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John Wick 4: Baba Yaga

(John Wick: Chapter 4, 2023)
7,9
Média
83 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A confirmação de um autor vulgar

8,5

“I will prepare and some day my chance will come”
Abraham Lincoln –

Durante algum tempo, eu falei que Chad Stahelski teve a sorte de lançar John Wick no timing perfeito. De Volta ao Jogo (John Wick, 2014) estreou no mesmo ano que Pompeia (Pompeii, 2014) chegava aos cinemas, dividia a crítica e consolidava Paul W. S. Anderson como ícone do vulgar auteurism, ou cinema vulgar.

Inspirados no movimento da Cahiers du cinéma que reconheceu a grandeza de Alfred Hitchcock (então considerado um artista popularesco, de menor valor), os críticos e cinéfilos do vulgar auteurism enlouqueceram com De Volta ao Jogo. Um high concept arrasador (um mercenário viúvo volta à ativa quando roubam seu carro e matam seu cachorro), desenvolvido de forma direta e impecável, com todo um universo por trás e um personagem à feição de Keanu Reeves, sua carreira e sua história de vida. Prato cheio para os adeptos do cinema vulgar, que abraçaram John Wick.

Chad Stahelski precisa de poucas cenas do seu filme seguinte para provar que eu estava errado. Os primeiros minutos de John Wick: Um Novo Dia para Matar (John Wick: Chapter 2, 2017) são como o sussuro de um coach cretino: “Sorte é quando a oportunidade e a competência se encontram” (perdão pela cafonice). Para quem não se lembra, John Wick 2 começa com Bancando o Águia (Sherlock Jr., 1924) projetado num prédio sob luz neon. A clássica perseguição da obra-prima de Buster Keaton anuncia a sequência alucinante que veremos a seguir. Com coreografias melhores, cenas de ação mais intensas, muita cinefilia e uma cinematografia dotada de forma e estilo bem característicos. Coisa fina.

John Wick: Um Novo Dia para Matar é um encontro de Chad Stahelski com sua persona autoral. Como que o cinema vulgar tivesse apontado um caminho que o cineasta, em retribuição, adotou para si. Coincidência? Talvez. Mas gosto de pensar que Stahelski (um dublê experiente, mas um cineasta novato) encontrou nas premissas do vulgar auteurism a unidade de linguagem de que precisava para amadurecer como diretor de cinema e, então, articular seu imenso caldeirão de referências. O sucesso é tamanho que ele acaba de realizar uma das obras seminais da década.

John Wick 4: Baba Yaga (John Wick: Chapter 4, 2023) é herdeiro da grandiloquência de John Wick 3: Parabellum (John Wick: Chapter 3 - Parabellum, 2019), e dele porta seu único defeito: a “barriga”. O filme é longo e, em dado momento, isso pesa. A ação incessante se torna exaustiva, o prolongamento das cenas anestesia a emoção. Mas Stahelski tem consciência de seu longa-metragem, e sacode o espectador nessas horas. Abre a quarta parede duas vezes — as duas ao final das sequências mais esgotantes. Fazendo gags para o público na porradaria da escada e revirando o ângulo do tiroteio num prédio. O diretor tem controle suficiente da franquia para subvertê-la e praticar metalinguagem sem soar mero pastiche tarantinesco. E olha que o irmão mais próximo de Baba Yaga na cinessérie é o mais referencial deles: John Wick 2.

Eu abri este texto com uma frase de Abraham Lincoln que sintetiza a saga de Chad Stahelski ao longo de John Wick. Fiz isso em reverência ao próprio Chad Stahelski, que abre John Wick 4 com uma frase de Dante Alighieri que sintetiza a saga do protagonista — e a experiência massacrante que teremos por quase 3 horas. “Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate”. A frase inscrita na porta do Inferno em A Divina Comédia (La Divina Commedia, 1304–1321) recebe os mortos e prepara o leitor para uma viagem infernal. “Deixais toda esperança, vós que entrais”. O grito zombeteiro de Bowery King (Laurence Fishburne) prenuncia o destino de John Wick e prepara o espectador para o que virá. Essa será a maior provação do personagem. A pior. Como uma descida ao inferno.

