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Críticas

Cineplayers

O martírio da bondade.

8,5
Lazzaro (Adriano Tardiolo) é um rapaz que vive em um território rural do interior da Itália, onde trabalha com sua família e outros roceiros na plantação e colheita de tabaco de uma marquesa de origem nobre. Sem salário e em péssimas condições de moradia, saneamento básico e infraestrutura, essas pessoas vivem em um regime de semi escravidão sem sequer saber disso. Mas o que impressiona nessa rotina que a diretora Alice Rohrwacher pinta em Lazzaro Felice (idem, 2018) não é o horror na condição de vida dessas pessoas exploradas, mas sim o estado de espírito do protagonista, sempre bondoso, ingênuo, benevolente e incansável. Lazzaro é um elemento quase espiritual e catártico em um ambiente de extrema desolação e infelicidade. 
Em pleno século XXI, com o cinema contemporâneo europeu cada vez mais minimalista e hermético, um filme como Lazzaro Felice impressiona por sua humanidade aflorada e pureza genuína. Em termos de comparação, é como se o Vagabundo, personagem icônico criado por Charles Chaplin, fosse deslocado de seu contexto cômico/pastelão para um trabalho de Robert Bresson, tal como A Grande Testemunha (Au Hasard Balthazar, 1966). Despido do alívio cômico do Vagabundo, Lazzaro é apenas a parcela de desolação e melancolia do personagem, de modo que sua figura ingênua e bondosa forma um contraste estarrecedor com aquele cenário em que a crueldade humana prevalece acima de tudo. 

Lazzaro Felice é, sobretudo, um filme estranho, feito dentro de um tempo jamais especificado, com opções narrativas curiosas e elipses surpreendentes. Rohrwacher se vale dos sons da natureza e da cidade para compor sua trilha, não delimita a passagem entre passado e presente e assume uma roupagem de fantasia para eleger Lazzaro uma figura quase bíblica a atravessar tempos e cenários sem se corromper, envelhecer ou sequer se abalar. A escolha do nome do personagem não é mera coincidência. Como o Lázaro dos evangelhos bíblicos, ele transcende a morte e o tempo, mas encontra dificuldade de existir em um mundo cruel demais para amar ou acreditar na bondade, no altruísmo e no milagre. 

Rohrwacher faz de seu conto uma análise da Itália entre os anos 80 e a contemporânea, assim como retrata o aumento da pobreza, a desigualdade de classes, a decadência da aristocracia, o êxodo rural e a crise com imigrantes pobres que nessas últimas décadas moldaram a realidade social do país. Lazzaro é um coringa que atravessa essas condições e mudanças sem se deixar abater, mas na reta final a diretora dá seu golpe mais duro ao colocá-lo em uma situação tão desumana que nem sua pureza nata e seu bom coração são capazes de suportar. As lágrimas que Lazzaro finalmente derrama são as mesmas lágrimas que banham os muitos inocentes e mártires de um mundo incompatível ao amor e que simplesmente não perdoa a bondade. 

Comentários (2)

Léo Félix | sexta-feira, 04 de Janeiro de 2019 - 12:46 | Responder

Lazzaro foi uma das gratas surpresas de 2018.
Belíssimo texto, Heitor!

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