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História de um Casamento

(Marriage Story, 2019)
7,9
Média
248 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Porque eu sei que é amor...

9,5

Chamariam de maturidade cênica de um cineasta um controle absoluto da sua visão sobre a obra, contando a história de maneira direta e limpa, sem rodeios ou apelação para artifícios (artificialismos?) externos, como alteração do tempo corrente em cena, ou recursos reiterativos que diminuem a capacidade intelectual do espectador, como flashback, narração em off ou linha temporal quebrada ou descontinuada, para reforçar detalhes ou elementos que precisariam ser mostrados. A reunião de alguns desses elementos seriam um salvo conduto para atestar um avanço linguístico em uma obra mediante filmografia anterior do autor. A maneira mais objetiva de narrar uma história, no entanto, não é a única maneira acertada de se conseguir os resultados pretendidos. Não é uma regra.

História de um Casamento (Marriage Story, 2019) parte dessa economia de recursos para atestar um avanço de Noah Baumbach em uma proposta iniciada em A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale, 2005) para filmar relações contemporâneas entre pais, filhos, casais, em momento de transição, conflitos em vias de acontecer, apenas à espera do momento de eclosão. Aqui, de maneira nada didática e com certa moderação no uso de elipses apenas o necessário para compreender o avanço da narrativa acompanhamos a relação de Charlie e Nicole, marido e mulher, diretor e atriz, pais de Henry, em busca de respostas que o tempo não trouxe. Em busca da individualidade que o matrimônio deixou de lado. Em busca de entender o outro, que nunca teve a oportunidade de expor sua verdade.

Se a princípio o texto do próprio Baumbach parece conceder espaço questionador apenas para um dos personagens, o desenrolar do filme vai rebatendo as angústias de um e de outro, até que todas as dúvidas sejam sanadas entre eles... Ou a maior parte delas. O brilhantismo do roteiro está em não concentrar suas jogadas como em uma partida de tênis; o rebote ao saque de um ou de outro virá cenas e cenas depois, quando for o momento certo. Os conflitos não se encerram em seus atos, mas quando tiverem de ser resolvidos. Mas serão. O filme parte do princípio básico da ação e reação, mas ela não surtirá efeito imediato; como na vida, nada acontece quando queremos, mas quando for a hora. Ela chegará.

A trilha facilmente reconhecível de Randy Newman é o único aspecto interno a invadir a barroca realização, trazendo uma leveza ligeiramente insidiosa aos espinhos que a encenação setentista propõe. Com inspiração na Nova Hollywood mais especificamente no cinema que John Cassavetes inaugurou, e Woody Allen adoçou , a montagem seca de Jennifer Lame e a fotografia lavada de Robbie Ryan compõem um mosaico cinematográfico de influências cartesianas que faz parte da escola que Baumbach sempre bebeu e aqui encontra um ponto de climax. Contribuem obviamente para isso a atuação uniforme de um elenco espetacular, encabeçados por magistrais momentos de Adam Driver e Scarlett Johansson, seguidos de perto por Laura Dern, Ray Liotta, Alan Alda, Julie Hagerty, Merritt Wever, Wallace Shaw e o pequeno Azhy Robertson.

Constituem a força do longa as inúmeras cenas onde essas pessoas citadas acima demonstram sua entrega empática àquela história. A longa cena do esperado acerto de contas, o inacreditável momento em que Charlie chega a casa da mãe de Nicole e todos os elementos parecem dar errado, a canção de Charlie, o desabafo de Nicole com a advogada, o embate entre os advogados, a leitura final, não apenas todos esses momentos foram escritos com precisão, como dirigidos com intensidade por uma câmera que capta o ângulo certo no momento certo. É um trabalho meticuloso e quase invisível; ledo engano, vide a cena em que Charlie recebe um telefonema e precisa ir à rua, onde o caos lhe aguarda.

Sapatos amarrados, beijos furtivos, lágrimas compartilhadas... Momentos que constituem continuidade, compreensão do outro, afeição genuína, amor perene, tudo isso, nada disso. Talvez só o tempo traga as respostas que cada um gostaria de ter. Mas não o tempo do cinema, aquele que a edição acelera e amaina à necessidade do projeto, não o tempo em que a luz correta precisa atravessar por aquela janela, não o tempo do roteiro que determina quando é a próxima deixa de fala sutil e necessária, mas o tempo da vida.

Crítica da cobertura da 43ª Mostra de São Paulo

Comentários (3)

Jairo Simões | terça-feira, 14 de Janeiro de 2020 - 13:18

Eu estou na mesma do Carlos. Não curtia os textos do Carbone, mas esse eu adorei! Ficou muito bom!

Robson Oliveira | segunda-feira, 23 de Março de 2020 - 21:25

Que filme meus caros... Que filme!

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