Saltar para o conteúdo

Críticas

Cineplayers

Produção independente de sentimento sincero e agradável, mas que pouco (ou nada) ousa em seus padrões.

7,0

Cinema independente. Este chamado tipo de produção, onde pouco existem as amarras dos estúdios e é permitida uma maior liberdade criativa aos seus realizadores, é bastante apreciada entre aqueles que buscam se refugiar dos lançamentos estrondosos e barulhentos que lotam as salas de cinema toda semana. São produções de pequeno porte que quase sempre abrangem um público menor, em busca de histórias que fujam do básico das muitas histórias formulaicas concebidas pela grande Hollywood. Boa parte das produções independentes são assim, embora vez ou outra algum título consiga alcançar um quê de popularidade maior que o esperado (impossível não lembrar de Juno em momentos como esse).

Olhando desta forma, é de se estranhar que Frank, dirigido por um desconhecido Lenny Abrahamson (seu filme anterior foi o drama irlandês O Que Richard Fez), pouco aproveite as liberdades criativas que as produções de menor porte conferem. É um filme estranho, de personagens deslocados e esquisitos, onde o próprio Abramson em conjunto com os roteiristas Jon Ronson e Peter Straughan demonstram um profundo e notável amor pelas figuras fora dos padrões que passeiam pela tela. Mas nem mesmo esta visível esquisitice é capaz de diferir o filme de muitas outras produções semelhantes por aí. Há o humor negro, há o drama existencial, há a música como elemento impulsor e até mesmo um road movie que leva os personagens em meio a uma jornada de autodescoberta. Em resumo, há toda aquela reunião de elementos que são tão deliciosos quanto repetitivos. Mas Frank não é diminuído por isso, e sim pela pouca animação com que brinca com estes elementos.

Mas vamos por partes. Em Frank, conhecemos seis personagens bastante distintos: um tecladista com tendências suicidas, um homem com um estranho fetiche por manequins, um francês pouco comunicável, uma garota de impulsos violentos e um homem que passa o tempo inteiro usando uma cabeça falsa, e este é Frank (Michael Fassbender), personagem que dá titulo ao filme. Após a tentativa de afogamento do tecladista da banda formada por estes rostos (e desafio vocês a pronunciar o nome da banda, The Soronprfbs), o tuiteiro e compositor Jon (o sempre carismático Domhall Gleeson) é recrutado como novo integrante da banda, e juntos eles decidem passar um ano reclusos numa cabana, trabalhando nas composições de seu álbum (mas apenas o processo de uma composição é vista durante todo o filme).

Num todo, Frank pode ser visto como um filme sem propósito, onde seus personagens de atitudes bizarras e extremas servem apenas como meio para que situações estranhas e inesperadas possam ser construídas. Não é um filme para qualquer um. Aos apreciadores de filmes com este tom, Frank pode ser um retrato dos loucos e deslocados que encontram sua liberdade justamente nas suas diferenças com o mundo ao redor, mergulhado no marasmo das semelhanças. Os personagens de Frank são diferentes e sabem disso, abraçam suas personalidades com força, pois sabem que a felicidade individual é originada do desapego pelo igual. Tais personagens poderiam soar caricaturais ao extremo se estes também não fossem humanizados durante o andar da história, onde a tragédia e a infelicidade também atingem estes personagens que buscam fugir do cotidiano do “mundo real”.

E, assim, Frank vai deixando de ser um filme sem propósito para ganhar novos contornos e se assume como uma jornada de autodescoberta, agridoce e melancólica. Neste sentido, é interessante a perspectiva com que acompanhamos a história: Frank é o protagonista, mas jamais acompanhamos a narrativa por seu ponto de vista. Este é sempre visto por nós em terceira pessoa, sob o olhar dos outros rostos que o rodeiam, especialmente com o personagem de Gleeson. Assim como ele, estranhamos e também nos deslumbramos com Frank, e aos poucos este estranho fascínio vai dando lugar ao desencanto, a quebra da imagem que construímos sobre Frank lá no início. É um processo de humanização belo e respeitável ao protagonista, e quando o roteiro finalmente adentra no real universo de Frank, sentimos compaixão e uma curiosa proximidade com aquele rosto que nunca vimos.

Mas apesar de toda essa bela construção, Frank consegue ser um filme assim tão especial? Infelizmente, não. O que é também estranho, pois apesar dessa aparente imprevisibilidade, Frank é um filme de contornos já batidos, ainda que belos. Há muita sensibilidade por trás de toda a história, mas esta também carece de maior ousadia, pois se pensarmos bem, todos os elementos citados acima já foram vistos e revistos em diversas outras produções de mesmo porte, o que indica que Frank, apesar de trabalhar bem com estas características, não ousa em nada fora delas.  Desta forma, fica a dúvida se Frank é um filme que veio para ficar ou se, com o tempo, se tornará apenas mais um no meio do cinema independente.

Mas em nenhum momento a experiência deixa de ser válida por causa disso. Um sorriso no rosto do espectador fica após o subir dos créditos finais, assim como a certeza de que a jornada em busca dos verdadeiros sentimentos de Frank valeu à pena. Mas também fica aquele gostinho de que, com um pouquinho mais de ambição e uma certa dose de desapego aos clichês independentes, poderia ter sido um filme verdadeiramente memorável.

Comentários (5)

Felipe Ishac | domingo, 24 de Maio de 2015 - 21:22 | Responder

Eu gostei da atuação de Domhnall Gleeson, que não só está ótimo nesse como em Ex Machina. A banda em sí tem personagens bem forçados, mas é um filme legal e fácil de se assistir!

Ravel Macedo | terça-feira, 26 de Maio de 2015 - 11:54 | Responder

Achei ela a melhor atuação do filme, ao lado de McNairy.

Faça login para comentar.