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Halloween Kills: o Terror Continua

(Halloween Kills, 2021)
6,3
Média
35 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A catarse coletiva no mal de um homem só

8,0

Michael Myers sobreviveu ao fogo e parte para destruir quem ver pela frente, enquanto a população de Haddonfield se une pra encontrar ele na porrada. E é isso. A segunda incursão do diretor David Gordon Green nesse universo escroto, com a participação de luxo do Criador John Carpenter como um dos compositores da trilha sonora (novamente, do grande caralho) e como um dos sete produtores executivos da fita. Agora que o mito pelo mal fora reapresentado no filme de 2018, há mais espaço para um massacre desenfreado e irresponsável. Uma beleza.

O cara é uma máquina de matar que sempre fora tratada como mal supremo, então nada mais justo – e nada original claro, mas quem vai atrás disso nessa altura do campeonato? –, que haja a oportunidade de se apreciar toda a brutal matança deste personagem infame. A intenção é intercalar o destroçamento físico e inesgotável do maluco com o crescimento da paranoia justificada da população da cidade a enlouquecer pela influência do mal causado por Myers. Nisso acerta pelos excessos, tanto da violência dum lado quanto da catarse doentia do outro. A aposta é encher estas narrativas de sangue e brutalidade diante da mitologia do mal estabelecida em 1978, afim de fazer o entrechoque de ambas em algum momento. Mesmo que algumas escolhas estúpidas permeiem a produção seguindo à risca alguns dos clichês dos slashers. Mas nada que atrapalhe tanto a condução. O contexto favorece para tal.

Quanto aos personagens, há uma tentativa de fazer crescer a mitificação do Michael que funciona muito bem pela demência comunitária, e trata Jamie Lee Curtis como a amargurada de sempre, mas como uma profeta do apocalypse mais do que qualquer coisa. Afinal a personagem chegara num desenvolvimento sagaz no filme anterior e agora a direção aposta na segurança para manter força pra ela (mesmo que pouco tenha a oferecer em tempo de tela) no material subsequente já filmado. Saem alguns adolescentes imbecis (permanecem poucos) e ficam os amargurados cidadãos em busca de vingança. Onde até a estupidez duns tantos se justifica pela ignorância de informações e imbecilidade coletiva na catarse citada. Aqui se assume frontalmente de quem é a saga. De Myers. Sempre foi e creio que isso fosse de conhecimento de muitos, onde agora o foco é pleno na sua matança novamente. E o que existe ao seu redor é moldado para a destruição, tais quais as mais variadas sequências dos infindáveis filmes slashers, mas neste aqui o lance se desenrola enquanto se enlouquece o resto da galera em Haddonfield como diferencial temático. A fisicalidade tácita de um legado de frio morticínio. O medo não vai embora dos civis, mas alia-se ao desespero por vingança, resolução e alívio retroativamente alimentados dentro duma busca sedenta por desforra.

Claro que temos alguns chavões clássicos pra fazer a trama geral andar e no que tange ao acontecer do encaixe final. Como quando a neta Strode decide ir atrás do psicopata com seu namorado bostinha, além de ter deixado o sogro tapado tentar isso antes. Ora porra, essa criatura já sabe quem diabos é o Myers de perto. A intenção era meter a familiaridade Strode-Myers na jogada final, como gancho para a catarse coletiva da cidade sobre o Michael. O plano estapafúrdio em separar carros e prosseguir a perseguição sobre o cara se justifica porque a maioria ali está insana pela situação em crescente angústia, e porque ou não conhecem de perto o sujeito, ou tiveram uma experiencia antiga demais (e traumática) e malucos ficaram com isso com um despertar tão do apavoro. Assim querem extirpar tudo de seus sistemas. O mal que o Myers causa na cidade. A paranoia pelo medo do que está a espreita. Entre erros e acertos nessa questão o desfecho vai se aproximando, não sem antes de protagonizar uma das cenas mais legais da saga inteira. O enlouquecimento da cidade num hospital onde a devastação claramente se espalha, e seu zênite é a motivação do suicídio de um inocente perseguido e erroneamente alcunhado como Michael Myers. O limite da insanidade do coletivo que, como massa esquisita e vingativa, não escolhe certo seus alvos, e passa a destruir tudo que enxerga com o foco no objetivo do fim do medo. O tal fim do bicho papão. Mas quebrando os ovos errados.