John Wick apanha como nunca e, no campo das referências, entre Dante e Camus, como o legítimo anti-herói neo-noir que é. O western é inspiração no início e no desfecho. O cinema oriental permeia toda a projeção, e não só pelas artes marciais — o filme vai a Tóquio, mergulha em sua cultura, bebe da fonte de Hark Tsui e transforma Donnie Yen num vilão espetacular. Imprevisível. Um paradoxo ambulante. Caricatural, mas complexo. Caine é o personagem mais carismático de toda a franquia, disparado. E apurado pelo diretor em cada detalhe. Sua introdução na ação, num plano à contraluz, com um comportamento insolente e nonsense, combina quadrinhos, videoclipe e TikTok — e é fenomenal. Um clássico instantâneo.

Esse sincretismo de linguagens é um elemento fundamental do cinema de Chad Stahelski. A estética dos videogames, que me deixa vidrado em John Wick 2, volta com tudo no quarto filme. Repare como a trama é dividida em fases, com cenários bem definidos e distintos entre si, e como John Wick enfrenta vários capangas até encarar, no final, um vilão que se destaca pela força e aparência. O roteiro de Derek Kolstad, Shay Hatten e Michael Finch é como uma manta que conecta sucessivas fases de um jogo eletrônico. Além de várias influências artísticas e culturais. De forma muito coesa, orgânica e funcional. Perceba como os personagens (com seus figurinos pomposos) interagem bem com esses espaços (quase sempre grandiosos). Isso não é simples.

Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (Everything Everywhere All At Once, 2022) é um exemplo disso. Ao meu ver, o grande vencedor do Oscar 2023 é tão divisivo e polêmico porque sua narrativa é uma grande maçaroca. Uma colcha de retalhos mal remendada, sem unidade ou fluidez. Reproduz fortes elementos de outros filmes, como Matrix (The Matrix, 1999) e Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: Into the Spider-Verse, 2018), sem se destacar das suas referências, sem virar algo maior. Toda vez que alguém exalta a originalidade dos Daniels, um coala fofinho cai duro.

A franquia John Wick explora o cinema de todo mundo e do mundo todo. Vai da literatura medieval à arte clássica, passando pelo gótico e pelo barroco. Incorpora toda sorte de estéticas e inovações (as citadas ao longo do texto e, provavelmente, outras que não percebi). É uma tragédia grega. E reúne tudo isso com extrema destreza. Tudo faz sentido ali dentro. Porque antes foi sendo construído, pouco a pouco, um universo muito próprio e eclético. Então, quando John Wick 4 abusa de ser estiloso e da fotografia neon ou transforma cenas de ação em clipe musical, nunca soa como cópia barata dos filmes de Nicolas Winding Refn ou Michael Mann. São características que se encaixam num material bem fundado. São inspirações a serviço de uma obra original e que se tornam algo novo. Esse é o cinema vulgar de Chad Stahelski. Esse é o auge da mitologia de John Wick.

Comentários (3)

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 24 de Março de 2023 - 23:49


Excelente Torres. A abordagem do avacalho vulgar com o exagero de seus visuais, delicia demais a saga. Verei este material com gosto. Ótimo texto explicitando o histórico ds filmes assim como no apontamento equilibrado de suas fanfarronices e finalizando esculhambando a bosta que é Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo na Casa do Caralho.

topstik | terça-feira, 04 de Abril de 2023 - 04:44

"John Wick 4: Baba Yaga" is the latest installment in the action-packed franchise, following the titular character, John Wick (played by Keanu Reeves), as he navigates a world of assassins and criminals. The movie is directed by Chad Stahelski, who has helmed all the previous movies in the series.

Overall, "John Wick 4: Baba Yaga" is shaping up to be another adrenaline-fueled ride for fans of the series. With the return of familiar faces and the introduction of new ones, there are sure to be plenty of surprises in store for audiences. If you're a fan of action movies or Keanu Reeves, "John Wick 4: Baba Yaga" is one to

Danilo Rocha | terça-feira, 27 de Junho de 2023 - 15:33

parte o coração ver uma história entre mãe e filha (lésbica) de uma família asiática ser diminuída pra validar a história de um homem branco cis-heteronormativo. seria no fim das contas o vulgar auteurism um mimimi do clube do bolinha?

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