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Gêmeas

(Gêmeas, 1999)
6,6
Média
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A tortura do duplo

7,5

O tema da duplicidade sempre gerou muito conteúdo no cinema e na literatura. Se O Duplo (1846), de Fiódor Dostoievski, inspirou Cisne Negro (Black Swan, 2010), de Darren Aronofsky; O Homem Duplicado (Enemy, 2013), de Denis Villeneuve, se baseou no romance homônimo de José Saramago, só para citar alguns casos recentes. Há uma magia quase obsedante nos famosos Doppelgängers desde o século XIX, em relatos de pessoas que padeciam ao se encontrar com o seu duplo. O tema parece ter sido alimentando em creepy pastas all over the internet. A ideia do duplo é de uma ligação (carnal ou imaginária) com sua cópia, o que parte para um confronto direto consigo mesmo. Pode haver um elemento dúbio que leva à tortura e obstrução de um dos seres, incapazes de conviver com o outro em todas as circunstâncias. E parece que essa foi a força motriz de Gêmeas (1999), de Andrucha Washington, talvez a obra de terror mais importante da Retomada.

Com o roteiro adaptado por Washington e Elena Soarez, a trama se passa nos anos 1980 em um bairro de classe média do Rio de Janeiro, onde duas gêmeas idênticas, Iara e Marilene (interpretadas por Fernanda Torres), se divertem enganando homens ao trocar de papéis, levando seus pais à loucura. Mas quando a bióloga Marilene conhece Osmar, se apaixona pelo rapaz e decide que não pode dividi-lo com a irmã costureira. A incapacidade de não ocorrer trocas em ambos os lados, aliada à possibilidade de manter vidas separadas, leva as duas irmãs a uma espiral trágica.

Inspirada no conto homônimo de Nelson Rodrigues – autor que se aventurou um pouco pelo que poderíamos inclusive chamar de horror em algumas obras – há aqui muitos elementos que marcaram sua literatura: clima suburbano, rivalidade feminina por um homem, inveja, entre outros. Mas, por conta até mesmo do ano em que o filme foi lançado, alguns maneirismos foram suavizados por Washington, que deu à trama ares de sobriedade e tragédia. Muitas referências do cinema hollywoodiano podem ser vistas aqui, boa parte delas oriundas da fotografia de Breno Silveira. O clima soturno, quase gótico, da casa onde as gêmeas moram com os pais, garantem ótimos momentos de cinematografia, com luxos como o uso de vitrais e contraposição entre claro e escuro. Uma explícita licença poética, se formos observar que o filme se passa no Rio de Janeiro.

Washington constrói seus pressupostos de forma tranquila, oferecendo uma direção segura, possivelmente uma marca de sua experiência com filmes publicitários e como produtor, assim como na direção do seu primeiro longa, o documentário Os Paralamas do Sucesso em Close Up (1998). A qualidade técnica surpreendente é sua melhor aliada. Muito provavelmente por falta de orçamento, todo um jogo de câmeras teve que ser feito para que Fernanda Torres pudesse contracenar consigo mesma.

Na trama, fica estabelecido desde o começo a ligação quase esotérica entre Iara e Marlene, apesar de suas personalidades serem bem distintas, um velho clichê de gêmeos. Se Iara é o estereótipo da Femme Fatale despretensiosa, Marlene é séria e resoluta. Mas os limites da relação das duas nunca ficam claros, o que garante o suspense e o interesse do espectador, aguçado pela curiosidade. Os espaços não preenchidos que asseguram camadas extras, aliado à forma dinâmica como o filme é apresentado, dão ao diretor o poder de amplificar elementos horríficos, que de outra forma poderiam nem estar ali. O risco de um fracasso acachapante deve ter guiado muitos dos seus passos, muito por conta do período histórico.

Gêmeas é um dos principais filmes da chamada Retomada do Cinema Brasileiro nos anos 1990, e um dos poucos do gênero de horror e/ou suspense. Após a extinção da Embrafilme pelo presidente Fernando Collor no início dos anos 1990, as produções chegaram quase à nulidade. Somente em 1993, com a Lei do Audiovisual, que os filmes brasileiros puderam voltar a ser viabilizados. Washington, produtor da Conspiração Filmes, se fixou no lado demoníaco do subúrbio carioca retirado da obra de Nelson Rodrigues, produzindo também o curta Diabólica (1999), de Cláudio Torres, para o longa Traição (1999). Há muito o horror não era explorado enquanto um gênero viável para um grande público e o caminho rodrigueano se configurava algo mais seguro, por ser amparado em uma literatura de qualidade e aclamada, flertando com Hollywood de forma robusta, com ecos não tão distantes de Brian de Palma. O resultado é um filme ainda hoje subestimado, que merecia mais atenção especialmente porque o gênero de horror tem aos poucos ocupado espaço significativo na produção nacional com bons filmes.

 Partícipe do Especial Abrasileiramento Apropriador do Halloween

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