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Godzilla Minus One

(ゴジラ-1.0マイナスワン, Gojira Mainasu Wan, 2023)
7,9
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Godzilla é caos e escombros para os japoneses desgarrados

8,0

Godzilla Minus One (ゴジラ-1.0マイナスワン, Gojira Mainasu Wan, 2023). Fonte: Divulgação Toho
Godzilla Minus One (ゴジラ-1.0マイナスワン, Gojira Mainasu Wan, 2023).
Fonte: Divulgação Toho

Aqui mais uma roupagem do monstrão Godzilla, na intencionalidade de servir como um aporte dramático antiguerra sério, mas se coloca a disposição do entretenimento na ação. Equilibra muito bem as ações e as conjugações dramáticas dos personagens. Parte do pressuposto central não somente da bomba atômica como mote motivacional da criação da aberração (que de fato tem sua origem mutante aqui presente), mas do trauma de guerra acarretado por isso com teor responsabilizatório sobre o império japonês e seus mandos e desmandos diante do conflito bélico que devastara o país. O Godzilla sendo um eterno castigo a se repetir. 

De cara temos logo uma primordial aparição da fera que me parece ser uma referência à sua origem como dinossauro fictício – Godzillasaurus, que consta em sua primeira apresentação em filme da Era Heisei da Toho (segunda fase de obras do Godzilla 1984-1995), Godzilla Contra o Monstro do Mal (ゴジラvsキングギドラ, Gojira tai Kingu Gidora, Godzilla vs. King Ghidorah, 1991), e tem sua origem como um dinossauro perdido e que seria mutado por explosão atômica próximo a ilha de Lagos, que era sua morada –, que neste Godzilla Minus One era mitificado pela população local da ilha de Odo, e que a partir de testes nucleares norte-americanos feitos no Atol de Bikini na Operação Crossroads, teria se metamorfoseado via mutação radioativa no Godzilla propriamente dito. Uma adaptação e homenagem à fita da Era Heisei. Aliás ele é cheio de referências a crias audiovisuais anteriores de diversas fases e sem se curvar a obviedade das mesmas. Acertando na organicidade nesse ponto. Feita esta exposição de origem, voltarei ao material.

A sua primeira chegada como dinossauro já é foda e traz peso e circunstância ao aspecto de horror proposto. Deste o surgimento abrupto e sua ação barbarizadora. Inclusive já moldando um preparo do que poderia surgir dali em diante e servindo de base para as modificações que o Godzilla sofreria diante de seu crescimento após a radioatividade – num primeiro momento essa criatura é feroz, mas ágil, diferente do poder destrutivo e cadenciadamente truculento que viria a seguir. O que parece ser um drible ao baixo orçamento na iluminação num primeiro momento na verdade percebo ser a criação de clima de suspense bem montado em conjunto com o som. Um animal em ataque. Servindo de base para o fabrico dalguns personagens, como o próprio Gojiroso, o piloto kamikaze com medo de morrer e o mecânico hardcore. Aqui já tem início a elevação de temas. A covardia? Poque existe a guerra? Quem está certo? E o bicho graúdo no meio da porra toda.

Godzilla Minus One (ゴジラ-1.0マイナスワン, Gojira Mainasu Wan, 2023). Fonte: Divulgação Toho
Godzilla Minus One (ゴジラ-1.0マイナスワン, Gojira Mainasu Wan, 2023).
Fonte: Divulgação Toho

