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John Wick - Um Novo Dia para Matar

(John Wick: Chapter 2, 2017)
7,6
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251 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A desobediência a um sistema escroto na base da bala

9,0

Baba Yaga. A porra do caralho do Baba Yaga.

Segunda e grosseira incursão escrota de John Wick no cinema. A continuidade do esculhambatório perpetrado por Wick em seu universo peculiar. Não vou perder tempo fazendo sinopse de bosta nenhuma. 

Chad Stahelski e seus comparsas são cientes do que querem e moldam sua obra com uma monumentalidade intrínseca do gênero. As grosserias reverberadas por atitudes infames. As consequências. Todo um conjunto de regras como definição de uma existência específica. A vingança extenuada é re-transformada em modo de vida. O cara voltou e não para uma fuleiragem temporária, mas agora é movido pela sobrevivência e no urro de raiva John sabe que só sai deste universo morto. Mas que se foda a vagabunda prostituída da morte. Se vier que seja à sua maneira.

Logo de cara Chad Stahelski estraçalha. John em seu modus operandi ligado materialmente ao que restou de sua vida na curta temporalidade de aposentado. Seus pertences primordiais e fetichistas. Um deles, o carro. Aqui o diretor demonstra insuspeito trato imagético em cenas cruas, tais quais existem no primeiro, e, assim como este último, a ideia não é revolucionar nada, mas sim ser claro na proposta. E a execução é concatenada por excelência. Uma ambiência já conhecida. Já sabemos quem é o Baba Yaga então aqui expande-se o universo para um trato digno que o cinema de ação merece. Aqui tem masturbação desnecessária de linguagem? Tem uma conscientização identitária em Wick assim como a pertença e representatividade concisa de uma brutalidade de um filme de ação. 

O sentimento de pertencimento ao vil, na verdade, nunca deixou de existir em John. Sua esposa seria um bálsamo para uma suposta vida torpe, e sem sua mulher a linha tênue para o retorno da aposentadoria era óbvia. Consciente desta possibilidade Chad Stahelski a explora trazendo outro ponto caro em filmes com esta envergadura de proposição em perspectiva, carregando uma aura clássica dos westerns aos filmes de ação ignorantes das décadas de 70 e 80: O código de Conduta. A honra entre os animais. As regras. Quando John visa quebrá-las seu universo embrutece e o traz para o seu colo de sangue, tripas e miolos. Uma maior contribuição neste sentido, se é que é possível, fora o pacto de sangue como motivação pra John numa decisão suja e sabia da direção. Porra, para que coisa mais cafajeste do que esse troço mafioso de honra entre assassinos, através do sangue ainda mais? John é uma força brutal de determinação e violência e, como tal, existe mediante o procedimento de uma vida árdua de regras duras para o bem e para o mal. Códigos seguidos e homenageados desde o primeiro filme, onde um estilo de vida é seguido no respeito e defesa de sua individualidade instintiva dialeticamente com a racionalidade louca de um assassino em sua forma. Tal qual Marcus (Willem Dafoe) no primeiro longa luta para morrer à sua maneira. Gianna Marchesi (Claudia Gerini) assim o repete. Identidade. Pacto de sangue e vísceras.

"I'm Back" porra. 

Identidade de novo. John é um copo vazio quando se porta na aposentadoria, o caminho para a mesma é vermelho e o copo enche-se de sangue e sabemos quem é John Wick e como a escapatória final deste universo parece fugaz e rasteira. Aqui um rambo moderno, onde similar ao Rambo IV (John Rambo, 2008), John Wick tem consciência do que sabe ser de melhor, mesmo que isto custe sua vida. Que se fodam as existentes lamentações. O universo clama? Nada mais interessante do que o clamor do retorno consciente num mundo de espelhos. Decididamente brilhante a homenagem a Operação Dragão (Enter the Dragon, 1973) com o Bruce Lee. Até nas referências o filme diversifica-se do óbvio. Os espelhos não servem aqui para confundir, mas, sim, confrontar e estabelecer o controle de si nas suas prerrogativas primordiais de existência. Voltar botando pra foder.

