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Críticas

Cineplayers

Uma grande personagem em misto equivocado de ficção e documentário.

1,0

Flordelis é daquelas pessoas admiráveis e cuja história merece ser contada e conhecida por todos. Apesar de extremamente humilde e moradora da favela do Jacarezinho, ela começou a fazer rondas noturnas no seu bairro com a finalidade de tirar as crianças e os jovens do mundo das drogas e do crime. Posteriormente, passou a acolher em sua própria casa crianças que não tinham para onde ir, muitos deles sobreviventes de chacinas, que eram comuns no Rio de Janeiro da década de 1990.

Hoje, cerca de quinze anos após começar estas adoções – hoje são 46 filhos adotivos e 4 biológicos –, Flordelis virou tema deste documentário ficcionalizado, dirigido por Marco Antonio Ferraz e Anderson Corrêa. Infelizmente, a própria gênese do projeto e as escolhas artísticas tornam a obra indigna de sua homenageada.

A geração de Flordelis - Basta Uma Palavra Para Mudar já explica bastante a bagunça na estrutura do filme. Idealizado para ser um curta-metragem sem maiores aspirações, acabou se transformando um projeto maior com a entrada de astros da televisão, como Reynaldo Gianecchini, Débora Secco, Aline Moraes e Cauã Reymond, entre muitos outros.

A participação destes atores deu maior visibilidade ao filme, agora já rascunhado como um longa-metragem, a ponto deste conseguir distribuição - o que é missão hercúlea para filmes brasileiros -, mas a forma encontrada pelos diretores estreantes de encaixá-los no filme é completamente surreal: eles interpretam depoimentos de personagens reais da vida de Flordelis, frente a cenários emulando a favela. Nos créditos finais, são apresentados os personagens verdadeiros correlacionados à quem os interpretou, e a pergunta que fica é: por quê não utilizaram as personagens reais?

Acaba tudo soando muito falso - os atores extremamente maquiados, a fotografia bem cuidada em preto e branco, os depoimentos decoradinhos, sem margem para erro ou hesitação. Até mesmo os depoimentos de Flordelis (os únicos em cor) não parecem espontâneos, mas sim textos decorados previamente. Ela consegue transmitir verdade em suas palavras, mais pelo apego à pessoa do que pelo discurso. Fica uma grande sensação de incômodo. Para piorar, a edição deixa tudo correr frouxo, com as cenas durando uma eternidade – sem contar o constrangimento ao ver alguns atores, como Pedro Neschling e Letícia Spiller, tentando fazer o que não sabem.

Ao final, acaba sendo um filme de boas intenções, socialmente relevante, que evita cair no piegas (mas cai) e na evangelização forçada (citações à religião são até discretas, exceto uma ou outra canção gospel na trilha; a homenageada, que é evangélica, é quem tem um discurso mais forte a respeito). Flordelis, uma das poucas pessoas que a gente pode reverenciar sem qualquer titubeio, merecia uma homenagem melhor.

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