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Críticas

Cineplayers

Um terror raro.

8,0
A primeira impressão ao deixar a sessão de Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2, 2016) é de que o longa original, tremendo sucesso de público e crítica e originador de um primeiro spin-off sobre a boneca Annabelle (idem, 2014), foi apenas um bonito ensaio estilizado para o que seria esta segunda abordagem sobre um dos casos paranormais investigados pelo casal Ed e Lorraine Warren nos anos 70-80. O jovem e popular diretor James Wan, após conquistar Hollywood com o sucesso de seus filmes de horror (e a revitalização dos mesmos em franquias), resolve abraçar de vez a megalomania do gênero, explodir na tela seu orçamento generoso e fazer aquele barulho que os filmes de terror permitem, reverenciando o que há de mais amedrontador e pessoal: o trabalho sobre a sugestão daquilo que não se pode ver.

Tudo acontece sete anos após os eventos do primeiro filme, onde o casal Warren (Vera Farmiga e Patrick Wilson) decidem interromper suas buscas sobrenaturais após Lorraine ter chego perto da morte no famoso caso de Amytiville no fim dos anos 70. Entretanto, ambos são novamente acionados pela Igreja em um dado momento para averiguar o caso de uma mãe, Peggy Hodgson (Frances O’Connor), vítima da crise no governo de Margaret Tatcher na Inglaterra, e sua filha de 11 anos, que começam a se deparar com eventos demoníacos em sua casa, indicando uma possível possessão sobre a menina, o que coloca em risco a vida de sua mãe e do resto de seus irmãos. Logo surge a indagação se o que a família está passando ali é real ou apenas fruto da imaginação de uma criança que deseja ter os holofotes.

Invocação do Mal 2 começa como dois filmes em um. O recuo dos Warren sobre seus casos sobrenaturais e o medo de até onde aquilp pode levá-los vai sendo desenvolvido paralelamente a situação sufocante da familia Hodgson. Nessa primeira parte, a família ganha um destaque em especial pelo roteiro de Wan em conjunto com David Johson e os irmãos Cary e Chad Hayes. Conhecemos o desespero pessoal de cada membro da família, como a mãe abandonada pelo marido e sem recursos para botar comida na mesa, a garota vítima de bullyng na escola, o caçula gago sempre chacotado por seus colegas de turma, entre diversos outros clichês que, nas mãos dos roteiristas, se tornam indispensáveis aliados para que a presença do maligno e sua forte influência seja justificada com a fragilidade pessoal e em conjunto daquela família.

Neste primeiro ato, Wan brinca e aprimora vários de seus estilismos que já haviam marcado presença no primeiro filme: planos-sequências que passeiam com um esmero impressionante pela casa dos Hodgson’s e nos permitem ter perfeita noção da amplitude do cenário, enquadramentos abertos que brincam e analisam cada ponto escuro, implantando dúvidas sobre o que pode ou não surgir em cena, reforçando o trabalho da própria imaginação do público sobre as presenças demoníacas que podem ou não estar escondidas pelo canto. É uma preocupação notável do diretor em nos inserir na brincadeira, tornando latente a ambientação macabra que cerca os personagens, acentuando o ar de “quebra-cabeça” da história.

Quando as duas narrativas se cruzam e até novos personagens entram em cena, Wan vai aos poucos abandonando o quê de sugestão, apostando mais em sustos sem jamais deixar de lado seu poder de estilização, como no plano único em que Ed conversa com o demônio de costas e fora de foco, num trabalho impressionante de climatização e uso de ampliados efeitos sonoros. Tudo remete a uma preocupação rara em meio aos exemplares do gênero, que é não apenas a necessidade em fazer com que o público se envolva e se preocupe com os acontecimentos na tela, mas que estes também compartilhem do próprio prazer do realizador sobre dar vida a estes momentos, numa preciosa relação pessoal entre diretor e público.

