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Críticas

Cineplayers

Juntos para nada.

4,5

Quando Danny Boyle ganhou o Oscar por Quem Quer Ser um Milionário (Slumdog Millionaire, 2008), um comercial da TIM celebrava o “fim das fronteiras” simbolizado pela vitória de um filme “indiano” em uma premiação tão prestigiada em Hollywood. Ouvi coisa parecida na minha sessão de O Exótico Hotel Marigold 2 (The Second Best Exotic Marigold Hotel, 2015). Nenhum dos dois é indiano. São filmes ingleses sobre a Índia. A ideia de que qualquer um deles, ou mesmo que os números musicais de “homenagem” incluído neles, possa representar Bollywood é tenebrosa, perpetua a cultura indiana a partir de uma visão neocolonialista de sua antiga soberana e mantém o cinema indiano na marginalidade onde foi deixado inclusive pela cinefilia.

Não é justo, no entanto, culpar apenas os espectadores desavisados. Afinal, O Exótico Hotel Marigold parece achar de fato que a Índia ainda é uma colônia da Inglaterra, um lugar exótico (acharemos realmente que o título do filme refere-se estritamente à natureza improvisada do hotel?) que ilustres idosos escolheram para se aposentar de uma Inglaterra que já não os interessa. A Índia é necessitada pela narrativa para vender uma ideia de choque cultural entre o espaço e a pompa das damas e cavalheiros do cinema, teatro e televisão britânicos.

A união de Judi Dench, Maggie Smith, Bill Nighy, Penélope Wilton, David Strathairn, Celie Imrie e Ronald Pickup sugere apenas isso: que eles estão no mesmo filme. Alguns deles, inclusive, estão lamentavelmente sem brilho. As poucas presenças realmente carismáticas são curtas. Há também esse terrível problema do filme. O horroroso roteiro mistura inúmeras tramas ruins ou simplesmente mal desenvolvidas; então, se você, como eu, agrada-se pela característica expressão de Maggie Smith (uma das poucas que ainda demonstra algum interesse pelas cenas que faz) terá que esperar por escassos segundos dela na companhia de um Dev Patel que passou longe do limite da atuação over e agora é apenas irritante.

Outra boa e rara presença é a excelente Tamsin Greig, das séries Episodes e Black Books. Ela e Richard Gere são os hóspedes mais jovens do Hotel. Gere parece só mais uma adição tola à constelação do elenco. Greig, Smith e mais alguns poucos atuam no filme; Dench, Nighy e Gere simplesmente estão nele. Ao ver a publicidade da continuação, entendi erronemente que a escalação de Gere era uma piada, uma sugestão cômica de que ele tinha ficado velho o bastante para o Marigold Hotel. Não, para o filme, ele é um jovem; mas, com o sucesso de Downton Abbey, as contínuas indicações ao Oscar de Dench e a maneira como Nighy se fez presente com muita facilidade na cultura pop, Gere é aquele mais próximo de remeter a uma lembrança do que era.

O Exótico Hotel Marigold 2 também sofre do mal de quase todas as dramédias atuais: a conclusão ideológica particular de cada personagem não é passada pela força da narrativa, mas por longos e constantes discursos falados que se afastam da realidade e se aproximam da pieguice moralista. O clímax é transformado em texto de autoajuda por um roteiro que não tem onde mais se apoiar de tão fraco.

O que é deduzido pela moral é facilmente antecipado. Um misto estranho, mas muito contemporâneo, de carpe diem com nostalgia restauradora. Há uma certa ode à tradição indiana que é problemática não tanto pelo anseio dos personagens por essa tradição quanto por sugerir que a tradição pertence mais à Índia do que à Inglaterra. É impressionante a tranquilidade com que os ingleses esquecem que vivem em uma monarquia.

O Exótico Hotel Marigold 2 é o que o cinema europeu tem de pior atualmente: comédias ocas estreladas por dois ou três alguéns que deveriam ser utilizados em melhores projetos. O cinema da Europa Ocidental, principalmente o francês, tornou-se o Hotel Marigold para quem quer apenas bons cachês e conforto. Eles terão os dois enquanto houver bilheteria para isso (por enquanto, há bastante). Não posso dizer que não mereçam.

Comentários (3)

Augusto Barbosa | sábado, 16 de Maio de 2015 - 20:07 | Responder

Haha, Maggie Smith, desde sempre, roubando a cena inclusive em filmes ruins - não vi este, mas lembrei, com essa crítica do Castanha, daquele horroroso Divinos Segredos, também de elenco estelar, mas onde só a presença dela vale alguma coisa.

Cristian Oliveira Bruno | sábado, 16 de Maio de 2015 - 20:20 | Responder

Quem Quer Ser um Milionário? já foi sofrível. Esse aí então, me parece muito pior. Vontade zero de assistir. Gostei da análise sobre o atual momento do cinema comercial europeu. Parece que esse tipo de filme serve apenas como showroom de grandes nomes. É o Mercenários versão Light Zero em gordura trans. Belo texto.

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