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Críticas

Cineplayers

Filme-denúncia tem ótima interpretação de Rachel Weisz, mas é irregular em sua narrativa.

6,0

Histórias de mulheres lutando contra o sistema em um mundo dominado pelos homens sempre tiveram espaço no cinema norte-americano. De Norma Rae (idem, 1979), passando por Acusados (The Accused, 1988) e chegando a Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento (Erin Brockovich, 2000), a jornada de representantes do “sexo frágil” que demonstram coragem e determinação para conquistarem seus direitos e objetivos tem todos os elementos fundamentais para uma produção capaz de cair no gosto do público – e, claro, da própria indústria, como comprova o fato de as três protagonistas dos filmes citados terem sido premiadas com o Oscar de melhor atriz. A obra mais recente desse nicho é A Informante (The Whistleblower, 2010), produção baseada em fatos reais sobre uma policial norte-americana que, enviada em uma missão de paz à Bósnia pós-guerra, acaba por descobrir um esquema de tráfico de mulheres envolvendo os próprios emissários da ONU e outras autoridades locais.

Dirigido pela estreante em longas-metragens Larysa Kondracki, A Informante tem início bastante irregular e demora um pouco até acertar o tom. Após uma cena inicial mostrando duas jovens que decidem sair de seu país em busca de algo novo – e que, obviamente, acabarão sendo vítimas do tráfico –, o roteiro apresenta a policial Kathy Bolkovac, que busca transferência de cidade para ficar mais perto de sua filha. Infelizmente, esta tentativa de oferecer um passado à personagem se revela totalmente vã, uma vez que a relação familiar de Bolkovac se resume a esta cena inicial e apenas um outro momento no qual ela liga para a filha. Durante toda a produção, o filme parece esquecer disso, inclusive jamais retomando o assunto ao final, nem mesmo para oferecer um encerramento à história. A diretora (também autora do roteiro ao lado de Eilis Kirwan), claramente busca estabelecer uma conexão entre o lado familiar da protagonista e a sua determinação em proteger as garotas, como se garantir a segurança delas, de certa forma, compensasse o fato de ter perdido a filha. No entanto, como a relação entre Bolkovac e sua família jamais foge da superficialidade, o objetivo de Kondracki também não se concretiza, esvaziando o impacto dramático que ideia.

Da mesma forma, o roteiro parece apostar em recursos típicos de gênero, mas que acabam transmitindo artificialidade diante de um filme que aposta muito em sua busca por realismo. É o caso, por exemplo, do relacionamento entre a protagonista e um oficial holandês: o fato de eles se entregarem a uma noite de sexo logo quando se conhecem é aceitável, mas fica difícil de compreender por que Bolkovac começa a revelar segredos importantes sobre suas investigações logo na próxima vez que se encontram. Não há a menor tentativa de desenvolver o relacionamento entre os dois de forma crível, com o objetivo de fazer o espectador compreender de onde vem essa confiança; pelo contrário, de uma hora para outra ambos parecem não apenas próximos um do outro como também chegam a trocar juras de amor. A mesma sensação de pressa do roteiro vale para a cena na qual a mulher responsável pelo abrigo simplesmente começa a revelar o caso todo para a protagonista: sem qualquer pergunta, ela decide abrir o jogo sobre o tema, apesar de saber das possíveis conseqüências de fazer algo assim.

Ainda que o lastro emocional oferecido à protagonista se revele raso e haja artifícios de roteiro para facilitar a investigação, A Informante conta com dois bons pontos ao seu favor: o talento de Rachel Weisz e a própria força da história. A atriz, que com o passar dos anos vem se comprovando uma intérprete cada vez mais interessante, compõe a sua personagem com cuidado, optando por fugir do tom adotado pelas atrizes dos filmes citados no início desta análise: ao invés de uma mulher sempre forte, que enfrenta as dificuldades sem demonstrar abalo, sua Kathy Bolkovac jamais consegue esconder nervosismo e fragilidade. Praticamente todas as cenas nas quais precisa se confrontar com algo que parece fora de seu poder, a protagonista se apresenta de forma vulnerável, como ao não conseguir conter o choro ao se ver impotente ou ao ouvir um superior falar sobre a sua filha distante. Esse sentimento é transmitido por Weisz de forma plena, tornando a personagem mais humana e interessante ao espectador. Ela pode até não receber indicações a prêmios, mas se trata de uma belíssima atuação de uma atriz cada mais madura em seu ofício.

Já o segundo grande aspecto que sustenta A Informante – a natureza daquilo que é contado –, tem seus méritos, mas deixa uma sensação de que poderia ter sido algo mais. Em termos de filme-denúncia, a obra de Kondracki se revela corajosa, ao jamais recuar diante das acusações feitas ao papel da ONU nas atividades ilícitas neste cenário devastado pela guerra. Além disso, a produção inclusive propõe uma reflexão em relação à opressão do homem sobre a mulher: seja quando a protagonista não consegue a transferência solicitada, ao não ser levada a sério quando descobre o tráfico ou, claro, na própria condição das vítimas adolescentes, A Informante retrata um mundo masculino, no qual as mulheres não possuem voz e devem lutar o dobro (ou até mais) para conquistar os seus objetivos. Aliás, ao mesmo tempo em que demonstra coragem nos temas abordados, a cineasta ainda merece aplausos por algumas cenas de bastante impacto, como o assassinato à sangue frio de determinada personagem; ainda assim, o momento mais forte de A Informante é aquele que mostra quase nada, quando Bolkovac descobre o quarto onde as garotas ficavam em condições subumanas – imaginar o que acontecia ali é mais assustador do que realmente ver.

Derrapando ainda nos estereótipos (os mocinhos e os vilões são tão claros quanto em um filme da Disney) e subaproveitando talentos como Vanessa Redgrave e David Strathairn, a Informante revela-se um filme até certo ponto relevante, com alguns méritos, mas que jamais atinge todo o seu potencial. Sim, é uma história que merecia ser contada, porém poderia sê-lo de forma mais talentosa e impactante, de modo a ter a sua importância lembrada por mais tempo.

Comentários (6)

Isac Bernardo Carvalho | sábado, 03 de Dezembro de 2011 - 15:10 | Responder

Rachel Weisz e Vanessa Redgrave tb ganharam Oscar por interpretarem mulheres que lutaram contra o sistema, só que como coadjuvantes.

muito bom o texto.

Rodrigo Cunha | sábado, 03 de Dezembro de 2011 - 19:31 | Responder

O filme é de 2010. Estou no celular, então depois ajeito no texto.

http://www.imdb.com/title/tt0896872/

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