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Críticas

Cineplayers

Uma estação de olhares amplificados.

9,0
Adentrar o espírito de um lugar, de uma geração, de um período de tempo, não é tarefa fácil realizar isso enquanto cineasta, nem uma coisa de cada vez, que dirá de todas juntas. Pois Jô Serfaty arremessou a bola e fez um 'strike' completo com um filme acima de tudo profundamente jovem. A diretora parece se apropriar da intimidade entre seus personagens, tanto afetiva quanto espacial, adentrar aquele universo de códigos próprios e muito específicos, e ir decodificando aquela realidade para o público, principalmente o de fora da ambientação mais periférica do Rio de Janeiro, em um projeto que é universal e certeiro ao mesmo tempo.

O filme vai olhar para quatro pessoas, Karol, Junior, Caio e Ronaldo, adolescentes moradores da comunidade de Rio das Pedras na zona oeste da dita Cidade Maravilhosa, e sua rotina ordinária em momento de ruptura - o início do verão é também ele o significado de férias escolares, liberando os amigos para ampliar na frente das câmeras suas modestas rotinas. Seja procurando emprego, se relacionando por aplicativos de encontros, tocando em uma banda ou indeciso quanto à natureza de sua vocação religiosa, Jô aborda essas questões de maneira limpa e direta, em reflexões sobre campos esperados e outros bastante inusitados.

Com a ajuda da experiente montadora Cristina Amaral, a diretora injeta a agilidade necessária a um longa dessa natureza, que acaba ganhando a dimensão que o universo retratado pede, ganhando com isso o alcance do próprio público. O filme assim é igualmente sofisticado e acessível, promovendo o encontro entre esses seres de maneira orgânica, ao mesmo tempo que se debruça sobre seu dia a dia mundano, também trata esses elementos em peças de importância vital, formatando aquela narrativa e situando seus acontecimentos como se foram eventos extraordinários, glorificando sua naturalidade ao ponto dela realmente se transformar.

Desde o início fica claro o quão sutilmente político o projeto é, com sua ambiência e seus personagens e suas escolhas, vozes e quereres. Percebemos uma intenção onírica intrínseca àquela realidade quando essa política tem carga positivada ao contrário da realidade atual, e aos poucos essa sutileza passa a seguir também esses rituais diários, inclusive os rituais propriamente ditos e ligados à figura de Caio, numa encruzilhada entre o evangelho e o candomblé; ou o videoclipe de Karol, que transforma sua comunidade num Japão estilizado, e trás de volta alguém que partiu. Jô se permite olhar esse microcosmos com a proximidade que criou filtrando o real pelas lentes, assim como também insere esses espasmos folclorizados que pintam de colorido essas figuras tão comuns.

Um projeto que poderia ter sido rodado da forma mais previsível possível acaba por abrir para mais abas do que se imaginava ao se permitir conjurar o básico ao metafórico, ampliando sua significação dentro e fora de seu escopo. Ao ventilar pelas vielas reais, as lajes reais com seus ensaios irreais, as piscinas artificiais com uma estação real, ao verticalizar seus heróis e dar humanidade e relevo a eles (e transformar Caio em um misto de mensageiro do ecumênico com um poço de contradições e efervescência interna), Jô Serfaty vai além de criar um panorama social, ou uma radiografia de uma geração, ou uma plataforma de discussão sobre as liberdades individuais que podem ferir nossos próprios desejos; é isso tudo e ainda mais, não costurando nenhuma ponta final e deixando claro que o verão é só uma estação. Aqueles meninos vivem ela e todas as outras.

Filme visto na Mostra de Cinema de Tiradentes

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