Saltar para o conteúdo

Críticas

Cineplayers

Tinha um Shakespeare no meio de tão desastroso caminho.

1,0
Então, existem duas formas de ver o filme novo de Vinicius Coimbra: como uma seriíssima nova adaptação do clássico dos clássicos Macbeth, do bardo maior William Shakespeare - dessa forma corre-se o risco de ter vontade de arrancar os olhos e ouvidos; a outra forma seria embarcar na comédia involuntária presente desde a primeira sequência - a vontade sanguinária permanecerá mas ao menos o espectador sairá da sessão com a barriga doendo de tanto rir. E acredite: o filme dá munição de sobra pra risos eternos, e lembrança de uma sessão hilária por meses.

Não sei qual a forma certa de adaptar Shakespeare, se com extrema austeridade e reverência, ou com liberdade e renovação; já deu certo de ambas as formas, e errado também. Cineastas e astros tão diferentes como Laurence Olivier, Kenneth Branagh, Orson Welles, Mel Gibson, Ethan Hawke, Michael Fassbender já tentaram, com diferentes resultados. E Coimbra não será o último... no entanto, algo eu sei: precisa ter talento, para Shakespeare ou qualquer outro projeto. Coimbra tinha estreado na direção com uma adaptação de Guimarães Rosa (A Hora e a Vez de Augusto Matraga), vencido discutivelmente alguns prêmios no Festival do Rio com ele, mas tinha pegada lá, vontade de acertar, e acima de tudo, um elenco de sonho que segurava as pontas pra todos os lados. Passar de João Miguel, Irandhir Santos e os saudosos José Wilker e Chico Anysio para Gabriel Braga Nunes e Ana Paula Arosio é como trocar ouro por latão, e aí o trabalho já começa no prejuízo. Literalmente.

Explico: o filme abre com a representação de Macbeth vivida por Braga Nunes encontrando uma bordadeira na frente do poderoso banco onde trabalha e ouvindo dela profecia que move a história clássica: se tornará presidente em pouco tempo. Quando a tal mulher desaparece, como o personagem corre atrás dela? "Senhora... senhora...!!!", e a alusão ao famoso vital da funcionária pública é inevitável. Pronto, tá aberta a caixa de piadas prontas que o o filme é. Quer mais? Bom, o filme foi todo rodado no Uruguai, em belíssimos cenários naturais e artificiais. Somente a suspensão da descrença mais forte encaixa aquilo em qualquer parte do Brasil que seja, melhor é abrir mão de qualquer compromisso e colocar na cabeça que aquilo é um "lugar perdido no tempo e no espaço".

Passemos então ao texto. Excesso de respeito às vezes é negativo, e o filme passa de um polo a outro: ou mantém diálogos inteiros completamente deslocados da realidade atual (como a única cena com Emiliano Queiroz), ou "coloquializa" tudo as raias do igual absurdo. As situações não são necessariamente bem adaptadas, com espaços temporais esquisitos e canhestros que cabem no palco (lugar de origem do bardo), mas nunca numa representação mais dinâmica da realidade quanto o cinema. Ou seja, o filme tem um clima fake pra onde se olha, em cenários suntuosos, figurinos discrepantes e situações absurdas.

Serei breve e não vou me aprofundar na falta de potencial dramático de Gabriel Braga Nunes e Ana Paula Arosio, no mínimo deslocados, equivocados e sem qualquer preparo para algo desse porte, quando não perdidos e nada convincentes e/ou naturais. De nada adianta Nelson Xavier, Angelo Antônio, Rui Ricardo Dias, Juliana Carneiro da Cunha e o já citado Queiroz tentar amenizar o estrago; são participações pequenas que gravitam em torno de um casal bem fraco.

Mas no fim das contas você pode ler isso tudo e embarcar nessa Floresta da forma que aconselhei no início do texto, o lado cômico. As chances de apreciar serão maiores? Talvez, vai que você está num período masoquista da vida, ou de exigência bem pouca em relação ao cinema. De qualquer maneira, se tem um conselho que pode-se levar pra sala escura é de esquecer a realidade; o filme de Vinicius Coimbra é um OVNI na cinematografia nacional. Entendam isso como quiser.

Comentários (55)

Helena Novais | sexta-feira, 20 de Novembro de 2015 - 12:07 | Responder

Katz, eu não sou nova aqui. Fiz parte da equipe de críticos por cerca de um ano em 2007, 2008, depois me retirei para estudar. Senti que precisava estudar para não ficar com uma visão limitada. Sim, as coisas mudaram muito. Mas, não é problema apenas do Cineplayers. É geral! E é isso que é mais angustiante. No fim, muita gente acaba usando a Internet apenas para se informar sobre os lançamentos da semana. Normalmente eu também me calo e sigo a vida. É que desta vez juntou o comentário do Samuel com a minha própria irritação.

Victor Ramos | sexta-feira, 20 de Novembro de 2015 - 12:18 | Responder

é muito mais fácil fazer uma crítica atrás do computador do que ir pra traz da camera e fazer um filme bom de vdd

Não gostou faz melhor? Sério que chegamos aqui?

Cristian Oliveira Bruno | sábado, 21 de Novembro de 2015 - 00:10 | Responder

Tem gente que leva site de cinema mais a sério que a própria vida. Isso sim tá angustiante....

Helena Novais | domingo, 22 de Novembro de 2015 - 16:16 | Responder

Ah, tah... Um site de cinema é um ser isolado em alguma dimensão exterior à vida...
Entendi! 😲

Faça login para comentar.