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Preço do Talento, O

(Honey Boy, 2019)
6,6
Média
17 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Fazendo as pazes com o passado

7,0

Shia LaBeouf começou a fazer sucesso ainda muito jovem, no início da década de 2000, com as três temporadas da série Mano a Mana do Disney Channel. Daí, foi um pulo para se tornar um dos maiores astros da década graças à franquia Transformers, onde apareceu em três ocasiões diferentes. A década seguinte mostrou o ator perseguindo prestígio artístico em filmes com Wall Street: Poder e Cobiça, Os Infratores e Ninfomaníaca. E lançado no último ano da década, Honey Boy parece fazer um balanço da sua carreira que vai de MTV a Cannes.

Isso porque o projeto dirigido por Alma Har’el, conhecida por dirigir clipes das bandas Beirut e Sigur Rós, é extremamente pessoal: baseado em roteiro de LaBeouf, o filme é uma ficcionalização parcial da sua infância, detalhando a história do jovem astro mirim Otis (Noah Jupe, de Um Lugar Silencioso), que experimenta sucesso inicial na indústria enquanto tenta conviver com James, seu pai ex-alcoólatra, verbal e fisicamente abusivo, a quem contratou como tutor. 

Para acrescentar ainda mais pessoalidade, o roteiro do ator é contado em duas frentes: a do passado, no qual vemos essa relação de pai e filho é aprofundada, e a do presente, no qual Otis (agora, Lucas Hedges, de Manchester à Beira-Mar) está em uma casa de reabilitação tentando fazer as pazes com o passado após bater o carro e brigar com a polícia durante uma bebedeira. Isso carrega uma dose de realidade: toda a ideia do filme surgiu justamente de quando Shia foi internado após situação semelhante em 2017, quando descobriu sofrer de transtorno de estresse pós-traumático. O roteiro foi escrito, justamente, como uma forma de terapia do ator.

Tudo isso torna Honey Boy um filme muito, muito próximo; enquanto alguns podem acusá-lo de lavação de roupa suja em público, LaBeouf parece já estar bem mais tranquilo em relação a isso. Durante uma recente mesa redonda de atores promovida pelo Hollywood Reporter, Shia revelou o que descobriu durante as filmagens: "Empatia pelo meu pai, que sempre foi o grande vilão da minha vida [...] A raiva e a merda pesada são muito fáceis são outras coisas que parecem bem difíceis”. E isso transparece no filme, em que todas as cenas Otis parece tentar buscar uma espécie de conexão com o pai. Nem sempre é bem-sucedido e deixa os instintos tomarem conta de si, atacando verbalmente seu genitor; apesar do antagonismo evidente, não é uma história de maniqueísmo puro e simples

Har’el não inventa muito. Seu filme é o típico filme independente cuja fórmula foi consagrada no Festival de Sundance; é de se esperar muitas lentes objetivas operadas fora do tripé para obter resultados de extrema instabilidade, planos-sequências minimalistas baseados quase unicamente em acompanhar o ator desempenhando o drama, desfoques e efeitos de luz espalhados, bem como sequências musicadas por uma trilha folk. Um tipo de condução que já se tornou clichê e por momentos torna o filme bastante derivativo. A impressão é de que não há muita fuga nesse tipo de gênero consagrado nas últimas décadas. 

Entre os pontos positivos, muito além da performance sensível de Jupe ou Hedges entregando um semi-Shia LaBeouf não apenas em trejeitos, mas encarnando a persona ambiciosa atormentada, está a performance do próprio LaBeouf como James, que, como não poderia deixar de ser, toma o filme para si. Irreconhecível a não ser pela fisionomia, o ator interpreta James como um homem com uma boca suja e pavio curto, pronto para explodir a qualquer momento e que não consegue deixar de provocar o filho por um segundo. Uma performance certamente inspirada como uma presença constantemente ameaçadora e que faria sentido uma provável indicação ao Oscar ainda que tecnicamente falando seja mais coadjuvante à história central, o tipo de força cênica poderia provavelmente conseguir espaço entre as atuações protagonistas.

Honey Boy, ainda que soe tanto derivativo de tempos e tempos, adequado a uma roupagem do filme de formação e se focando mais no passado que na recuperação do personagem, tem momentos de impacto, que tanto chocam quanto emocionam. Há muita dor ali, mas também alguns momentos redentores. Por isso, mesmo que um pouco desequilibrado em sua perseguição por fazer pazes com seus demônios, LaBeouf impressiona pela honestidade do roteiro e a força da atuação. Para os que odiavam suas performances exageradas e afetadas em seu período blockbuster, é hora de olhar o ator com outros olhos.

Crítica da cobertura do 21º Festival do Rio

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