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Críticas

Cineplayers

De conexões e separações.

5,0
Em IO, a Terra se tornou inabitável, destruída por seus próprios habitantes. Os sobreviventes criaram naves que poderiam levá-los ao espaço, até IO, lua de Jupiter, que tem potencial de abrigar humanos. A vida é nas estrelas, sugere uma propaganda de alerta. O olhar de Samantha Walden, protagonista vivida por Margaret Qualley, constantemente busca pelo que há atrás das nuvens. IO está por lá... 

E o fim de seus sonhos também.

Há algum otimismo exprimido neste filme de Jonathan Helpert, cineasta interessado em sci-fi. É fato que o pessimismo diante das circunstâncias dos problemas na Terra dão mote para diversos filmes catástrofes ou pós-apocalípticos. O planeta está à beira de um colapso e o cinema constantemente aborda isso. E nem sempre com eloquência. Helpert, no entanto, faz uma leitura romântica e esperançosa do caos a partir do olhar diligente de sua protagonista, Samantha, a Sam, que permaneceu na Terra a fim de experimentar a teoria de seu pai: poderia o planeta se renovar? Sobre tal hipótese, o filme se abstrai em diferentes ideias, partindo de uma narração introdutória para discursos inconclusivos em diálogos retóricos. É um filme de simbolismos que funcionam em episódios sem qualquer profundidade. 

Ao menos há belas imagens que constituem um drama de solidão. Nessa questão, em defesa, poderia sugerir um pressuposto de contemplação sobre o belo visual apresentado pela fotografia de André Chemetoff. Se fosse no cinema, o filme teria a arte das imagens a seu favor e encantaria em meio às falácias desordenadas. Infelizmente é pouco provável que a beleza plástica funcione tão bem em casa, especialmente pelo celular ou na tela do computador. 

O planeta, desprovido da possibilidade de ter vida, é o tema central que dá margem a subtramas bastante condizentes, como a solidão da protagonista e sua busca por algum progresso que garanta a continuidade em solo terrestre. Sua relação com a arte e mitologia, por exemplo, interessa muito, especialmente quando ouve Chopin, como se reconhecesse alguma despedida nas notas e que tudo o que a humanidade concebeu se perderia em virtude do êxodo até IO.

Repentinamente, em certo instante, um balão aparece no horizonte, entre nuvens, trazendo Micah (Anthony Mackie), homem motivado pelo discurso esperançoso do pai de Sam, que defendia em programas de TV e rádio que as pessoas insistissem e ficassem.

A solidão a dois melhora uma vagarosidade que acentuava. 

Há distintos assuntos desenrolados no roteiro, como tópicos temáticos e menções, como a que Micah menciona uma passagem de O Banquete, de Platão, salientando o desgosto ocasionado pela separação entre as pessoas – em outras vertentes teóricas, ao afastamento entre as pessoas e o espaço onde elas vivem. Eis um paradigma emotivo constatado na dupla ilhada com suas perdas e escolhas, culminando num enfadonho romance inevitável. As colônias de abelhas e as colônias de pessoas reunidas em naves parecem rimas temáticas com propostas diferentes. Da mesma forma, as decisões dos personagens encontram força na arte e na mitologia, como o fascínio de Sam por um museu levou-a a conhecer a história de Leda e o Cisne em uma tela. 

Entre o pessimismo e o otimismo, há quem escolha ficar ou ir, e há quem fique preso como uma abelha, a rainha virgem, que não seguiu o enxame após uma forte tempestade. Tal como ela, Sam, solitária no alto de uma montanha, em seu enclave, presa graças a uma idealização.  

Longe de sínteses, a obra ao menos divaga ideias, sendo por vezes provocativa, salientando a possibilidade do planeta em renovação não somente receber vidas, mas também gerá-las. É particularmente bonita a cena a qual Sam trabalha com abelhas, capturando uma e se desculpando com o inseto por entender que seu experimento é um sacrifício. Quando se volta a simplicidade, com a imagem traduzindo ideias para além de explicações, o filme funciona bem. Falta ao roteiro escrito a 6 mãos fechar seus arcos. Da mesma forma como as pessoas temerosas e perdidas diante o destino na Terra, o roteiro parece igualmente desorientado, tendo uma bibliografia de referências e possibilidades jogadas em menos de 90 minutos através de arcos aleatórios que encontram uma espessa névoa quando buscava resoluções. Assim, o filme se evapora.

Comentários (1)

Tiago Cavalheiro | sábado, 26 de Janeiro de 2019 - 15:55 | Responder

Ótimo texto Marcelo. Uma pena que o filme não decola... É feito de bons momentos isolados.

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