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Críticas

Cineplayers

O mestre do entretenimento em uma de suas obras-primas que persistiu aos sintomas do tempo.

9,0

Assim como pode solidificar e ratificar a qualidade de um filme através dos anos, o tempo tem tanto a capacidade de descobrir pequenas pérolas ignoradas e desprezadas na época de seu lançamento quanto o poder de revelar as falhas de produções consagradas. Algumas vezes, porém, esse mesmo tempo pode cometer algumas injustiças. Jurassic Park é uma delas. Desde que se tornou febre mundial quando do seu lançamento, em 1993, o filme dos dinossauros de Steven Spielberg tem sido lembrado única e exclusivamente em função das barreiras quebradas no campo dos efeitos digitais, o que é uma injustiça, levando em conta que se trata de uma das melhores obras de ação e aventura já produzidas.

Qualquer pessoa com mais de 15 anos conhece a história. O milionário John Hammond visita os arqueólogos Alan Grant e Ellie Satler para convidá-los a fazer uma visita ao seu novo projeto, um parque que contém "algo do interesse deles". Ao chegar lá, na companhia do matemático Ian Malcolm, de um advogado e dos netos de Hammond, Grant e Sattler descobrem que, através de inovadoras técnicas de clonagem, o milionário conseguiu trazer de volta à vida dinossauros extintos há 65 milhões de anos. Mas, durante o passeio, uma tempestade e uma tentativa de sabotagem colocam os dinos à solta, inclusive os temidos velociraptores e o imbatível Tiranossauro Rex.
 
Steven Spielberg é um cineasta extremamente inteligente e, a exemplo do mestre Alfred Hitchcock, conhece intimamente o público a quem se dirige. Em 1975, quando fez Tubarão, Spielberg optou por não mostrar o animal durante grande parte do filme, sabendo que essa espera apenas aumentaria o nervosismo da platéia. Como todos sabemos, ele estava certo, e Tubarão se tornou o maior sucesso de sua época. Mas os tempos mudaram, o cinema evoluiu e o público também não é mais o mesmo. Ciente disso, Spielberg sabia que a tática usada em Tubarão não funcionaria em Jurassic Park e que ele teria que dar às pessoas aquilo que elas esperavam: dinossauros.
 
Dessa forma, portanto, em menos de vinte minutos de filme temos na tela os dinossauros mais convincentes já vistos no cinema se alimentando e caminhando ao lado dos atores. Obviamente, hoje o impacto dessa cena é muito menor do que era onze anos atrás, mas ainda assim a seqüência, belíssima e muito bem dirigida, tem a capacidade de atingir e assombrar o espectador. É claro que Spielberg não entrega todo o pote de ouro logo de cara. As grandes estrelas do filme, o Tiranossauro e os Velociraptores, ganham a tela apenas muito tempo depois. É como se o cineasta dissesse ao público: "Tá, vou colocar esses dinossauros no início para vocês se acalmarem, mas depois eu vou contar o filme da maneira que achar melhor".
 
Em seguida acompanhamos a explicação sobre a maneira com que os dinossauros foram recriados. Apesar de sabermos ser algo fora de cogitação, é um momento muito eficiente e fundamental à produção, já que realmente convence o público da possibilidade de algo dessa natureza ser levado adiante. E, convenhamos, um filme sobre dinossauros fundamentado na ciência é muito mais atraente do que um calcado na fantasia.

Outra qualidade do roteiro de David Koepp (que tem bons créditos no currículo, como O Pagamento Final e O Jornal), além de uma história bem amarrada, diz respeito aos personagens. Mesmo pouco profundos e complexos, o filme oferece o bastante para torná-los agradáveis e simpáticos, um dos pontos fundamentais para o sucesso deste tipo de produção. Além de construírem bem o relacionamento e apresentarem um pouco da personalidade de cada um (as primeiras cenas entre Grant e Ellie e a conversa desta última com Hammond em uma mesa de refeições são bastante eficazes nessa questão), Spielberg e os roteiristas ainda se beneficiam com as boas interpretações do elenco. Sam Neill, por exemplo, se destaca por tornar o mal-humorado Grant em uma figura divertida, da mesma forma que Richard Attenborough faz da megalomania de Hammond apenas uma falha de um velhinho adorável.
 
