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Críticas

Cineplayers

Hitchcock, Truffaut e Intriga Internacional.

9,0

Uma das melhores discussões emergentes do livro Hitchcock/Truffaut, em que o crítico de cinema francês François Truffaut acompanha Alfred Hitchcock numa extensa análise de sua carreira e de seus filmes, surge exatamente ao chegarem neste Intriga Internacional (North by Northwest, 1959), filme que representa o ápice do cinema de Hitchcock em diversos sentidos. Em sua passagem por Hollywood, entre os anos de 1940 e 1976, Hitchcock fez filmes comerciais, de gênero (suspense na maior parte dos casos, gênero no qual conquistou status de mestre) e que, embora muito bem sucedidos entre o público, não se tornaram sucesso de crítica, não ganharam prêmios e não renderam ao diretor muito respeito entre os intelectuais; era o cinema popular da Velha Hollywood em sua mais genuína acepção, um posto que hoje em dia divide-se entre filmes como Transformers - O Filme (Transformers, 2007) e Crepúsculo (Twilight, 2008).

Foram François Truffaut e sua turma da Cahiers du Cinema, revista que contava com críticos como Jean-Luc Godard e Claude Chabrol, os responsáveis por conceder a Hitchcock o direito de ser visto como um dos cineastas mais autorais daquele período, por sua técnica e precisão formal que revolucionaram o ofício de fazer cinema, e também pela coerência que se percebe em sua visão artística nas mais diversas fases da carreira. E seria em 1959, quando já não havia mais qualquer possibilidade de superar a si mesmo, que Hitchcock filmaria Intriga Internacional e que, como afirma Truffaut durante a conversa registrada no livro, atingiria o ponto mais radical de seu formalismo cinematográfico, o desprendimento absoluto daquilo que sempre combateu: o compromisso com a verossimilhança e com a realidade, aqui definitivamente ignoradas em favor das ideias de encenação.

Hitchcock detestava os “verossímeis” - era assim que os chamava, “verossímeis”. O espectador, seja da imprensa especializada ou do público casual, que cobrava de seus filmes aquilo que eles, justamente por serem filmes, não poderiam nem tinham interesse de oferecer: uma lógica baseada na realidade. Truffaut compartilhava deste mesmo desprezo e via em Hitchcock, e especialmente neste discurso em favor da liberdade artística, uma forma de compreender a sétima arte e justificá-la como um produto artístico independente, de maneira semelhante ao que acontece na música: uma compilação de formas abstratas que, reunidas, davam origem a um novo corpo. Claro que isso não passa de teoria, e na prática poucas vezes o cinema chegou a ir tão longe assim – Seijun Suzuki, com A Marca do Assassino (Koroshi no Rakuin, 1967), e Andrea Tonacci, com Bang Bang (idem, 1971), foram dois que mergulharam de cabeça nessa proposta.

Este conceito, evidentemente, é trabalhado de forma bem mais conservadora do que nos filmes de Suzuki e Tonacci. Intriga Internacional é linear, é narrativo, é filme de gênero e é cinema comercial genuíno até o talo. Uma história de aventura movimentada, repleta de sequencias de ação e suspense que se colam umas nas outras com uma agilidade impressionante. E é exatamente neste sentido que as palavras de Truffaut lhe cabem tão bem: ao contrário de filmes como Janela Indiscreta (Rear Window, 1954) ou O Homem Errado (The Wrong Man, 1955), as preocupações de Hitchcock se distanciam por completo de nosso mundo e penetram definitivamente no campo do cinema, para dali não saírem por nenhum momento. É um filme que, por exceção de sua conexão primária com a Guerra Fria (afinal parte do conceito agentes duplos e etc), se justifica unicamente por sua ação e pelas sensações que esta ação pode provocar no público, sem preocupar-se com mais nada.

Hitchcock parece ter encontrado em Ernest Lehman o parceiro ideal para viajar pelas possibilidades da farsa e do desprendimento. Assim como Trama Macabra (Family Plot, 1976), também escrito por Lehman, Intriga Internacional é composto por ideias que se valem sozinhas, cenas que não se somam, que existem especialmente pela relação efêmera que constroem com o espectador no momento de sua projeção, esvaziando-se completamente de conteúdo em detrimento à forma – um esvaziamento no qual se nota um grande senso de humor. A trama interessa menos a Hitchcock do que a concepção formal destas cenas, o que transforma este em um filme genuinamente de superfície, no qual não existe qualquer interesse pelo que não está na tela. Ao espectador também pouco deve interessar a grande quantidade de confusões, absurdos e acasos existentes, porque Hitchcock se arma justamente da mentira e do absurdo para fazer um filme onde tudo faz sentido para a ficção, sem a necessidade de associação com nossa realidade do lado de cá da tela.

Conta Hitchcock, aliás, que foi convencido de deixar de fora uma sequência pensada por ele onde, neste desejo por escapar da verossimilhança e cutucar de vez seus detratores, iria ainda mais longe do que foi em momentos como a fuga do avião no deserto ou a perseguição sobre as faces dos presidentes dos Estados Unidos esculpidas no Monte Rushmore, em Dakota do Sul. Cary Grant, por sinal ator com extenso repertório de caretas farsescas e que se encaixa perfeitamente nas intenções do diretor, adentraria uma fábrica de montagens de automóveis e, durante a conversa com um homem, acompanharia em tempo real, ao lado da linha de montagem, a construção de um carro, que sairia pronto ao final da caminhada, do outro lado da fábrica. Ao abrir a porta do automóvel, um cadáver despencaria. De onde surgiria o cadáver? Segundo Hitchcock, de lugar nenhum, e aí estaria a brincadeira.

Mas, mesmo sem chegar tão longe, Intriga Internacional pega firme na sua ideia de contemplação à farsa. Identidades trocadas, encenações baratas, mentiras deslavadas, armas falsas, mortes falsas, tudo se soma para a concepção de um grande teatro que não tem a menor intenção de proporcionar qualquer outra coisa que não o divertimento instantâneo. É uma das grandes aulas de encenação ministradas por Hitchcock ao longo de sua carreira, com um número incrível de cenas inesquecíveis que nos lembram como o cinema de entretenimento em Hollywood já foi tratado com muito mais carinho e inteligência. E é também uma clara evidência de como filmes podem ser, ao mesmo tempo, autorais e comerciais, sem que um precise negar o outro para ser o que é. Hitchcock talvez tenha sido o grande expoente desse casamento, e em Intriga Internacional suas teorias sobre a ficção cinematográfica encontram um porta voz definitivo.

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