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Críticas

Cineplayers

O que terá acontecido a James Wan?

6,0
Aviso: o texto pode conter spoilers sobre a trama.

Há possivelmente dois tipos de espectadores, ou ao menos duas reações mais afetadas, para este Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2, 2016): aquele que acompanha o trabalho do diretor há certo tempo ou ao menos se sentiu instigado pelo filme anterior, que realmente havia emprestado um sopro forte de oxigenação ao gênero com a sua roupagem digna ao found footage e excelente trabalho de quadro e plano; e aquele que chegou aos cinemas nu, e para quem, afinal, a história devia fazer seu sentido sozinha, mesmo que parte da sua força se encontre inevitavelmente no que o casal Warren tinha conquistado para si, tanto em termos de credibilidade e confiança (quase uma dupla contemporânea e romântica de ghostbusters) quanto de afeto como casal propriamente, a quem espectador nenhum gostaria que algum tipo de mal acontecesse. O que finalmente defendo aqui é que independente da carga de afetos e expectativas que se leve à experiência deste novo filme, o lamento diante de uma obra cujo potencial está pulsante (quase literalmente) na tela mas nunca chega a se aproveitar é gritante, mas que inevitavelmente o escorregão é mais doloroso para quem tem consciência do que a história do casal e suas empreitadas já foi.

Porque se não existem praticamente dois filmes dentro dessa sequência, dois enredos cuja intenção admirável e megalômana (já que claramente além de suas capacidades) foi a de uni-los e tornar o filme algo realmente assustador e monstruoso ao mesmo tempo, não se pode negar, contudo, que há dois claros e grandes movimentos: o de tornar a família Hodgson digna de pena e o de torturá-la, ou seja, ao espectador também, misturando o que seria uma abertura em formato de prequel com uma história própria e completamente perdida à uma via-crúcis para dignificar à qualquer custo o amor do casal. O que acontece é que o primeiro desses movimentos funciona, mas a sua dobradura na segunda parte se confunde com esse subtexto inacessível e sem sentido e distorce qualquer apelo a um algo que poderia se caracterizar como maligno, afetando ele mesmo o que seria esse caminho de Ed e Lorraine pelos sete círculos do inferno para salvar um ao outro. Explico-me.

Até pouco mais que a sua primeira hora, o filme de Wan é esse passeio pela instauração da presença do horror. Em seus deslizes de câmera despirocados e excelentes, ele brinca com o quadro (e obviamente com o que está fora dele, posto que um dos elementos mais basilares do horror é o que guarda o extra-campo) como essa noção mesma de quatro bordas em que algo acontece. A princípio, tudo além do som está ali, e a casa parece ter sido tomada como locação primorosa para que esse perturbador se desvele: o quarto do filho cuja porta entra em linha reta com a casinha de brinquedos e que serve de vai-e-vem para que a câmera faça repetidos reequadramentos, tornando o horror algo que está na iminência do cômico, ou mesmo os inteligentes planos que jogam com os cantos e frestas escuras das paredes para implicar que algo ali se esconde, quando na verdade Wan só deseja brincar de gato e rato. Só que dessa vez, e infelizmente por tempo limitado, o rato é o olho de quem vê, e não necessariamente as crianças. É a nós que ele às vezes se dirige, e ao menos nisso há de se aplaudir o gesto. 

Mas é ao espectador que ele apela quando quer tornar aquela família pobre demais, carente demais, quando joga a maneirismos quase forçosos com uma mãe solteira com um filho gago, uma filha dócil e saudosa da figura de um pai (e quem mais serviria de receptáculo ao demônio?), e não importa que a ideia da crença nos meninos como mentirosos seja subvertida, que tenha-se optado por dividir o fardo da fragilidade como atrativo à presença demoníaca por todos da casa: no fim das contas, tudo é um joguete para preparar o terreno de um dramalhão familiar e depois espalhar a tortura a todos, jogar toda tragédia possível no ventilador e deixar que nós, como plateia, seguremos todas as pontas. Tudo parece despencar, ironicamente, depois da chegada do casal à casa, durante a densa entrevista com a menina possuída, primorosamente fora de foco, através de quem o espírito revela dois fatores importantes: ele é teimoso, recusará a todo custo sair da casa que diz ser sua (o fator de sustentação da sua existência, e que desaparece no ar de maneira inacreditavelmente ruim), e ele ameaça saber algo do passado de Ed (o fator surpresa que desaparece ainda mais rapidamente e acaba por não fazer sentido nenhum), algo que na verdade poderia ser a única junção concebível, me perdoem, como o fato de que existe uma freira demoníaca atrás do próprio Ed. Se a abertura do filme deixa isso mais que aberto, mas ao menos implica que foi algo que se deu num caso passado dos Warren, onde mais o espectador pode se apoiar? 

Antes o passeio pela terreno das incógnitas parasse por aí: por que um filme que se vende, de forma quase anacrônica e nunca tão pouco eficaz, como 'baseado em fatos' reais, por que uma obra cuja potência extra-fílmica e intra-diegética se sustentaria especificamente no fato de que aquele é o caso mais sombrio registrado pelo casal, se a presença demoníaca que dá a rasteira na trama para se enunciar como o verdadeiro vilão entrega à protagonista o seu único ponto fraco? Em que universo ficcional é possível que todo o mal a ser combatido numa história surja sem dar explicações, motivos, e que entregue a maneira de derrotá-lo não só de bandeja, como numa cena horrivelmente falha em sua tentativa de simular um estado onírico, de possessão, ou seja lá o que for? A grande arma que o herói mitológico atravessa uma jornada para conquistar e sem a qual não venceria seus demônios é reduzida, aqui, a uma falha de roteiro que não só não é mais grotesca porque a resolução da história é, ela mesma, desrespeitosa. Um raio do além cai num tronco e ameaça espetar uma criança cujo papel na trama passa de uma potente relação com o espectador para uma bruxaria sem sentido que a faz se tele transportar e atravessar paredes. Foi por isso que Wan desejou uma sequência? Para se aproveitar de um horror que nasce como complexo e justificar sua saída com uma megalomania que surge e morre no nada? Tão nostálgica a sua recriação perfeita dos anos 70, assim também, afinal, devemos nos sentir: saudosos não da época em si, mas de um filme de simples 3 anos antes e seus corpos maculados, seu aproveitamento exitoso do ineditismo das aparelhagens de gravação, enfim, de uma atmosfera propícia a esse que é um dos gêneros mais ricos que o homem já inventou.

Comentários (13)

jorge lucas | terça-feira, 21 de Junho de 2016 - 22:47 | Responder

Wan sabe usar a câmera a seu favor sempre, pena que o filme tenha muita cara de terror genérico, muitos efeitos visuais toscos, personagens bobos que sempre querem ver (sozinhos) de onde vem os barulhos. Os créditos finais me deram mais medo que o filme inteiro.

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