Tamanho carinho pela obra, inevitavelmente, resulta em exageros e excessos durante a projeção. São pouco mais de 130 minutos, algo pouco usual ao gênero, e isto muito devido a preocupação em deixar tudo o mais bem estabelecido possível (é um trabalho bastante redondo neste sentido), culminando numa demora, por exemplo, para que o casal Warren seja enfim inserido em meio ao plot da família Hodgson, ou num alongamento de pelos 20 minutos para que o clímax finalmente chegue -  e quando este chega, é também inevitável a impressão de que sua solução seja um tanto corrida, num desespero frenético em fechar de uma vez todas as pontas soltas.

Mas ainda assim, Invocação do Mal 2 é um filme raro. E isto vai além da preocupação em encaixar tudo em seus devidos lugares. Um dos sentimentos mais palpáveis é o carinho de Wan por seu casal central, que já haviam conquistado o público no primeiro exemplar com suas presenças em cena, mas que aqui ganham a oportunidade de expandir seus ares de duas pessoas apaixonadas. Isto obviamente soa estranho para um filme de horror, e mesmo a pieguice nas cenas isoladas do casal funcionam à favor de um resgate clássico também para o romance, aquela troca de olhares e palavras familiares entre duas pessoas que denota o sentimento mútuo entre ambos. São poucos os casais que funcionaram tão bem neste gênero como Ed e Lorraine Warren.

Wilson e Farmiga obviamente contribuem para a sensação de cumplicidade compartilhada com o espectador. Ator subestimado desde que surgiu pelas mãos de Mike Nichols em Angels in America (idem, 2004), Wilson aparece dotado de um charme e carisma contagiosos, demonstrando com exatidão sua preocupação contida com a situação da família assombrada e com os temores de sua esposa. Belíssimo é o momento em seu personagem, num ato tranquilizador, entoa Can’t Help Falling in Love. E Farmiga continua comprovado o porquê de ser uma das atrizes mais completas e calibradas da atualidade, seu desespero e preocupação pela vida dos que estão ao seu redor é algo transmitido com exatidão pelos olhares e trejeitos da atriz, num trabalho de composição que nunca nos permitirá aceitar que Lorraine Warren perca o rosto de Farmiga. Frances O’Connor nos comove com o medo sobre como aquele mal pode atingir sua família através de sua filha Janet, esta também interpretada com um pavor convincente por Madison Wolfe, muito provavelmente uma das novas promessas mirins de Hollywood.

Buscando reciclar elementos básicos do gênero e misturando-os a uma roupagem contemporânea que permite com que esta identidade alce novos voos, Invocação do Mal 2 entra para o rol das sequências que alcançam o êxito de permanecerem no nível de seus originais, ampliando e enriquecendo sua própria identidade enquanto franquia e, o mais importante, entregando o produto ideal que o público tanto pede sem se deixar levar pelas armadilhas da comercialidade. É quase certo que um terceiro exemplar virá por aí (um novo prequel da assustadora freira já foi encomendado), e se vier, é torcer para que Wan ou qualquer outro que venha a comandar demonstre o mesmo cuidado com projeto e mantenha este padrão de qualidade com o qual já nos sentimos acostumados.

Comentários (4)

Luiz Fernando de Freitas | sexta-feira, 15 de Julho de 2016 - 12:01 | Responder

Bela crítica, que destrincha todos os elementos da obra com precisão. Porém, ainda prefiro o original, onde o cineasta evitou ao máximo os excessos visuais e narrativos, que tendem a diminuir a tensão e o realismo das cenas mais assustadoras.

Kerlan T. | sábado, 16 de Julho de 2016 - 02:34 | Responder

Belíssima crítica +1
Acho o mesmo sobre a Vera e o Patrick, dois atores ótimos, que dão vida de forma excepcional ao casal principal, casal esse que é o coração de toda a franquia. Que venha o 3º e que Wan continue acertando a mão.

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