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Críticas

Cineplayers

O que poderia ser um simples thriller vira algo muito maior e melhor na mão de Mann.

8,0

O Informante” requer uma certa vontade para ser visto, afinal são quase três horas de duração. Alguém desavisado que ache que vá assistir a um simples e descompromissado thriller terá uma surpresa. O filme vai muito, muito além disso.

Russel Crowe é o cientista Jeffrey Wigand, que após ser demitido de uma multinacional do ramo do tabaco, fica dividido entre contar ao mundo que eram do conhecimento da empresa os efeitos maléficos da adição de um novo produto à composição do cigarro, ou calar-se e com isso proteger a si próprio e à sua família, ameaçada de morte caso ele quebrasse o seu contrato de confidencialidade. Resumidamente e simplificadamente esse é o mote inicial do filme. Parece um simples thriller, não? Errado. O roteiro de Michael Mann (que também assina a direção) e Eric Roth (Forrest Gump), baseado numa situação real ocorrida nos EUA, extrapola e promove um retrato agudo tanto sobre um conflito ético-pessoal quanto sobre a realidade da imprensa.

O roteiro é claramente dividido em dois atos. No primeiro, o enfoque é quase todo sobre o personagem de Crowe. Al Pacino, o jornalista Lowell Bergman que tenta convencê-lo a abrir-se à imprensa e ir aos tribunais exerce um papel apenas necessário, o de incentivador.

o filme acerta ao mostrar as situações familiares de Wigand. Isso dá ainda mais força ao seu dilema, já que sua família é um dos pratos dessa balança e ajuda a formar psicologicamente a personagem. A relação com a esposa, a preocupação com o futuro das filhas, o medo de perdê-las, tudo isso age sobre a sua decisão confrontando-se com um pretenso compromisso maior com o mundo, com as outras pessoas, com justiça e com a ética. Além do texto que aborda com maestria esse confronto e foge de recursos simplistas, soma-se a soberba atuação de Russel Crowe que consegue as feições perfeitas para transmitir o máximo da pressão que age sobre o cientista.

Depois que Wigand finalmente se decide e dá a entrevista, pensa-se que daí pra frente o filme não produzirá nada mais de significativo. Só que o roteiro dá uma guinada e volta sua lente para Bergman, que sofrerá um profundo choque quando souber que sua entrevista terá de ser editada a fim de tirar todo o seu material denunciativo contra a empresa; isso porque a emissora teme futuras retaliações de uma multinacional tão poderosa. Aí segue-se uma outra batalha, a de um jornalista amante de seu ofício e que não admite que as “costas quentes” de sua instituição dêem cabo de sua premissa mais fundamental, a verdade. Pacino dá um show ao conduzir um personagem diferente daquele modelo batido de jornalista utópico-marxista e compõe um homem já calejado com os podres de sua profissão, mas que ainda tem vivo o seu compromisso com a verdade.

O mérito primordial de “O Informante” é a discussão que proporciona, ainda mais quando se sabe que esse foi um fato explosivo muito recente. A habilidade de seus realizadores e a coragem de rechear o filme com o maior número de informações possível escancara ao espectador a fragilidade dessa “imprensa livre” e de quebra ainda coloca um dilema delicado confrontando ética e proteção à família. O que você faria se estivesse no lugar de Wigand? A boa mão de Mann para a direção de thrillers e a técnica correta, porém cheia de truques de imagem hollywoodianos, corroboram para lançar essas inquietações.

Algo que intriga ainda no filme é o fato de Jeffrey Wigand só cogitar a possibilidade de denunciar a empresa quando ele é demitido.  Isso tira a personagem daquele bonzinho idealista arquétipo e o dá uma dose extra de fragilidade e humanidade. Porém essa faceta pouco nobre não foi suficientemente desenvolvida, ou melhor, nem foi desenvolvida, deixando-a em um plano obscuro, visível apenas a uma pequena parcela mais atenta da audiência.

Enfim, “O Informante” é o resultado de um trabalho maduro que consegue discutir sem rodeios temas  delicados e colocá-los à disposição do público. É um filme que foge ao caráter do cinema voltado meramente ao entretenimento. Como já disse, quem for assistir esperando um thriller vai ter uma surpresa. Pode ser que se decepcione, mas em caso de se deixar levar pelos conflitos e pela profundidade do contexto e não se incomodar demais com a sua longa duração, o filme será uma experiência bastante rica.

Comentários (1)

Diego Henrique Rezende | domingo, 05 de Abril de 2015 - 18:48 | Responder

Não é um filme fácil de digerir. Trata-se de um roteiro complexo, cheio de nuances, todas muito bem desenvolvidas e que trazem uma crescente tensão. Mas, quando propõe-se a entendê-lo, é possível vislumbrar um ótimo trabalho do sempre excelente Mann. Vale a pena ser conferido.

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