz de Eu, Tonya pouco a ver com a dramédia indie que iniciou sua carreira e faz do filme puro exercício de estilo que bebe - e muito - na fonte de nomes célebres do cinema americano como Martin Scorsese e Quentin Tarantino.

O que pode parecer uma comparação leviana que vá fazer alguém torcer o nariz, pensando tratar-se de mais uma reprodução de estilo de dois artistas já tão copiados, pode surpreender ao testemunhar como para Gillespie estilo não é muleta, mas antes ferramenta. Para contar a história de uma personagem que ressoa bastante à vida de Jake La Motta, boxeador da vida real retratado por Robert De Niro em Touro Indomável (1980) - a saga do personagem heróico e divino em um palco, disfuncional e miserável fora de um - o diretor faz um filme onde a montagem, ainda que discreta, vira o principal fator de composição da obra a partir dos depoimentos de Tonya Harding (Margot Robbie) e as figuras parasitárias que a cercavam, como sua mãe LaVonna Harding (Alisson Jenney), seu ex-marido Jeff Gillooly e o guarda-costas Shawn Eckhardt.

Abundam em Eu, Tonya os depoimentos contraditórios; as inserções figurativas irônicas, como a falsa porém popular imagem que Tonya teria espancado Nancy (na verdade foi um criminoso a mando do marido); as sequências estilo sumário, comprimindo várias pequenas cenas em uma; a super câmera lenta destacando a dramaticidade de momentos de ascensão e queda; música pop e rock and roll estouram aos nossos ouvidos o tempo todo; a quebra da quarta parede irrompendo no meio das cenas e dialogando com os depoimentos de décadas depois. Tudo isso cozinhando um caldeirão violento em uma história basicamente circular: enquanto progride e tenta se livrar da vida que leva, onde sofre maus-tratos da mãe e do marido, um círculo a envolve e puxa de novo. 

Dessa maneira, Eu, Tonya lembra em certo nível O Lobo de Wall Street: um carnaval grotesco onde a violência infligida e a degradação do corpo de Tonya é tão circular que passa a perder o sentido. O marido a joga contra espelhos, paredes e a ameaça com armas; a mãe atira objetos, abusa verbalmente ou paga outros para tanto; Tonya grita, xinga, bate de volta, se livra, supera - e o mundo a rejeita. E eis que Tonya será xingada, abusada e difamada de novo, de novo e de novo.

Esse espetáculo grotesco, porém, é circular mas não é gratuito, como sugere o ato nos Jogos Olímpicos de Lillehammer. Com as roupas e maquiagem cada vez mais elaborada em seus dias finais em nada lembra a “Trashy Tonya” que os juízes não conferiam boas notas por causa não da performance técnica mas por não apresentar “imagem família”; Craig Gillespie enfoca então Margot Robbie como uma espécie de pierrete, versão feminina do pierrô, o palhaço triste. Quando o rock e as roupas caseiras somem e entram a maquiagem pesada e a música clássica pesada e dramática, Gillespie dá a dica: finalmente a  vida pessoal da protagonista alterou sua arte de forma irreversível. 

No final, Eu, Tonya também é um filme sobre duas Tonyas - heroína e vilã, campeã e derrotada, que conheceu muito lixo e arranhou a superfície do luxo. E enquanto levava (muitas) porradas, vivia nos ringues de gelo uma vida que não lhe pertencia, mas que viveu intensamente durante as horas lá dentro. 

É por isso que, afora Robbie, nenhum ator do elenco vai além da caricatura - Janney reproduz todos os trejeitos da monstruosa mãe de Tonya, mas é isso; uma imitação muito bem feita. Stan como o marido psicótico e abusivo, com todas as armas para arruinar a vida da personagem. E assim vai para o patético guarda-costas metido a espião de alta patente, o repórter de tablóide (que nunca existiu), as bem-intencionadas treinadoras, e por aí vai. São as potências de Tonya para o bem e para o mal.

Até que para um filhote de Scorsese que chegou ao Oscar, Eu, Tonya é um filme de substância consistente; é claro que, assim como aquele que bebeu na fonte, pode frequentemente se perder pelo caminho, por vezes ficar redundante e simplificar demais conflitos e personagens que não interessam. Mas quando é sobre a pessoa que patina para viver e vive para patinar, nunca perde sua impressão inicial de pancada na cara.

Comentários (1)

Taumaturgo Moura | quinta-feira, 01 de Fevereiro de 2018 - 13:56 | Responder

Achei a História da Tonya Harding, Sensacional e "para um filhote de Scorsese" que bebeu da fonte não deixa de ser um dos melhores filmes de (2017) Ótima! Crítica, Bernardo D.I. Brum.

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