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Críticas

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História da carne.

7,0
O texto pode conter spoilers sobre a trama
Num prefácio à História do Olho, de Georges Bataille, prefácio que curiosamente, mas não por acaso, surge depois do texto principal do livro, o autor conta sobre uma breve obra que havia escrito ainda antes da que temos em mãos, intitulada W.-C, livrinho sujo e posteriormente queimado, fruto de sua devassidão e “cabeça de filósofo”. O relato se segue num misto de fictício e real, em que Bataille, sem em momento algum citar o próprio nome ou o de um pseudônimo que possa ter relatado tais eventos, narra em não mais que dois parágrafos a história do pai que o concebeu cego, tornando-se pouco depois paralítico, e da criança que assistiu deprimida a tudo isto – enquanto ainda tentava ser criança. Conta dos episódios em que precisou ajudar o pai a defecar, geralmente em meio a guinchos de dor, e sempre com a presença do olho cego a “observá-lo”. Sabemos, por ter lido o texto e pelo que seu título sugere, ser uma obra em que a metáfora do olho se atualiza constantemente, desde o prato perfeitamente arredondado e cheio de leite em que sua amante se senta, logo no primeiro contato entre os adolescentes, até o sol, o globo incandescente que incendeia uma tourada espanhola em que os protagonistas (ou seria ele o olho?), em meio ao fervor sexual incontrolável, não conseguem sequer reprimir a transgressão que simbolizaria transar ali mesmo. 

O que une o prefácio perturbador e imiscuído de Bataille à ideia central do Raw (2016) de Julia Ducournau me parece ser estritamente da mesma ordem: o infante que transforma imagens de absoluta repulsa e angústia em uma devassidão transgressora e incontrolável se conecta pelo mesmo liame de rebatimento que a reprimida Justine: logo num dos primeiros eventos, instalados sutilmente como que por esperteza diabólica da realizadora, a mãe tem um surto histérico durante um almoço numa lanchonete, em que, sem qualquer aviso às restrições, carne empanada havia sido misturada no purê de batatas da filha. Esta, obviamente, não lhe responde – à situação ou à mãe – com qualquer furor, fica restrita às tentativas, que percebemos serem sucessivas, de apaziguar a histeria. E se percebemos haver certa ideologia excessiva diante da transmissão do vegetarianismo de pais para filha(s), uma segunda ainda se instaura: a menina deverá cursar, aparentemente sem opções, a faculdade de medicina veterinária. Escapar ao consumo animal para tratar exatamente deles, apalpar suas carnes, medicá-los, praticar neles com incisões, jorros de sangue, corpos trêmulos em meio aos testes e procedimentos.

E eis que, num dos trotes, a repulsa ideológica, ainda numa esfera mental, toma outro aspecto, desce em nivelação: vendo-se “obrigada” a mastigar carne de coelho crua, a garota transmuta o regozijo numa alergia grotesca, atinge o nível biológico, agora irrestritamente conectado às ideias, e sua pele descama até quase atingir a própria carne. Pergunto-me se o raw (cru) do título não se refere justamente a tal ressignificação: o cru da carne, o cru do não-preparo, da matéria como lhe vem, parece começar a se manifestar num cru da falta de verniz, da impossibilidade mesma de esconder a reatividade do corpo da menina, suas chagas, seu vômito, sua paranóia, e sobretudo porque há ainda um outro nível de adensamento por ramificação. Se a teoria dúplice da sugestão do título está correta, o desprazer do nojo, a repulsa anterior à carne se transforma, agora, num desejo irrefreável por ela mesma: Justine não só quer carne, como se torna a carnívora mais extrema. O cheiro e a visualidade da nuca do colega de quarto, a leveza com que opera uma incisão através de toda a barriga de um cachorro, o sexo que a leva a morder, cheirar, comportar-se como uma cadela, a embriaguez alcoólica que a faz se transformar praticamente em uma – tudo conflui para uma bestialização, a menina se torna o animal que tanto recusou dentro de si, ainda que por ingestão. 

O tratamento de Ducournau a toda reação processual é dado com a mesma leveza com que Claire Denis filmou Desejo e Obsessão (Trouble Every Day, 2001), ainda que acredite que Denis tenha mais perícia para tornar o enquadramento e a duração coesos à trama: a visualidade do corpo, nela, é mais pulsional, suas preocupações não parecem girar tanto em torno da crueza que aproxima a obra ao horror. E ainda assim, Ducournau, como se inspirada, consegue ensejar a pulsação das irmãs carnívoras até o ponto em que as duas atinjam a quase inconsciência, o êxtase bestial da entrega quase total ao que nos desumaniza: num acesso de fúria, Justine leva a irmã a travar com ela uma briga de cães: ao invés de socos e pontapés, trocarão mordidas, cusparadas, arrancarão a carne uma da outra, como se a moeda da vitória fosse trocada somente a partir da lesão profundamente epidérmica. 

A mais nova sai com a bochecha mutilada, mas a linguagem de sofrimento dos cães não nos é de todo inteligível. Como se se reconhecessem em suas solidões desviantes, sob os olhares verticalizados e horripilantes dos colegas de curso, é como se às irmãs não houvesse outra escolha senão formar a própria alcatéia. A mais velha ensina-lhe a caçar humanos ao estilo da simulação de atropelamento do Garoto Toshio (Shônen, 1969) de Nagisa Oshima, elevando-a, sem mais delongas, a um nível carniceiro. E se ali tivesse permanecido, naquela aproximação singela e crua, acredito que o filme por si só teria se dado por satisfeito. É exatamente a justificativa genética do final da obra que a torna de certo modo canhestra, malandra demais. Unir as pontas das irmãs com aquelas dos pais, como se estes tivessem aprendido uma docilização para melhor convivência em sociedade, pode surtir o sentido oposto, funcionar mais como um balde de água fria do que como o célere “soco-no-estômago” que certos fins parecem almejar: criar um efeito de sensação chocante não é o mesmo que chocar – e nenhum dos dois, sabemos bem, tem lá seus louros garantidos. O mérito de Ducournau foi o alívio de não empurrar toda a obra penhasco abaixo com um fim que poderia ter sido dezenas de outros. 

Comentários (3)

Matheus Gomes | segunda-feira, 04 de Setembro de 2017 - 23:49 | Responder

Do meio pro fim, perde um pouco do ritmo que mantinha a atenção. Não é um mau filme, mas a propaganda novamente o fez parecer algo que não é... rs

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