Desde já não quer apontar inovação nenhuma, inclusive é obvio até o talo em suas escolhas. Não surpreende em nada em sua estrutura, mas frontalmente não busca isso (salvas algumas opções, que ainda assim possuem certa justificativa – como na revelação da sobrevivência de uma figura, que possui um peso alegórico de seu escape da morte afinal). O jogo aqui é objetivo. São camadas bem delineadas, mesmo que seus discursos sejam de debate em tergiversação, mas a exibição do todo é direta. O monstro como operador simbólico e físico de abalos de guerra e no que essas mais variadas angústias são expostas em suas contínuas depressões mentais de seus traumatizados personagens humanos. É um Japão devastado pela guerra. Que informações essa turma tinha mesmo do conflito? A lógica de guerra moldada pelo império japonês usava de preceitos seculares da tradição nipônica de honra justaposta em guerra, onde o sujeito teria de se sacrificar pela nação assim que esta condicionante lhe fosse apresentada. E quem assim não o fizesse tratado como pária seria. Piloto kamikaze sobrevivente sendo tratado como covarde. Mesmo com toda a catástrofe frontal de guerra às vistas. A decisão do diretor/roteirista Takashi Yamazaki é sagaz em buscar uma desmistificação do sujeito kamikaze sacrificialmente honrado e morto. Inclusive dirigida ao espectador tanto em ações quanto na escrita, já que mais de uma frase são abordadas sobre a questão. “A vida tem valido muito pouco no Japão.” A esta pouca validade de vida, que o filme se projeta ao argumentar a condição de um sujeito que participara de um conflito inventado por um governo que não acertara nas escolhas políticas e que também não tinha condições iniciais de lidar com as consequências de guerra. Ou seja, o piloto é um sujeito que deseja morrer e não consegue assim faze-lo e nisso fica com esta agonia arraigada, e tem sempre o retorno dela a servir como chaga a ser eternamente carregada. A desconstrução empregada desse heroísmo é uma crítica interessante em propor que a indecência da covardia é um mal bem menor do que a não valorização da vida e o sacrifício de um país. Aos olhos ocidentalizados que tem o Japão como um representante de um lastro de respeito tradicional, aqui se lança a esta vertente intrigante. Unindo sim a eficiência japonesa engatada aos seus ditames de respeito de herança e legado, mas montado sob a égide de defesa da vida do povo japonês e assumindo erros históricos de forma assaz decente.

O semblante de tragédia que acometia o Japão no pós-guerra é reiterado desde seu título. Minus One. Menos um. Abaixo de zero. O Japão altamente fodido, derrotado, bombardeado nuclearmente, e tendo que lidar com uma besta-fera absurda que existe por conta ainda de seu envolvimento com a guerra. O que diabos um país destruído pode fazer para lidar com tal criatura? Nisso o filme indaga os erros do Império. "Ninguém assumirá a responsabilidade pelo caos." "Controle de informações é a especialidade do Japão." Condenação às ações tomadas – e não tomadas. A fita é uma ode de defesa à resiliência do povo japonês frente aos descalabros seguidos, e o faz ao mostrar que esta resiliência deve ser carregada de um formato crítico que não se furte em discutir condições ancestrais diante do bem do povo. De que adianta persistir na honra enquanto a população que mantém o país existindo é estraçalhada? E é exatamente dos representantes deste povo japonês que aqui é proposto o combate ao Godzilla, já que nem o governo japonês tem estrutura para lidar com o monstrengo e nem seus aliados estadunidenses que estão em ação de controle sobre o país, mas possuem outras prioridades e não iriam se dedicar a algo que fosse minimamente prejudicial a sua condição dentro de uma guerra fria que começara com os soviéticos. Cabe ao povo japonês, entre civis, militares desgarrados, vagabundos, desobedientes e desgraçados em geral. A esperança do país sobre os esquecidos.

Godzilla Minus One (ゴジラ-1.0マイナスワン, Gojira Mainasu Wan, 2023). Fonte: Divulgação Toho
Godzilla Minus One (ゴジラ-1.0マイナスワン, Gojira Mainasu Wan, 2023).
Fonte: Divulgação Toho

