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Halloween Kills: o Terror Continua

(Halloween Kills, 2021)
6,3
Média
35 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A expansão do mito.

8,0

“O mal morre hoje.”

Grande parte do pecado de Halloween (idem, 2018) era esse tão habitual apego à reimaginação de figuras clássicas que se valiam da máxima de acertar contas entre o passado e o presente para, ao invés disso, se tornarem modernizações presas ao nostálgico e que se anulam por conta disso. David Gordon Green não é John Carpenter, e essa deveria ter sido a primeira lição ao entregar mais um revival de Michael Myers nas mãos de um diretor tão cambaleante, que já foi de Joe (idem, 2013) pra O Que Te Faz Mais Forte (Stronger, 2017) num piscar de olhos.

E aí que entra a ironia de Halloween Kills – O Terror Continua (Halloween Kills, 2021) dentro das novas releituras de Michael Myers, já que essa sequência direta é tão apegada ao passado quanto o filme anterior, mas Gordon Green parece ter aprendido a lição ao se desvencilhar da mera emulação vazia da subjetividade de Carpenter: Kills é mais direto, sangrento, brutal (cheguei a me perguntar se isso não era algum aceno para os filmes sanguinolentos de Rob Zombie). Traça um paralelo entre Myers e a cidade de Haddonfield que, ao contrário do que a franquia pouco fez durante toda sua longevidade, finalmente aproveita o potencial de seu cenário para inserir comentários políticos que se fazem valer no contexto da influência mítica de Michael.

De fato, Kills é uma completa consequência do cuidado que os produtores tiveram ao aguardar a recepção e rentabilidade do filme de 2018, uma vez que os planos iniciais indicavam somente dois filmes, mas com a decisão de formar uma nova trilogia, esta sequência inevitavelmente é lançada nas obrigações de “filme do meio” quando, de fato, parece muito mais um gigantesco clímax do anterior. Há decisões que corroboram esta constatação, algumas que irão causar bastante estranhamento e até mesmo desgosto entre os maiores entusiastas – afinal, qual a recompensa para os fãs em manter Laurie Strode durante todo o filme dentro de um hospital sem nenhum confronto direto com Michael?

Nesse contexto, Kills volta os olhos para o passado ao retomar personagens do longa original como as versões adultas de Tommy (Anthony Michael Hall) e Lindsey (Kyle Richards) aliados às figuras crescentes de Karen (Judy Greer) e Allysson (Andy Matichak), desta vez diretamente ativas no decorrer da narrativa. Eu ia dizer “no decorrer da história”, mas isso seria mentir sobre Kills quando ele próprio dispensa este “requisito” pra se ater ao que Michael sabe fazer melhor: assumir de forma quase literal essa personificação do mal sem freios, sem nenhum traço de humanidade, piedade ou racionalidade. E é aqui que o roteiro de Green ao lado de Danny McBride e Scott Teems encontra sua perspicácia quando não se limita a explorar a indestrutibilidade do vilão, mas explora sua influência no comportamento social de toda uma cidade.

Pode parecer uma ideia pequena demais para apenas um filme, e talvez o seja, mas há um magnetismo muito bem vinda nesta ideia de transcender a figura do antagonista e analisar os efeitos de quando o caçador se torna a caça. Michael não é apenas a representação de um antigo medo estadunidense sobre o violar do tradicionalismo pacato de um subúrbio, mas também é o gatilho para o rebanho de vingança de uma sociedade marcada pela tragédia e que só consegue reagir contra a violência através da violência, através da justificação dos fins pelos meios, mesmo que isso signifique perseguir um inocente dentro de um hospital acreditando que ele é o assassino. E o tempo que Green gasta nesse subplot definitivamente vai desagradar muita gente, ao mesmo em que confere uma nova funcionalidade ao legado de Michael. A monstruosidade não é uma mera transferência, mas o despertar de um coletivo que foi construído através de tantas cicatrizes. Ao menos em suas inúmeras continuações, poucas vezes a franquia se deu a permissão de ser tão simbólica e conferir uma atualização tão potente aos seus medos.

Green também corre atrás de compensar o que lhe faltou em gore no filme anterior (culpa daquela obsessão quase suicida em ser Carpenter), e por mais que isso destrua qualquer possibilidade ser um “terror elegante”, a compensação surge em cenas de truculência bastante criativas e que finalmente recuam no medo de serem as mais gráficas possíveis, e Green parece à vontade o suficiente nesse terreno para entregar doses bastante generosas de sangue sendo derramado. O próprio roteiro também aproveita essa nova liberdade para traçar alguns destinos não exatamente esperados para alguns personagens, o que culmina num clímax tão alucinante e catártico quanto anticlimático, e que vai ser um dos principais motivos para os diversos detratores que o filme já está ganhando. Mas esses sacrifícios tomados pelo roteiro são bastante corajosos no objetivo de acentuar essa quebra entre o que conhecemos do passado e do presente. Um posicionamento que valida essa nova releitura do mito de Myers.

Se Kills não alça voos maiores, é muito mais por ingenuamente sucumbir a clichês e obviedades já muito saturadas do gênero (personagens que agem sozinhos quando não deveriam, principalmente) e algumas tentativas de humor que não cabem em certos momentos, mas ao menos Green parece finalmente conseguir elaborar um filme com suas próprias escolhas. Muitas delas questionáveis, sim, mas ao mesmo tempo inesperadas e que conseguem criar novas camadas para essa expansão do mito do bicho-papão. Que venha Halloween Ends.

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