Como curiosidade fica uma questão referencial, onde sobre a fita primeira, Halloween - A Noite do Terror (Halloween, 1978) do próprio John Carpenter, temos vários elementos visuais que um fã plenamente curte como são dispostos alguns posicionamentos de câmera em similaridade de situações a respeitos das vítimas, ou então as participações de personagens antigos em reconstituições dum passado distante. Mas percorri este caminho oportunista meu para precipitar acerca das referências porque o segundo filme, Halloween 2 – O Pesadelo Continua (Halloween II, 1981) do Rick Rosenthal, é material base para algumas questões. Mesmo que a galera da produção anterior tenha prometido excluir este filme de sua mitologia – o que é uma falácia, já que entre filmes bons e ruins um personagem crescera no imaginário coletivo e assim só o é mediante a dívida sobre todas as obras que nele tiveram foco. Portanto, o citado segundo filme é fonte de uso seja na questão do fogo sobre Myers (o final do material de 2018 já citava); o uso do hospital em polvorosa (desta vez cheio de gente); e, principalmente, no crescer transtornado dos personagens em busca da caça. Como fora testado em 1981. Levando a questão a consequências bem mais declaradas com uma carnificina muito bem-vinda. No fim das contas é o mal a se esgueirar nos recantos íntimos de cidadãos de bem.

A mitologia do mal já se reestabelecera fisicamente. Além das mentes destruídas desde 1978, e suas gerações posteriores amedrontadas por isso, os corpos são destruídos com mais brutalidade, coadunando com o que o povo gosta. Destroço. Nisso o filme capricha desde o seu início. Com a frieza de seu protagonista conurbada com tripas e mortes diversas; sejam elas aleatórias, justificadas ou acidentais; o Myers é o mal. Eviscerações diversas sem muito segredos e/ou sombras. Este todo corpanzil de violentamento inconsequente funciona como uma continuidade de crescimento do cara. Mesmo que seja da forma mais rude possível. Um filme rude. Honesto, mesmo que ressuscite de forma canalha um polícia. Ainda assim dos mais francos possíveis. Inclusive, novamente, na morte ou na falta dela. E outra, se existe a proposição de várias sequências cinematográficas, vai ter retorno de gente semimorta sim. Ora, já sabemos do próximo filme a caminho e bem sabemos que Michael lá de novo estará, então porque fingir que ele vai morrer? Baseado nisso temos um acerto crasso na fita. Aproveitar que o cara ainda tem outro filme em vista e assim meter ele pra massacrar todos sem pena e mostrar-se imenso em seu poder até o último plano. O Mal vence. E sem cenas pós-créditos. Não sem antes tentar pregar uma pequena peça no expectador que vos escreve, que já estava ficando puto caso o filme inventasse de simular a morte do psicopata. Mas ele vive. A plenitude de sua força é total. Imparável. Impassível. Indestrutível. A forma. The Shape. Vamos aproveitar este momento.

Comentários (1)

Rafael W. Oliveira | quarta-feira, 20 de Outubro de 2021 - 09:17

Faz uma semana que asssisti o filme, e o sentimento catártico sempre volta quando penso no choque daquela cena final. Um golpe arriscado e grandioso!

Ted Rafael Araujo Nogueira | quarta-feira, 20 de Outubro de 2021 - 15:35

Eu gostei também. Não achei tão arriscado porque o próximo filme já foi rodado, mas diverte pela sacanagem da coisa. Indo contra o instinto desse tipo de material, com o vilão papocando de alguma maneira. O filme funciona bem dentro de sua proposta e apresenta um esquema diferente do anterior, o que é joia.

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