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Incrível Homem que Derreteu, O

(Incredible Melting Man, The, 1977)
5,8
Média
12 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Derretimento sebosamente físico num mundo liquefeito

8,5

Homem volta de experiência no espaço, ali pelas bandas dos anéis de Saturno, contaminado com uma marmota corrosiva a qual o faz derreter e virar psicopata ao mesmo tempo. Nisso sai vagando e matando alopradamente enquanto seus pedaços caem no caminho. Da leva do terror bagaceiro, sujo e asqueroso vindo dos anos 70 e teria seu zênite nos 80. Material imundo e que usa desta imundice – somada a uma dose farta de sanguinolência – para chocar e impor sua narrativa através da perambulação estarrecedora do seu protagonista monstrengo. Fita de 1977.

1977 é da década que fora palco para uma drástica renovação da alcunhada Nova Hollywood, contendo diretores com marcas autorais críticas fortes e em encaixe com os movimentos políticos da época. Isto e o tesão pela violência dos filmes baratos, no caso aqui o esquema exploitation (uma definição complexa com várias subdivisões, que aqui meterei arbitrariamente num material pesado de baixo orçamento, nudez e cores exageradas dos 70); serviram de inspiração para esta pérola, apesar da pouca putaria. Fabricada num momento radical frente ao pós-Vietnã e num oportunismo cinematográfico via sangue farto, onde a dureza de sua narrativa encaixa tenazmente na condição do personagem principal numa atmosfera pessimista dentro e fora das telas. Almejando o mal desconhecido quando somos nós, piores que os fatores extraterrestres.

A trajetória da figura principal é pelo mais puro desastre. Uma criatura trágica descontrolada mediante sua condição abjeta. A doença interplanetária que a acomete, a destrói por inteira, inclusive a massa encefálica fica baldeada. O cara, desnorteado, sai por aí massacrando quem vê pela frente, sempre de forma brutal com desmembramentos e tocando o terror com seu visual hediondo. Todo o arquétipo visual do anormal está ali. Origem trágica, motivação escrota, ações duvidosas, selvageria desenfreada. O lance a diferenciá-lo nisto é que sua origem o deixara desta maneira e, como tal, fora vítima duma experiência canalha. Seu morticínio causado é uma faceta do mais puro desespero de não entender mais o que se é. Tanto que, por vezes, quando alguma cena está montada para o destroço do monstro a uma próxima vítima, tem-se a dúvida (a partir das suas feições) se o mesmo quer matar ou pedir alguma ajuda confusa e desesperada. Acaba por funcionar por conta do excelente trabalho de maquiagem do lendário Rick Baker, onde cria uma atmosfera corporal de podridão e derretimento visual que conurbam perfeitamente com a psicopatia/desespero da peça. Aliás, para uma fita bagaceira de baixo orçamento, consegue demonstrar alguns valores de produção como a já citada maquiagem e alguns planos bem interessantes mostrando o derretido a perambular pelas zonas florestais nas quais busca escapar; ou então nos momentos antecedentes de morticínio com sua mão suando gosma por uma vidraça. O pecado da obra fica por perder o ritmo em alguns momentos, deixando a narrativa mais lenta que o necessário. Algumas passagens avulsas exageradamente também existem. Mas foda-se, já que em seguida vemos mais liquidificação e mutilações.

Obviamente num filme desta envergadura da mais pura e maravilhosa fuleiragem não poder-se-ia faltar o núcleo da perseguição militar ao cidadão que escapara liquefazendo pelo meio da rua. Além dum assassino, a coisa é propriedade governamental, pois carrega uma doença sideral com ele. A mangofa disso existe desde a fuga do derretido gosmento em instalação sem segurança alguma, com somente uma enfermeira correndo em desespero. Mas isto é uma lindeza. O abuso de situações via horror e podreira. Os militares querem o cara para dissecá-lo. Pode ter uma parada de arma química ou outra merda ali, e obviamente isto não pode ir a público.

Existe um tesão na construção de obras assim que é um troço sintomático pela vontade em se fazer cinema. Uma suficiência daquilo a ser aprontado. Uma honestidade velada dentro dum radicalismo construtivo proposto que este tipo de cinema sabia muito bem ensejar. Não se vende como um clássico ou outra coisa superior ou inferior. Se vende como qualquer coisa a poder sustentar sua equipe e nisso temos uma liberdade de ação que estes filmes conseguem propor. Da bestialidade acentuada ao trato político. Ou seja, o tesão é por existir e fazer cinema na marra, e este tesão é somado a vontade de sobrevivência, e esta conjectura geral não corta o radicalismo. Ora, a violência e a crítica política estavam em voga nos anos 70 e, a sua maneira, o cinema bagaceiro não deixava de fazer esta última independentemente dos corpos nus e/ou mortos pelo caminho. Temos um militar fugido representando um perigo do cacete, mas o cara apesar de toda a destruição causada, é mais uma vítima dum governo a querer ganhar com a experiência, onde as vontades do cidadão não passam por ser nada mais que dispensáveis.

Se liga na viagem agora. Obra pessimista até o talo com direito a um final absolutamente cínico, tanto visualmente sebento – e sinceramente emocional – quanto crítico no que tange aos limites da ciência e da pequenez de qualquer criatura quando envolvido em experimentos escusos. O derretido finalmente encontra o seu fim. Literalmente derreter de maneira sebosa; brutal; nojosa; repulsiva; repugnante; sórdida; torpe; desagradável; nauseabunda. Um personagem existente mediante "as relações [que] escorrem pelo vão dos dedos". Pelo auge da minha cretinice cito o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. O autor do conceito da modernidade líquida, onde conclui que as relações humanas possuem uma liquidez estrutural na qual escorre pelos humanos. Tudo devido ao crescimento dum capitalismo desenfreado de trocas cada vez mais rápidas e brutais acompanhando um desenvolver social que visa o estabelecimento das eternas mudanças. Tudo é incomensuravelmente mutável e nada é duradouro e a venda de si mesmo ao sistema é algo natural. Nisso vem a liquidez a perpassar derretendo pelos dedos, onde a primordialidade da existência do mínimo poder em escolher entre ir e vir foi escamoteada pelo consumo e por vendas de mitos inalcançáveis. O homem derretido da fita é literalmente uma liquidez ambulante que foi em busca do inalcançável. E destruído assim finalmente ficara por conta duma experiência espacial moldada por um estado que queria o resultado final da sua doença para algum usufruto escuso. Ou seja, a existência do cidadão não passa de passageira. Líquida. Uma espécie de liquidez baumanzista sebosa e literal? O cidadão literalmente liquefaz até o fim na madrugada numa parede de laboratório. E pela manhã quando encontram seus ascosos restolhos e uma roupa velha, limpam tudo e rebolam no lixo, afinal o que mais interessava naqueles restos? Nisso escutamos mais astronautas enviados para mais uma experiência, na mesma viagem, com os mesmos objetivos e agora o controle governamental deles munido da sapiência do que todos encontrarão. Cobaias. Dispensáveis. Inúteis. Mortos. Mais uma vez, líquidos.

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