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Excitação

(Excitação, 1976)
7,1
Média
14 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Uma esculhambada coerência

8,0

O mestre Jean Garret na área. Em material que mistura sobrenatural e tecnologia para montar um terror na mais pura estranheza, e sem faltar uma putariazinha básica com a cara da boca do lixo.

Cria tensão de começo. Trilha, planos, montagem, som, suor, corda, desespero e sangue. A angústia da forca. Suicídio. De cara já temos uma ideia daquilo que podemos esperar. Um crescente internalizador consequencial obsessivo. Os closes e detalhes (influência do monstro José Mojica "Zé do Caixão" Marins) em função do terror. Em seguida uma abertura solenemente misteriosa com a imagem dum olho em infravermelho. Tem marmota vindo por aí. O Jean já impõe estes esquemas e alguns outros signos visuais para demonstrar um encaixe entre trama, motivação e existência tácita dos personagens. Como nos primeiros planos da Arlete (Betty Saady) atrás das grades em sua casa de praia. Uma suposta tranquilidade que, na verdade, viabiliza a solidão daquelas figuras naquele ambiente. Mesmo que ela seja uma sacaninha adiante, e que esta insulação se esvaia rapidamente. Filme gaiato.

O trato maroto dos closes e zooms-in bem desenvolvidos dentro do escopo dum terror referencial ao já citado Zé. E Garret leva isto adiante com a escolha da proeminência do corpo feminino, como na cena do banho quase morte com a nudez de Helena (Kate Hansen). Normalmente no cinema da boca a intenção era a produção a toque de caixa e que se fomentasse um fio narrativo para que se propusesse a mensagem a ser passada, na base da nudez se possível. Fosse a mensagem qual fosse. Erótica, terrorífica, policial e até política. Em grande parte destes materiais, ou pela pressa, ou pela própria operação, o esquema era desenvolvido da forma mais grosseira possível, com muita simplicidade e frontalidade, o que era uma beleza. Óbvio. Garret ainda ia além disso. Em seus materiais preconizava um trato mais bem acabado com a imagens usando-as a serviço da tal mensagem frontal e metendo signos obsessivos das escolhas das suas obras. Tal qual a apresentação da praia aqui. Assim como a cena inicial do suicídio e a retratação dos personagens. Com suas idiossincrasias saltando na tela. Incluso a questão da ambiência, ora aloprando no simbolismo visual da solitude – em planos de contemplação com Helena e por suas perambulações praieiras – ou com Lu (Zilda Mayo) – a prima da Arlete – sempre explorada como figura para desequilibrar o ambiente, mostrada em exagero e sempre seminua. Hansen quando seminua fica é quase para morrer ou para ser rejeitada. Sacou a solidão através das escolhas estéticas?

Clima de isolamento. E o som do relógio. Um som incômodo. Este é outro signo imposto pela direção, mas desta vez é um usado sub-repticiamente. Martelando nos mais variados momentos desta obra. Desde a simbolizar a tensão na cena inicial, ou no passar do tempo tedioso de Helena como a esposa a esperar pelo marido na praia enquanto é acometida por marmotas na noite. Isto ressaltado pela música Beto Stroda, que reafirma e amplifica as esferas de solidão, tensão e tesão da fita. No caso da tal solidão acaba por se somar aos sons do tal relógio, dos aparelhos caseiros e do mar, criando uma atmosfera de impaciência e eterna espera. Isolamento da pária. Da louca. Da traída. Solidão. O tédio temporal vagarosando, algo que serve pra alimentar a aflição e paranoia da própria Helena. A espera pela ajuda ou pela escapada é melhor alimentada quando há esperança. A espera do marido que a cure a sensação de abandono e do medo. Medo não só de ficar sozinha pelo unidimensional da coisa pensada, mas pelo pavor embutido de teor paranormal.

Chifre e a ligeireza das relações. Mal se conhecem e tome-lhe? Massa demais a noção de narrativa da galera da boca do lixo. Mesmo que eu tenha afirmado da sagacidade narrativa do Garret, rudezas sempre estão presentes. E isto é joia. Num momento inicial o filme vende que a relação de adultério é criada naquele momento, sem cerimônias. A posteriori isto se explica pela revelação final, mas meu ponto nem é sobre esta relação em específico, mas sobre a personagem da Lu que simplesmente chega e participa das relações sexuais de maneira escrachada e foda-se. Estabelece-se sua função desordeira – e de futura vítima claro – e pronto.  Quer algo ainda mais bruto? Algumas viradas de chave que a montagem de Walter Vani propõe. Como exemplo temos a inquietude e solidão de Helena perante os eletrodomésticos que ganham vida somando-se às alucinações que a mesma tem, tudo isso num clima tétrico, macabro e doloroso, com cortes mais rápidos, gritaria e ensurdecimento do medo. E no plano seguinte temos a sucessão marota do maridão e sua amante na praia com alegria e desfaçatez. Com uma câmera mais detalhada nos corpos e uma montagem menos dinâmica. Porra, mas isto pode ser visto em todo filme que tenha terror e putaria, mas neste tem a diferença da falta dum respiro. Aqueles planos para fazerem o espectador sentir a passagem temporal e espacial de forma minimamente constante. Aqui é dum plano ao seguinte esta virada de chave. A cara da boca. Este direcionamento objetivo e honesto funciona bem ao contraditório do terror sobrenatural à putaria. Esta falta de sensibilidade, ou de narrativa no engendramento da fita nos moldes academicistas da coisa, me é muito satisfatória. Eu quero a brutalidade. Ainda mais num filme que tem como proposição uma adentrada sobre solidão e terror. Terror, terror e terror. Onde esta virada de chave funciona tanto como choque quanto como um método de despertar do espectador. O cinema da boca mesmo quando fino era grosso. Brabo até na finura.