O uso dos movimentos de câmera apontados para a ação destrutiva do Godzilla, existe com uma variedade abusiva de destroços por todo os lados. Uma decupagem de ação de guerra representada pelo anormal. O desmantelo físico proporcionado pela criatura se assemelha visualmente com a calamidade causada por uma bomba atômica. Os planos do Godzilla. De contra plongées à closes. Todos bem usados. O design dessa figura é muito bem ajambrado tanto no que tange ao homenagear fita antigas, quanto em sua internalização persecutória de temas, onde o Godzilla aqui é retratado como monstro brutal e seu visual arrombador que aponta nessa direção. Com cores, escamas e cascas grossas a servir para os intentos da direção. Uma criatura das profiundezas que viera torturar a humanidade sem desculpas outras. O bicho é grosseiro, inegociável, inescapável. É o fim de tudo. Seu gigantismo visual é igualado pela sua ferocidade. Não tem conversa com ele. Não tem forma de lidar com ele que não seja pelo conflito. Ele é um malefício consequencial do ser humano. A disposição dos ataques do bichoso – que une a tecnologia CGI (excelente) empregada reproduz a movimentação clássica dos filmes antigos do Godzilla que usavam o esquema suitmation (cidadão fantasiado a combater maquetes) – replica a guerra, o pavor do desconhecido, e tem um plus por ser sobre uma população que ainda está a se recuperar lentamente de sua fatídica destruição de guerra. Mas o Godzilla não tem nada com isso. Humanos que se virem. Não tem muita firula quanto a isso. Seus ataques são da mais pura obliteração com seu canhão bucal radioativo a ser uma representação visceral da bomba atômica. Um ser absolutamente poderoso que está a contemplar sua própria existência ao lidar com sua condição de dominante. E resta aos japas resolverem a questão com criatividade, já que armamento comum só funciona se preparado com sagacidade. Mesmo que o plano final para o combate com o Godzilla seja meio sambarilove – espertamente se fazem piadas com isso algumas vezes –, a intenção é propor uma luta mediante a realidade material dos japoneses naquele momento desesperador. A esperança atrelada ao povo como mais um mote de resistência. E a brutalidade do Godzilla alimenta não só o sentimento de agonia, mas propõe uma ponderação sobre a ação humana não somente em um conflito, mas em como se destrata seu povo em prol de um objetivo outro. O Godzilla é o outro criado como diagramação do desastre. Um aniquilador tácito que se entrelaça a dramas e pesares e que vai ser usado como expiação japonesa. Ao findar um respiro aliviado de escape, mas sempre com a perspectiva de busca por uma melhora não só em termos de ação, mas de revisitação histórica crítica de ações próprias.

Obviamente como passatempo esse negócio funciona muito bem, inclusive com referências a citados materiais anteriores da própria saga assim como a norte-americanos outros como os trabalhos do Spielberg como Tubarão (Jaws, 1975), [a cena de perseguição no mar com o uso de minas marinhas remete ao suspense clássico] e Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros (Jurassic Park, 1993) [a primeira manifestação do Godzilla como ainda o Godzillasaurus relembra a primeira aparição do Tiranossauro Rex]. O usos da trilha sonora também são de um puta tesão, seja pelos arranjos originais de Naoki Sato, ou pela reutilização de temas clássicos do mestre Akira Ifukube como o tema original de Godzilla (ゴジラ, Gojira, 1954) ou composições doutros filmes {referenciando obras da Era Showa 1954-1975} como o King Kong vs Godzilla (キングコング対ゴジラ,Kingu Kongu tai Gojira, 1962) – ambos dirigidos pelo mestre Ishirô Honda. O já citado equilíbrio entre ação braba e traumas enraizados. Acaba por ser um microcosmo das qualidades das mais variadas fitas desse destroçador que tratam de questões sociais e ditames políticos com um tom de dramaticidade feraz. Tudo entregue com parcimônia e tranquilidade de quem tem plena segurança da mensagem que quer executar e transmitir. E esta segurança é vista em tela. O tamanho de um mito re-transportado e que ainda tem o que afirmar. Não quer inovar, como eu já escrevi, mas quer manter um ponto de reflexão sobre política e história através de uma veia de entretenimento dramático. O Godzilla é drama. Caos. Emoção. Política. História. Destruição. Monstruosidade. O maior monstro. Gojira.

Parte do especial Monstruosidades Imensas

Comentários (1)

Alan Nina | quinta-feira, 16 de Maio de 2024 - 10:42

Excelente texto

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