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Faça a Coisa Certa

(Do the Right Thing, 1989)
8,0
Média
296 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Carta ao Spike Lee

10,0

Este texto não é uma crítica. 

(...) Se o peito bateu apressado é porque já sentiu a magia.
Tiro das sombras minhas cruciais reflexões,
Ouço os ecos do silêncio e aqui deixo minhas impressões.
As respostas quase sempre vêm em forma de questões,
Mas, a gente só entende Após Algumas Estações.” 

- Elo da Corrente

Um certo dia no Rio de Janeiro, um jovem negro brasileiro de 17 anos pegava um ônibus em direção ao cinema Cooper Tijuca para assistir Faça a Coisa Certa (Do The Right Thing, 1989), de Spike Lee, na ânsia de buscar respostas que já apareciam em formas de canções nos cassetes de Run DMC e Public Enemy. Ao deparar-se com a construção e, em mesma medida, destruição de um Brooklyn que ele apenas podia imaginar, abre-se um portal na mente daquele jovem.

Quando as luzes se apagaram naquela sala sem ar condicionado, a bituca de cigarro abafada na mochila foi acesa junto ao sopro inicial do saxofone que ataca o corpo de Tina (Rosie Perez). A explosão de movimentos do corpo da atriz ritmado por "Fight the Power" conduzia o pipocar de ideias num ritmo tão escaldantes como a "We Love Radio" de Mister Señor Love Daddy (vivido pelo até então quase desconhecido, Samuel L. Jackson): “Acorde, acorde”. Faça a coisa certa!

A partir do primeiro encontro com Mookie (Spike Lee), a mirada inadaptada formada pela sociedade carioca que além de excluir o negro, marginalizava-o do padrão estético vigente tanto no cinema como na televisão acordaria para nunca mais dormir no ponto. Entregar uma pizza ao lado do personagem protagonizado pelo próprio diretor do filme era um gatilho condutor para a reconstrução do próprio universo social, e também artístico, a partir da valorização de um novo olhar, o próprio olhar.

A semente no corpo daquele jovem que sofria pelo estilo desleixado e por sempre estar atrasado em seus bicos de entregador de jornais numa banca de revistas não cresce apenas pelo o que o filme é, ou seja, não é apenas o punho brilhante e afirmativo de Radio Raheen (Bill Nunn) que toca os ouvidos e olhares daquela violenta baforada escondida no cinema, mas também pelo que ele é feito. Um elenco repleto de atores negros, um bairro negro e, acima de tudo, o criador de tudo era um negro. Era ali que pela primeira vez muita gente deu-se o direito de pensar: se esse cara pode levar a tribo dele ao mundo, eu também posso levar a minha.

Este atrevido pensamento veio automaticamente acompanhado de outro: o cinema que brotava além da “Sessão da Tarde”, que parecia apenas pretensioso, cabeçudo e individualista, acendeu-se de forma coletiva. Já não tinha sentido esconder-se atrás da fumaça solitária do fim do expediente ao lado do Zé Manel da Banca no Centro.

O jovem queria crescer fazendo a coisa certa, queria sair pelas esquinas do bairro a contar a maravilha daquela sessão, queria encontrar qualquer orelhão para conversar com qualquer amigo sobre a novidade. A real é que a grana para as fichas sempre foi pouca. A empolgação deu lugar a uma estranha sensação. A angustia da solidão de uma sessão catártica alucinava, e não deixaria nunca de perseguir os silêncios daquele rapaz, não havia como pensar a arte se não fosse de forma coletiva.

A faísca tirada pelo Spike Lee nos olhos daquele moleque foi pólvora, mas não para escolher entre Malcom X ou Martin Luther King. A explosão daquele espaço de trabalho pelos próprios moradores do Brooklyn já não dava opções; por mais que tudo ainda fosse muito difícil, a caminhada parecesse longa, chegava a hora, o portal tinha-se aberto, e já não era impossível porque alguém já tinha feito.

Muitas estações passaram, Spike Lee construiu uma carreira exitosa e inspiradora para jovens de todas as gerações cinéfilas por todo o mundo. Entretanto, nada tira da minha cabeça aquela tarde na Tijuca que eu mesmo nunca vivi.

Esse texto é uma colaboração com Emílio Domingos.

Emílio Domingos é cineasta, cientista social, pesquisador, roteirista e produtor. Como realizador, completa 20 anos de carreira em 2020.

Comentários (2)

Rodrigo Torres | sexta-feira, 20 de Novembro de 2020 - 09:52

Foda! Amo muito esse filme e adorei o texto, a crônica... Foda!

Rosa | segunda-feira, 23 de Novembro de 2020 - 09:56

Texto show! Do The Right Thing também tem um lugar especial no meu coração.

Igor Guimarães | segunda-feira, 23 de Novembro de 2020 - 19:36

Obrigado, Rosa! É um filmaço mesmo!

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