Levando em consideração que Jurassic Park é, no fundo, puro entretenimento, portanto destinado às multidões, é admirável da parte de Spielberg, Crichton e Koepp que eles insiram uma discussão, mesmo que breve, a respeito da ética e dos limites da ciência. É uma ótima cena, muito bem escrita, envolvendo todos os personagens principais onde cada um expressa suas opiniões a respeito do assunto, trazendo à tona um assunto pertinente em relação ao tema do filme, mas que provavelmente seria ignorado caso fosse realizado por outros cineastas.
 
Quem assistiu a alguma produção da série Indiana Jones ou a O Resgate do Soldado Ryan sabe que, além de um grande contador de histórias, Steven Spielberg sabe como poucos criar cenas de suspense e ação. É difícil dizer que em Jurassic Park ele está em sua melhor forma, mas não corro risco nenhum em afirmar que aqui os momentos de tensão são tão bem construídos como nas produções citadas acima. Cada seqüência parece ter sido cuidadosamente desenvolvida, com planos que conseguem aproveitar o máximo de cada situação (como o do olho do T.Rex no vidro no carro ou os velociraptores ao lado de Tim na cozinha).
 
Tomemos como exemplo o modo como Spielberg prepara a primeira – e já clássica – aparição do T. Rex. Tudo começa com os carros parados, sem energia, em frente à cerca do animal. Uma cabra havia sido colocada para chamar a atenção do Rex. É então que o chão começa a tremer e a água no copo vibra, sinal de que algo se aproxima. Depois, o garoto Tim coloca os óculos de visão noturna e enxerga o lugar onde a cabra estava completamente destruído. Apavorados, eles se perguntam onde o animal foi parar, quando uma das patas da cabra cai em cima do teto do carro. Corta para o outro carro onde Grant e Malcolm conversam. Recebemos a informação de que a cerca elétrica não funciona. Uma mãozinha com 65 milhões de anos de idade aparece brincando com a cerca. Em seguida, temos o ponto de vistas dos dois homens quando os fios da cerca são arrebentados, um a um. Então, quando aparece o Tiranossauro, o clima havia sido tão bem construído que os nervos do espectador já estão em frangalhos, e o ataque do animal se encarrega de acabar com os que ainda restam.
 
Dessa forma, as cenas de ação de Jurassic Park são todas, sem exceção, extremamente eficientes. Gosto particularmente – além da já citada primeira aparição do Rex – da seqüência na cozinha envolvendo dois velociraptores e os dois garotos, um jogo de gato e rato tenso e inteligente. Spielberg ainda tem uma habilidade incrível ao saber o momento certo de colocar frases e situações bem-humoradas em seus filmes (vide novamente Indiana Jones), e em Jurassic Park existem várias cenas que funcionam nesse sentido, mesmo nos momentos mais inesperados (o "De volta ao carro" de Tim é um bom exemplo).
 
Confesso que, quando decidi rever o filme, não esperava gostar tanto. Mas foi só a maravilhosa trilha de John Williams começar a tocar na chegada dos personagens à ilha que me rendi novamente a essa quase perfeita peça de entretenimento cinematográfico. Jurassic Park tem tudo o que se espera de uma obra do gênero e, por essa razão, merece reconhecimento por todas as qualidades citadas neste texto, e não apenas pelos seus – ainda hoje - ótimos efeitos especiais.

Comentários (14)

Sergio Gregorio Araujo Silva | segunda-feira, 19 de Agosto de 2013 - 19:47 | Responder

Creio que não seja todos os cinéfilos que tenham a oportunidade de ver o seu filme favorito no cinema.

Vou realizar um sonho de infância, vou sair da seção como um novo homem.

Danilo Rodrigues Santos | terça-feira, 20 de Agosto de 2013 - 07:27 | Responder

Tive a honra de assistir meu filme preferido no cinema,no ano passado,quando relançaram o Titanic.

Cristian Oliveira Bruno | quinta-feira, 28 de Novembro de 2013 - 17:46 | Responder

Não há efeito especial hoje que transmita o realismo dos dinossauros deste filme. As criaturas mais realistas do cinema até hoje.

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