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Glaura

(Glaura, 1995)
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Críticas

Cineplayers

Tristeza não tem fim

9,0

Glaura (1995), de Guilherme de Almeida Prado, versa sobre o cinema brasileiro de meados da década de 1990. Especialmente, sobre o passado da boca do lixo paulistana, local emblemático em que uma parcela considerável do cinema popular brasileiro foi produzida, entre as décadas de 1960 a 1980. Entretanto, na época de lançamento do filme - após o fechamento da Embrafilme - os profissionais da Boca encontravam muitas dificuldades em obter trabalho no setor. Assim, o filme carrega um pessimismo inerente àquele momento de crise do cinema brasileiro e do Brasil.

O próprio Guilherme de Almeida Prado é uma dessas figuras saídas da Boca. Foi assistente de direção e, posteriormente, realizou seus primeiros longas ali. Assim como o diretor de fotografia Carlos Reichenbach, que se notabilizou como um dos principais realizadores da região. O elenco também tem seus ícones da Boca, como o ator José Lewgoy. Aqui ele faz Orestes, um senhor cadeirante cheio de bom humor e sabedoria. O elenco conta também com Matilde Mastrangi, musa das pornochanchadas que dá vida a uma vizinha irritante.

Glaura (Julia Lemmertz) vive com o marido Pedro (Alexandre Borges) e a filha Safira junto do sogro Orestes, o proprietário de uma pequena residência de classe média baixa. O casal não tem condições de morar na própria casa devido à crise econômica que abalou o Brasil no final da década de 1980 até meados da década de 1990. Então, eles esperam Orestes falecer para ficar com a moradia sem precisar dividir a herança com os irmãos de Pedro.

A mobília é recheada de materiais do Corinthians. Para situar o filme em um ambiente tipicamente paulistano, Prado enxerta o futebol como uma marca daquele espaço. Daí, dá-lhe sacolas, canecas, quadros, flâmulas e camisas do Corinthians. Isso sem contar com a necessidade de Pedro e Safira em ir para o jogo do time de coração a qualquer custo. Em trabalho anterior de Prado, A Flor do Desejo (1984), já havia uma característica parecida. Para inserir o espectador geograficamente na região portuária da cidade de Santos, onde a narrativa se desenrola, há algumas menções ao Santos Futebol Clube. O realizador destacava, assim, a relevância do futebol  no contexto social em que suas obras se inserem.

Em Glaura, além das diversas manifestações ao futebol, à música - especialmente à música popular brasileira -, também tem um papel fundamental sendo evocada diversas vezes. A personagem-título, porém, não tem qualquer interesse por futebol, música ou outra coisa. Ela, inclusive, vive em constante conflito com a vizinha e o sogro, pois eles têm, por hábito, cantar. Glaura é uma mulher amargurada e, aparentemente, nada é capaz de diverti-la. Ela carrega consigo o nome da avó, legado de um passado afortunado, mas que não tem qualquer serventia no presente. Inclusive, é motivo de deboche por parte de Pedro, que enxerga o nome da esposa como algo antiquado.

Na longa sequência - especialmente se levarmos em consideração que o filme tem quinze minutos - em que Glaura carrega o sogro por uma escadaria para levá-lo até a igreja, fica impressa a difícil vida que ela leva - seja pelo diálogo penoso que trava com Orestes, seja pelo esforço físico que se torna uma metáfora de sua vivência que parecem se suceder e ela não consegue nem refletir sobre como começar a se reorganizar. A personagem de Glaura seria como o Brasil, ou ao menos, como o cinema brasileiro que, naquele momento, não parecia ter um futuro promissor e só restava se agarrar ao passado.

Glaura, contudo, volta a sorrir. O motivo de sua felicidade - e a alegria aqui está associada à música - acontece por conta de um acidente. Um imprevisto que, senão reorganiza o universo e recoloca as coisas em seus devidos lugares, ao menos é a possibilidade de uma satisfação momentânea, o que parece ser o máximo de prazer que Glaura tem o direito de sentir. Por fim, ela faz questão de aproveitar, embora saiba que aquele sentimento vai se encerrar ao entoar: “tristeza não tem fim, felicidade sim”. Assim como o cinema brasileiro, a vida de Glaura é marcada por apenas uns pequenos momentos de bonança.  

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