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Lenda de Candyman, A

(Candyman, 2021)
6,9
Média
25 votos
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Críticas

Cineplayers

Novos esquemas para velhos problemas

8,0

O material aqui visa seguir adiante tanto como uma continuação do original, O Mistério de Candyman (Candyman, 1992), quanto manter a roupagem da moda que o produtor e roteirista Jordan Peele ajudou a divulgar. Tratando questões sociais – que obviamente existiam na fita anterior citada – de forma franca e com uma transubstanciação entre o antigo e o novo para gerar uma obra que corrobore com discussões vigentes e pela perspectiva do negro. Tanto em protagonismo diegeticamente da fita quanto pelas peças envolvidas por trás da produção.

Sai a acadêmica branca do primeiro filme dos anos 90, que tinha sua perspectiva terceirizada acerca do racismo, e entra o artista negro em busca de inspiração e que tem toda a carga histórica e social nas costas sobre o problema racial que enfrenta, e diante das soluções que vai acabar encontrando. Nisso o filme é capacitado a demonstrar o domínio de sua diretora Nia DaCosta em conduzir uma nova investigação do pintor Anthony McCoy (Yahya Abdul-Mateen II, excelente), na qual este cidadão adentra num universo obscuro e esquisito onde o cara começa a se deteriorar naquilo por dentro e por fora num esquema propicioso de vício e catarse que vai acabar por desembocar num morticínio escroto.

Toda essa penetração física e mental dum personagem num mosaico de psicopatia e perigo é ajambrada decentemente pela criatividade de sua diretora no desenrolar dos mais diversos planos em composições que se usam de espelhos como importante força dramática daquele lugar-horror. Assim contemplamos com elegância as formas como somos compelidos a desacreditar o mal assistido como se fosse mera mitificação solta, mas o horror está exatamente no reflexo daquilo que propomos a ser. Isto entra em contato frontalmente com a permanência histórica (esta terminologia da história é ao mesmo tempo óbvia e imortal na minha escrita) do racismo pelas décadas e séculos. Onde o primeiro Candyman lá atrás tinha ligação direta com a escravidão; e os mais contemporâneos foram lidando com outras formas de destruição mental e física, tais quais o racismo estrutural da sociedade/estado norte-americana que pressupunha leis que abraçavam o separatismo racial e a violência policial continuada. Brutalização esta que persevera aqui como uma esfera de continuísmo visceral. A maldição do Candyman é a formação de uma legião de vingadores que paridos foram mediante o estraçalhamento de seus corpos e encontraram uma maneira de resistir na eternidade como uma resposta ao sofrimento continuado que lhes fora causado.

Justifica-se a entrada de McCoy neste universo por conta de sua hereditariedade na maldição de sangue do Candyman ao mesmo tempo que sua existência é dentro do racismo diário, percebido pela desgraça e não pelo talento. Basta sacar que seu trabalho só começa a causar tesão diante da morte pelo qual está cercado. É a epistemologia cosmética da morte. A crítica de arte branquela é uma das representantes desta faceta quando muda sua opinião acerca do artista, já que, se está causando propaganda e morte por perto que venha o sensacionalismo do negro, somente assim ele pode servir pra alguns muitos.

A derrocada dessa figura acabar-se-á por verter tripas numa catarse final. Uma expiação objetiva. A transformação pela maldição e a resposta física ao racismo pela força do não-esquecimento. A caminhada através do conhecimento de si mesmo entrelaçado pela história – e estórias – de semelhantes seus que destruídos foram por racismo. Não que isto fosse alguma novidade pra ele como negro que é, e que racismo obviamente sofre, mas o conhecimento liberta. Assim como esconjura outros tantos.

A câmera acaba por ser de interesse nessas deambulações, nas quais as escolhas funcionam bem para uma junção entre cores e planos para se criar um ambiente de poder. O amarelo como aparente dentro da escuridão vai num crescer primordial até vitimizar quem venha a aparecer. Não há ataques avulsos, quem o chama que se lasca. Candyman, Candyman, Candyman, Candyman, Candyman. A repetição de seu nome para que jamais seja esquecido. Há diversas maneiras de objetar-se, e a vingança estarrecedora é uma delas. Uma reação frontal ao destroço sofrido.

Segue uma linha coerente com o filme de 1992 e abarca uma movimentação para se crescer a mitologia sem avacalhar a gênese basilar da coisa. Traça seus próprios caminhos homenageando bem a obra original – que considero seminal – enquanto se manifesta com densidade não só acerca de sua temática social escrota, mas nas escolhas de linguagem para propor o horror. E sem graça nenhuma. Nia DaCosta foge certeiramente do humor do cinema de seu produtor buscando um caminho sólido próprio, tanto nessa seara quanto na constituição de seus personagens cercados de cores e escuridão, onde a imagem mantém desperto eternamente uma tensão inequívoca num clima de desconforto que não acaba.

Lançado dentro dum período de proposição direta sobre o racismo, onde temos diversas movimentações sociais acerca da questão, não sem ser uma reação a desastres atuais, tais quais a morte do George Floyd pela polícia estadunidense – algo que é usado explicitamente na formação de um dos Candymans, que é executado pela polícia quando era inocente –, a obra é sintonizada objetivamente ao formato das pautas citadas. Nisso possui ainda um tom incisivo ao denotar o discurso obtuso de policiais brancos que escamoteiam suas ações, fabricam narrativas e ameaçam negros e negras para que a manutenção do status quo de poder racial seja mantido. Assim como as mais diversas destruições físicas devessem permanecer. O negro tem a sua saga em combater eternamente pra continuar vivo, e aqui neste plano que ele tenha sua expiação não através somente de sobrevivência, mas por existência plena daquilo que pode usufruir aqui. O confronto é eterno. O racismo se metamorfoseia, mas ainda mantém suas estruturas de poder, e cabe ao cinema ser uma força de denúncia e embate. E isto deve ser divulgado e contado a todos, como afirmara Daniel Robitaille, o Candyman original. Sim porra. Motherfucking Tony Todd em aparição curtíssima, porém sensacional, onde expõe que a mitificação do real deve permanecer no imaginário coletivo.

“... meu pai pregava, pela fartura do céu e seu paraíso na outra vida, enquanto o homem branco tinha tudo isso aqui mesmo nesse mundo.”

Malcolm X

Pra quem se interessar pelo Candyman e sua mitologia, eu mesmo sendo eu, escrevi um especial acerca da trilogia original, alcunhado de Saga Candyman - O racismo e o ritualístico no cinema de horror via Candyman, pra você conferir. Além de uma crítica minha do filmão primordial primeiro, Candyman: negro, torturado e vingativo, também aqui. Cheguem junto.

Texto integrante do especial Cinemas Negros

Comentários (1)

Igor Guimarães Vasconcellos | sexta-feira, 24 de Setembro de 2021 - 18:28

Melhor filme que eu vi no cinema nesse pós Covid.
Boa, mano!
vc deu ainda uma nova cor ao filme, amigo.
Vamos!

Ted Rafael Araujo Nogueira | quarta-feira, 29 de Setembro de 2021 - 01:51

Beleza demais meu chapa. Existe um trabalho de carpintaria construtiva em linguagem que atesta uma união invocada entre cinema e política. Bora.

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