E esse troço de cadeira do suicídio? É a maldição presente. Onde somos condicionados a cair na loucura de Helena desde o início, num misto de casa amaldiçoada com esquizofrenia abusiva. Do que se trata tudo isso? O suicídio. Tem que motivação? O filme solta a cena e usa do defunto pra infernizar a lombrada Helena em aparições escrotas. E sem explicar porra nenhuma. Pra que? Assim mantém-se o clima de mistério até o tal desfecho. Nisso o filme se segura bem.

E as aleatoriedades outras? A começar pelo operacional das frases feitas. Do papo do maridão trabalhador à priminha devassa afim das curtições. Aquelas frases montadas para exprimir momentos próprios que funcionam pela pura breguice direta da boca numa década brasileira mais preocupada em viçar e informar avacalhando do que defenestrar radicalizando no político. Se era o que a censura permitia? Tome-lhe de novo. Quer outra aleatoriedade? A entrada do macumbau. Dentro do terror místico. Ora, se a mulher acreditava estar sendo atacada por eletrodomésticos possuídos porque não a manifestação macumbatória não poder-se-ia resolver a situação? Ainda mais por conta do conceito grotesco dado à seitas de matrizes africanas no período. Um misto de salvacionismo misticista com dança macabra. E numa montagem marotamente paralela entre a prima Lu dançando rock e a tal macumba pra curar a paranoica principal Helena. O que tem a ver esta montagem paralela? Mais uma dualidade engendrada pela obra? Ou outra forma esquisita de aterrorizar? Acredito que ambas. Tudo que envolve Helena é dramatizado pelo infortúnio do paranormal esquisitoso solitário. Então enquanto busca – perdida – uma solucionística, mediante todas as suas dificuldades (até do ventilador a mulher apanha), a prima Lu é mostrada como ser absortamente livre, feliz, transante e desapagada do que quer que seja. Tanto que haveria um conflito entre elas com direito a semi-atropelo de moto da Lu e tirocínio da Helena como revide. Inclusive como quando Lu é executada e a culpa recai em Helena. O filme protagoniza momentos soltos num primeiro momento e mantém a narrativa neste esquema até nos mostrar o objetivo daquilo. Isto enquanto cruza diversas vezes com a própria grosseria. Garret sabia exatamente o que estava fazendo.

Ah, mas que o diretor era um maroto sabido, era demais. Pra confabular todo os esquemas de decupagem escrotizadora propostos era preciso um violento ser na foto. Aí que entra a fotografia do grande Carlos Reichenbach, o Carlão, aqui em um dos trabalhos como fotógrafo de material boquista – a saber, o seu primeiro na função na boca. Além do que já afirmei sobre a construção da ambiência contemplativa em planos calculados para a solidão e o fechamento doutros tantos no erotismo boquista quando necessário e para a demanda de tensionamento, Carlão manja talento em vários espertos movimentos de câmera a denotar a fina putaria. Exemplo de caso? Ora a câmera mostra a Helenona presa encastelada na beira do mar, ora faz um cínico movimento dali ao longe até apontar sua lente para o casal adúltero – o marido Renato (Flávio Galvão) e Arlete (Betty Saady) – dando o gás na areia da praia. Uma esculhambação grosseira? Perfeitamente, mas altamente bem executada. A tensão é montada e remontada através dos citados zooms e closes. Estes zooms-in incomodadores, e seus contra-plongées e plongées denotando poder e acusação. Como quando Helena é acusada de assassinato, com a câmera a confrontá-la. Além dos planos no cemitério cercados de simbolismo objetivo com um trabalho de luz, sombras e cruzes que o Zé do Caixão aprovaria de pronto. Joia demais.

E como este negócio finaliza? Que surpresas ele manja? Helena aumentando na piração. O aproveitamento dos corpos. A cena do creme entre as mulheres, o erotismo ditando as sensações e servindo de mote para o trágico final. Segredos e marmotas alimentam a apreensão. A doidiça mantém o interesse.  As mulheres e garotão dominador. Fica com as três em distintas curtições – mas com Helena não tem sexo. Era clássico da boca o domínio machoso. E nisso o filme aposta na putaria como responsabilizadora do destroço. Não de maneira moralista, mas a jeito de ação e consequência. As perguntas vão se amontoando. A casa isolada é uma forma de pressão? A putaria será punida? Helena matou? Porque diabos Paulo se papocou? Que final filha da puta. Plot twist safado, maroto, brega e escroto. Renato, o nosso garotão, trabalha com computadores através da família rica de Helena e nisso mantinha um caso com Arlete antes da trama se desenrolar. Lembra da afirmação minha que a relação abrupta não era entre os dois? Nisso o cara usou de um recanto da casa para meter os eletrodomésticos a serem controlados pelos seus computadores para enlouquecer e deslegitimar quem ali estivesse. Assim Paulo se mata e assim Helena é mandada para o hospício. Não tinha sobrenatural. Era filme de chifre e esquizofrenia. Uma porra que era. O fantasma de Paulo chega junto na Helena que volta à casa de praia e trucida o casal adúltero na bala. Sobrenatural não só ao fim, mas presente dutrante todo o percurso. E aqui tem segredos do filme mesmo. Quero nem saber. E nem aviso. Os pontos são fechados nesta surpresa com direito a uma rima visual coerente com todo o trato da obra com Helena absolutamente sozinha ao fim. Como sempre. A coerência da esculhambação.

Crítica integrante do especial Abrasileiramento apropriador do Halloween

Comentários (1)

Lucas Reis | quarta-feira, 30 de Dezembro de 2020 - 13:31

Boa, Ted! Garrett é gigante!

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