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Kimi: Alguém Está Escutando

(Kimi, 2022)
6,5
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Críticas

Cineplayers

O experimentalismo de Soderbergh nos tempos de isolamento

6,5

Recentemente, Joe Wright teve o seu A Mulher na Janela massivamente distribuído no streaming graças à Netflix. O longa, adaptado de romance escrito por A. J. Finn, mostrou-se indeciso quanto a tom e não decidido quanto ao lugar em que fincaria pé, se seria assumido no B, num thriller mais sério ou em um mix de homenagens indo de Hitchcock ao giallo. Tempo depois desse filme protagonizado por Amy Adams, numa boa atuação porém prejudicada em meio à confusão narrativa do filme, Soderbergh engendrou Kimi, num movimento de reverência a Hitchcock muito mais honesto do que fizera Wright.

Esteticamente já se vê, em seus primeiros minutos, o quanto Kimi é até mais sofisticado em termos de exploração imagética. Se os cenários têm uma paleta de cores mais sóbria e menos elementos que os de A Mulher na Janela, eles ganham do filme de Wright em termos do que se pode chamar de economia possibilitadora. Tudo em Kimi parece mais pobre em termos de design, mas ao mesmo tempo há uma artesanalidade ali que possibilita uma experimentação com a câmera, uma movimentação com ela que explore os espaços reduzidos e as possibilidades de tensão nesses mesmos recintos. Digo isso vez que o longa se ambienta em período pandêmico. As pessoas ficam mais enclausuradas, a própria protagonista mais ainda, visto ser agorafóbica.

Soderbergh, nesse sentido, até insere situações sutis, porém ensejadoras de reflexão pra esse período em que vivemos correndo de um vírus. Pra além disso, ele passeia pelo carrossel de referências, sendo Janela Indiscreta talvez a mais proeminente delas. Interessante também como o diretor, na mesma esteira de atualidades com que trata isolamento e uso de máscaras, insere tecnologia na pauta narrativa. É como se ele trocasse o voyeurismo da persona obcecada por janelas pela observação atenta e incessante à tela do computador. Angela, numa atuação bem firme de Zoe Kravitz, como essa protagonista da informática, está sempre de olho na tela e no que podem conter os áudios da empresa para a qual trabalha e que produz aparelhos semelhantes às Alexas da vida real. Algo que reforça o quanto o roteiro se mantém próximo do palpável para o espectador, trazendo à baila o Siri e outros programas comandados por voz.

Depois que Angela descobre um crime cometido através dos áudios que ela analisa para a empresa, é cativante e concomitantemente angustiante vê-la enquadrada por Soderbergh como um alguém à James Stewart em Rear Window. Só que, enquanto lá o personagem não podia se locomover com sua perna engessada, em Kimi nossa grande figura central Angela tem pânico de espaços abertos, óbice que se mostra atual dada a abertura que se tem atualmente para discutir saúde mental. Ela precisa, então, sair de seu apartamento e ir até o local devido para fazer uma denúncia. É quando o filme até se encontra mais em ritmo, ficando melhor balanceado nesse sentido, e é quando a chave se vira de vez pro gato e rato com essa câmera frenética que Soderbergh usa pra refletir o estado confuso e atordoante pelo qual passa a protagonista quando está na calçada para atravessar uma rua e se depara com a multidão fora de sua “toca”.

Gosto como, a partir daí, Kimi vira um longa que mais se esbalda nas possibilidades de ação e correria e menos em preservar loucamente uma lógica interna que dê sentido a tudo. Tá certo que há um comprometimento narrativo em certo sentido porque alguns desdobramentos do roteiro são abruptos e escassamente trabalhados. Não é um filme que amarra tão bem aspectos de sua história, mas que se mostra direto e reto nas dinâmicas com sua protagonista. Ela vai pra cima e pra baixo, por vezes desnorteada mas também com senso de defesa, sabendo lutar contra seus perseguidores depois que sai de seu lar para denunciar os infratores. Sequências insanas e imbuídas de muito estilo nascem como produtos dessa ideia, como aquela em que Angela consegue escapar de uma van de sequestradores graças à ajuda de uma multidão em protesto e, até mesmo, aquela sequência toda ao terceiro ato em que ela encarna um Esqueceram de Mim e se vira com o que tem pra dar uma rasteira daquelas nos bandidos. É de um clichê... Mas um clichê tão bem decupado e que se mostra acertadamente sucinto no modo como encara o encenar da ação e a própria duração – tudo se encerra antes de 89 minutos  - que dá pra quase pra relevar e fazer vista grossa pro fiapo de explicações do longa.

Em suma, é um Soderbergh homenageando e fazendo laboratório com sua câmera, mostrando que sabe olhar pra clássicos não só, embora sobretudo hitchcockianos, e concatenar audiovisualmente algo autêntico a partir desse olhar saudoso. Seu Kimi tem personalidade, sua condução idem e sua protagonista nem preciso dizer, visto que o forte azul de seus cabelos já diz muito sobre algo destacável da mesmice. Se derrapa em aspectos mais específicos do texto de David Koepp, acerta na ação mais pra John Wick e em toda essa pegada quase cartunesca/farsesca, a passar por corredores, prédios, escadarias e culminar num gran finale resolvido na base da pistola de pregos.

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