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Lindo Dia na Vizinhança, Um

(Beautiful Day in the Neighborhood, A, 2019)
7,0
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Críticas

Cineplayers

Mitos intocáveis

7,0

A crítica precisa ser isenta e livre de sentimentalismos, disse alguém por aí. Ainda que as afirmações tenham seus pontos de reflexão e concordância, críticos de cinema são seres humanos igual a todos os outros. Pedir pra abrir mão de sua bagagem emocional é legar robôs ao trabalho crítico, é se retirar do que nos constrói como pessoas e até mentes pensantes. Feita essa preleção, Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in the Neighborhood, 2019) passa longe da perfeição ou da aceitação pacífica a respeito dos aspectos onde sua narrativa é concebida, mas, tendo tido contato inexistente com o homem chamado Mr. Rogers, é difícil sair do transe que o filme submete o público.

Tendo em vista que Fred Rogers, um dos maiores apresentadores infantis da História da TV americana, é uma figura reclusa no que concerne à sua vida pessoal, com inúmeras vias desconhecidas dentro do que se sabe, como estruturar uma biografia? Olhando para o seu entorno, para a partir daí circundar o mito (sim, mito). Há 20 anos, um jornalista da Squire recebeu a incumbência de entrevistá-lo para um número especial da revista em que herois modernos e reais teriam enfoque. Ao tentar perfurar a redoma que protege a vida pessoal do educador televisivo, o amargurado jornalista se vê enredado na relação que Rogers encampa com ele, preparando um olhar sobre seus erros e defeitos como marido, pai e filho.

Essa estrutura de ler biograficamente o entrevistador para alcançar o entrevistado tem uma bossa sagaz e ao mesmo tempo é a forma encontrada para sanar a ausência do foco de importância, e com isso o filme ganha alguma pitada de originalidade. É um risco calculado que se propõe o projeto de Marielle Heller, que acaba inveredando sua mise-en-scène pelo caminho da fábula transformada em realidade, que transforma o filme numa experiência requintada artisticamente, e apresenta um trabalho de cenografia dos mais brilhantes recentes.

O filme tem uma comunicação muito eficaz com o mais recente trabalho de Robert Zemeckis, Bem-vindos a Marwen (Welcome to Marwen, 2018), que assim como ele bebe na fonte da revitalização do melodrama para as plateias atuais, homenageando e entretendo a um só tempo. Se no longa de Zemeckis esse caminho rumo aos domínios de Douglas Sirk bebe na fonte da fabulação paralela, o novo longa da diretora de Poderia me Perdoar? (Can You Ever Forgive Me?, 2018) reveste de fábula visual sua narrativa, e coloca mais um tijolinho na construção da identidade da diretora, que mais uma vez revisita o lugar do contador de histórias e o seu lugar no mundo que o diminui.

Seria injusto cobrar do filme uma maturidade temática que passasse ao largo dos tradicionais valores da família americana (e do mundo), tendo em vista que Mr. Rogers foi um homem que viveu da venda e da manutenção desses valores, sendo reiterativo inclusive na implantação dos mesmos como um modo de vencer traumas e evoluir como pessoa. Amarrando os ideais do personagem à "mensagem" da produção, ainda que o resultado seja artificial e brega, faz sentido que esse seja o local alcançado. A persona guru de Rogers é o que o filme tem tanto de genuíno quanto de doutrinador.

Acima do bem e do mal, paira Tom Hanks. Empenhado em reproduzir a hipnose coletiva que o filme quer abarcar, o Rogers de Hanks é tão sedutor quanto o original e sua presença embala de maneira primordial o projeto. Matthew Rhys tem uma chance aproveitada como o protagonista cheio de camadas, e Chris Cooper continua elevando cada cena onde está. O elenco é a cereja de um bolo que tinha tudo pra apresentar resultado favorável, mas que sabe tirar proveito da fábrica de bons sentimentos que o filme vende, ainda que na cena final uma faísca de realidade escape ao "vizinho favorito da América". De longe, o humano escapa à lenda, pena que o filme não aproveite mais dessa demonstração de rachadura.

Crítica da cobertura do 21º Festival do Rio

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