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Críticas

Cineplayers

Investigação incompleta do racismo.

6,5
Green Book provavelmente nasce da vontade de Nick Vallelonga contar a incomum história de seu pai, Tony. Teve a oportunidade de servir apenas como argumentista e produtor, mas Nick assina o roteiro do longa ao lado de outro produtor e de Peter Farrelly, que além de produzir, também dirige o longa. Uma história vivida pela família Vallelonga (ou ao menos protagonizada por um deles), mas não apenas por ele. O filme que acaba de ganhar três Globos de Ouro (filme/comédia, roteiro e ator coadjuvante) é também a história de Don Shirley, um pianista clássico no início dos anos 60 nos EUA. A família de Nick tem origem italiana e Don tem a pele negra, o que o afasta automaticamente desse universo. Mas Don precisa de um motorista com 'habilidades especiais' porque fará uma turnê de 2 meses pela América sulista, e Tony precisa de emprego; está formada a improvável dupla.

Para quem não uniu o nome à pessoa, Farrelly é um Midas de outrora, capaz de gemas do humor como Quem Vai Ficar com Mary?, O Amor é Cego e Eu, Eu Mesmo e Irene, aqui sem o irmão Bobby com a qual assinou os títulos. Longe daquele viés por tantas vezes escatológico, Peter observa o tempo passar ao adquirir intimidade às relações que esquadrinha. Com pitadas de humor que inundam a narrativa até com insuspeita sutileza, o filme não é um drama de tintas fortes - embora parta de uma série de eventos pouco afeitos a graça em situações muitas vezes até graves - mas que conta com a experiência do cineasta para rearranjar a leveza em meio a um caos social que seu caráter implícito nunca deixa de pontuar apesar de tudo; estamos há 55 anos atrás, e os EUA estão prestes a ruir em lutas por direitos civis liderados por pessoas da cor de um de seus protagonistas.

O maior problema de Green Book é de equilíbrio, mas de outra natureza que não o viés de gênero empregado. Diante de um cenário de ebulição racial, onde seus personagens centrais sabem e de alguma forma temem pelos acontecimentos da próxima esquina literalmente, não apenas incomoda o fato de que a presença em cargos decisivos de sua hierarquia de produção seja ocupado majoritariamente por brancos - Octavia Spencer na produção executiva é o nome diferenciado a destacar. Não tem a ver com uma espécie de cota a necessidade de algum roteirista e/ou produtor de origem afro-americana na produção; eles deveriam existir acima da tudo para equiparar os papéis vistos em cena, claramente em posições díspares.

Pois bem, a situação protagonista é ofertada aos dois intérpretes e personagens, mas na maior parte do tempo a ação cabe a Tony, mesmo quando essa ação seja a de observar; Don Shirley pede, precisa, é levado, quando não apenas é um elemento de contemplação do outro. Ainda que isso reflita um comportamento da época, essa ausência de motivação é seguida pela narrativa, que prefere se contentar a também ela tentar entender Don de longe, sem inquirir sobre seus quereres e dores, que obviamente eram muitos. O próprio ato da turnê, escolha do próprio personagem por aquele cenário perigoso pra si; há pouca nuance das motivações dessa decisão, além do restrito contato do mesmo com outros negros como ele. Ainda que alguma poesia aja (Don de encontro a um grupo de trabalhadores rurais negros, palco de uma escravatura nunca finalizada, talvez a tomada mais precisa do filme - ali percebemos que faltaram sutilezas dessa natureza na narrativa), é pouco para um filme que se dispõe a radiografar personalidades ricas e acabe por contemplar a reflexão e a transformação apenas a uma delas.

No entanto não há qualquer sombra de culpa nisso que recaia sobre Viggo Mortensen ou Mahershala Ali. Dois atores já consagrados anteriormente, o filme fornece presentes a eles, que tira o primeiro de um lugar efêmero do herói galã (a bem da verdade nunca procurado pelo mesmo) para mostrá-lo como um glutão ítalo-americano típico, infectado de estereótipos que ele abraça, para na cena seguinte já externalizar luz e humanidade sem jamais apontar erro de enfoque até a desconstrução total, e coloca o segundo numa outra categoria de ator, daqueles lastros íntimos demais para uma tentativa rasa de reprodução, superior em sua arte e potente em sua entrega, além de figura tão fascinante quanto reprimida, que só um intérprete de imenso talento e experiência poderia multifacetar, chegando ambos a dizer muito mais quando calados - embora tenham muito texto. Se 'Green Book' não é o filme especial que poderia ter sido, sem avançar cinematograficamente na simplicidade extrema de sua realização técnica a quase flertar com a irrelevância, são Viggo e Mahershala a darem (vigoroso) corpo e (resplandecente) alma a esses homens os responsáveis pelas reais curvas desse road-movie acidentado.

Comentários (3)

Otavio Augusto do Espirito Santo Barros | domingo, 07 de Julho de 2019 - 22:59 | Responder

Filme é excelente. Tema forte mas tratado como uma sutileza que pra muitos não deveria ser assim. Mas desde MoonLight essa leveza me conduz. Me interessa. Tá lá. É duro. Sabemos o quanto é cruel e desumano. Eu quero consumir o filme mas sem vários socos no estômago. Um só já basta. Recomendo o filme principalmente pelos atores que seguram o filme do início ao fim. Como já era de se esperar.

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