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Críticas

Cineplayers

Contar uma história.

10,0

O cinema mudo, ao ser reduzido na memória coletiva a cinco ou dez filmes, constitui o provável período mais subestimado da história do cinema. É tão difícil aceitá-lo como conjunto de manifestações artísticas do audiovisual independente e variado que até mesmo seus recentes pastiches, aqueles que se propõem a reconhecer a época e reconstruí-la, perpetuam estereótipos ignorantes que o limitam à afetação dos gestos.

O Artista e Blancanieves são tão presos a isso e tão pobres por isso que são incapazes de encostar na grandeza do cinema mudo: a incrível habilidade para se contar uma história visualmente. Os dois filmes não conseguem se desvincular do cinema sonoro, hegemônico ao seu redor. O diálogo é caríssimo a esses filmes. Podemos não ouvir o que os personagens falam, mas os filmes não abrem mão de ter compreendido por nós tudo o que foi dito.

O ucraniano A Gangue, com todos os seus diálogos em linguagem de sinais, não tem a mesma pretensão de pastiche desses dois, mas se aproxima da engenhosidade do cinema mudo como poucos filmes desde que Charles Chaplin aceitou fazer Carlitos falar. A história é um daqueles contos de violência juvenil que já cansamos de ver por aí. O que Miroslav Slaboshpitsky, diretor do filme, faz é contá-la com raríssima destreza plástica. Desde os dois Os Nibelungos, O Martírio de Joana D’arc, Aurora, alguns dos meus queridinhos do cinema mudo, eu não sei se a imagem cinematográfica foi tão suficiente para construir uma narrativa quanto em A Gangue.

O conhecimento do diretor das imensas possibilidades do quadro cinematográfico é evidente na riqueza de detalhes. Ele frequentemente permite a liberdade do olhar do espectador para ações de fundo, fazendo de cada plano uma ampla janela para o universo representado. Somos convidados a espiar, procurar pistas, personagens, estudar ações, porque, mesmo que muito seja dito no filme, o diretor não se apoia no significado exato da linguagem, mas apenas na força do que ela motiva nos personagens. E, para o impacto da história, isso é o bastante.

Alguma coisa na juventude de inocência perdida em movimento por longos planos me lembra o Elefante, de Gus Van Sant, também favorecido por primorosas decoupagem fotográfica e preparação de elenco. Curiosamente, são dois filmes com trabalhos sonoros admiráveis, embora em A Gangue, por motivos óbvios, isso esteja mais destacado, quando motores, passos e demais impactos mecânicos nos alertam para perigos que os personagens não poderão prever.

Pode-se dizer, arriscando a superficialidade, que a narrativa no cinema e fora dele tradicionalmente busca uma boa maneira de se contar uma história. Nesse sentido, A Gangue é virtuoso pela originalidade, cuidado e força. Daí para obra-prima talvez seja só uma questão de tempo.

Visto no Janela de Cinema do Recife 2014

Comentários (3)

Gustavo Hackaq | sexta-feira, 31 de Outubro de 2014 - 03:30 | Responder

Junto com Mommy, esse é o filme que eu to mais me descabelando e desesperando por atualmente.

Matheus de Medeiros Paes | sexta-feira, 31 de Outubro de 2014 - 12:32 | Responder

Ansiosíssimo para ver esse filme! E com essa crítica e essa nota, só tá aumentando a vontade.

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