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Fuja

(Run, 2020)
6,1
Média
53 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Chaganty no preparo de velhas receitas cinematográficas

5,5

*contém spoilers

O indo-americano Aneesh Chaganty, ainda um cineasta bem novo com seus 30 anos, lança esse Fuja (Run, 2020), apenas seu segundo filme. Pra efeito de comparação, o que mais distancia essa segunda empreitada da primeira, com aquele hábil Buscando... (Searching,2018), é o manejo da linguagem cinematográfica. No filme de 2018, ainda que já observássemos esse uso diferenciado dos códigos do cinema em longas como Amizade Desfeita (Unfriended, 2014), dentre muitos outros, não deixava de ser excitante a ideia de dispor os elementos em tela, todos à vista de nossos olhos, num espaço que simulasse, por exemplo, a tela de um celular ou de um computador. Demonstração por parte do novato diretor de que havia repertório e imaginação suficientes para fugir de chavões, pelo menos aqueles vistos na forma.

Em conteúdo mesmo, tanto “Buscando...” quanto este "Run" (no título original) não fogem de raias comuns, com as quais o espectador no geral já muito se familiarizou. Salvo me engano, o último filme que assisti e que me remonta a uma clara vibe supercine, a qual me abateu na forma de dejavú enquanto assistia este Run, é O Presente (The Gift, 2015). Filme não muito próximo tematicamente de Fuja, mas com uma condução que parece estar se tornando tendência na abordagem de suspenses modernosos. Eu explico. Seria algo na linha de: temos um conjunto de clichês e personagens-arquétipo em mãos e precisamos fazer algo que fique no meio do caminho entre uma demanda de estúdio e um sítio mais autoral.

Fuja se apropria justamente dessa máxima. Até a primeira metade, é um filme realmente cativante e teremos essa confirmação posteriormente, quando tantas revelações surgirem de forma anti-natural. Momento em que talvez tenha me arrependido de criticar a previsibilidade eficiente daquele início especulativo. Início esse que, bastante promissor, faz valer a lógica de que menos é mais.

O que vemos é praticamente apenas uma locação, a casa onde vivem mãe (interpretada pela quase sempre ótima Sarah Paulson) e filha, uma surpreendente Kiera Allen, que usa da condição de cadeirante na vida fora do set de filmagem para contribuir na sua performance artística como atriz trabalhando justamente em cima dessa protagonista que não se locomove. Em cima desse espaço reduzido, o velho clichê das pequenas ações que vão despertando mais e mais suspeitas conforme passam as horas e dias dá as caras. Objetos como o misterioso comprimido verde, que coloca a protagonista em tensão, também aparecem como uma pequena pista do que realmente está acontecendo, que é bem perigoso por sinal.

Táticas pra fisgar o espectador e manter uma atenção em nível razoável. O roteiro é carregado desses macetes bem funcionais, sendo redigido pelo próprio Chaganty em parceria com Sev Ohanian. O texto vai revelando ações da mãe que nos fazem ter certeza de que a coisa toda desembocará em clímax muitíssimo carregado de adrenalina.

O que se percebe ao final até é um efeito de “uau!”, acompanhado de suspiros, mas não é propriamente orgânico. O que se vinha construindo anteriormente, mesmo que soasse como um requentar de convenções de gênero, é deixado de lado. A engenhosidade da direção na sequência onde Chloe escapa do quarto em que está presa, dando a volta na casa pelo telhado e chega rastejando até o cômodo em que almejava, quebrando o vidro em superação impressionante, se perde num registro atropelado logo em seguida. A captação burocrático-explicativa prevalece em detrimento da câmera cheia de potencial, ostentada por Chaganty no primeiro ato tanto com o uso diferenciado das lentes quanto de uma bem utilizada profundidade de campo.

Os afamados plot-twists surgem marcando o final do filme, que vinha como exercício de tensão, para dar início ao exercício da exposição. Descobrimos pelas revelações abruptas e aos montes do roteiro que aquilo visto até então não era o que se imaginava. Começa aquela famosa correria, para a qual longas como esse costumam se render, sobretudo daquela sequência do hospital pra frente. A adrenalina rola solta, é verdade, mas sem sutileza e aquela progressão muito boa que conferimos na primeira metade.

A derradeira cena, antes dos créditos subirem, é o típico momento revenge dessas narrativas. Tem seu quê redentor pra boa personagem da filha, vivida por uma, repito, exímia Kiera Allen trabalhando muito com o olhar, mas é na intenção meio gratuito, algo que ali está pra dar uma piscadela ao espectador soltando um: “conquistei-te”. É, portanto, um filme de duplo sentimento, aquele de um espectador compenetrado e envolvido pelo suspense que come pelas beiradas do Chaganty da primeira metade e um sabotado pelo Chaganty da segunda, que esperava aquela resolução surpreendente que não puxasse a atenção pra si e pro rocambolesco, mas sim ajudasse a amarrar os pontos com mais naturalidade.

Para o bem ou para o mal, um filme que, em palavra simples, diverte em meio a conveniências forçadas e nada discretas. Poderia mais, talvez você concorde comigo, mas a sessão com essa dupla afinadíssima de atrizes valeu e muito o ingresso para a jornada dos primeiro quarenta minutos, suficientemente instigantes, bem realizados tecnicamente e carregados de agonia para a protagonista que, em sua luta de gato e rato com a mãe, troca o Buscando... pelo Sobrevivendo...

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