Esta formatação identitária me soa como uma metalinguagem de um cinema sujo, sombrio e necessário, principalmente em tempos politicamente corretos e covardes. Onde educação, cultura e sociabilidade têm de passar pelo crivo das amarras do correto, onde se conurba/conturba e manobra o meio social. Foda-se. O filme busca contrariar a estupidez e sem perder espaço mercadológico. A substância é mantida e todo o fetichismo, no qual citei somente o carro anteriormente, mas perambula a obra inteira. Os apetrechos de preparação ante o holocausto, as perseguições de carro, a extensão fálica dos armamentos. Estes fetiches são usados de forma seca, sem desvios éticos ou frescuras outras. Orgulhosamente. Aqui é filme de ação cacete. Botando o pau na mesa.

O absurdo funcional da crueza de sentido e forma da ação impressiona. Keanu Reeves encarna um personagem duro que dentro de seu escopo físico tem uma presença primordial. Os trejeitos insinuados detalhadamente são méritos invejáveis. A determinação do ator é premiada pela direção segura. Não é um cala boca pros críticos mediante suas performances dramáticas já criticadas. Simplesmente um “vai te lascar” que o lance aqui é na porrada.

Inteligentemente o filme expande seu escopo espacial de forma a dar margens à possibilidades de ação que serão exploradas. Esta expansão serve como uma proposta de ação numa ironia sagaz. O instintivo bárbaro e brutal destituindo a clave civilizatória na qual gângsteres escrotos propõem uma paz e domínio após o sangue de milhares estabelecidos nas eras. Tais quais tantos figurões ocidentais, historicamente, assim já também o fizeram/fazem/farão. Nada mais justo do que boa parte da esculhambação toda se passar num museu moderno com figuras greco-romanas clássicas, representantes de uma civilidade conseguida mediante muito sangue jorrado que vai ser desordenada quando um subalterno, pressionado até o limite, desafia o sistema. Planos em contra plongée deixam isto claro, a imponência da arte elitista sendo pintada de vermelho e tripas. Uma amostra do barbarismo existente no qual não significa o caos, mas sim um contraponto à civilidade farsesca que nutre mentes e crê num recesso dos instintos, porém somente diante dos atores e demagogias certas. O civilizado dita uma ordem de existência de regras que fundam sua estrutura e quando as mesmas são quebradas as consequências devem ser escrotas. Santino D’Antonio (Riccardo Scamarcio) representa o elitismo citado na utilização escusa destas regras. A busca pelo poder com o usufruto de armas barbarizadas com o intuito dum marco civilizatório farsesco sobre o sangue alheio, assim como a tão citada missão impossível que Wick teria disponibilizado a fazer ante seu pedido de aposentadoria. Neste ponto Winston (Ian McShane) age como artífice de uma devida e buscada imparcialidade na manutenção destas regras, porém, sabendo mexer determinados peões no que tange a manter Wick encaminhado na putaria, assim como fora no primeiro filme. Nada é preto no branco, o direcionamento fílmico é objetivo, mas não imbecil. As regras citadas de maneira exagerada pelo animal que escreve isso, aqui existem rígidas, mas, nada mais interessante do que um desequilíbrio no domínio das mesmas. Principalmente quando se reverte a porra toda em cima de um mandatário filho da puta exemplificado em Santino. Um longa como uma resistência enveredando-se num nicho de filmes primordiais e primais onde “não se desperdiçam palavras” como é dito por Santino sobre John Wick. Sem enrolação ensebada e desnecessária. Um cinema honesto.

Falando nisso já chega de desperdiçar palavras de merda. Assistam a porra do filme. 

Texto escrito em 12/05/2017, e agora publicado ipsis litteris. Do jeito que estava.

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