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Lovers Rock

(Lovers Rock - Small Axe, 2020)
8,5
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Críticas

Cineplayers

Lovers Rock: amor em movimento

9,5

O amor é um sonho. Como captá-lo em movimento no cinematógrafo? Essa parece ser a maior preocupação e principal premissa do diretor britânico Steve McQueen em Lovers Rock (2020), segundo episódio (ou filme) da antologia Small Axe, sua mais nova empreitada.

Premissa um pouco ingrata, na verdade. O filme, de fato, aparenta se desprender um pouco do projeto como um todo. Talvez um sopro de doçura em uma grande atmosfera de soco no estômago que McQueen desperta ao longo dos cinco filmes da antologia, que já estão disponíveis na GloboPlay. A antologia lança um olhar ampliado sobre a vida de imigrantes das Índias Ocidentais e seus filhos na hostil Londres dos anos 1960, 1970 e 1980, tendo como motor injustiças sociais e raciais que dificultam a realização dos sonhos desse grupo. Em Lovers Rock, a lupa aponta para o amor, explorando o microuniverso de um baile do início dos anos 1980. Mas a realidade lá fora urge, o que garante a essa história de amor intensas camadas.

Martha e Patty “escapam” na surdina para ir a um baile clandestino de imigrantes caribenhos no subúrbio de Londres. Lá, Martha conhece o jovem Franklyn, por quem tem uma imediata atração. Cece, que mora na casa onde o baile é produzido, comemora seu aniversário e planeja uma conquista. Ao perceber que Bammy, seu objeto de interesse, repara em Martha, surge uma rivalidade ao longo da noite que acaba de forma imprevisível. Toda a trama, que duram em torno de 70 minutos, se desenrola na noite do baile e na manhã seguinte, quando Martha e Franklyn voltam para casa.

Se McQueen busca o amor, ele se atenta a todos os pequenos e grandes estímulos que um baile pode proporcionar, o seu microcosmo. A câmera acompanha pequenos gestos como as mãos do casais se tocando, os movimentos coreográficos, a cadência dos corpos, as danças sensuais e coletivas. Ela se move embalada pela música e pela emoção. O baile em si proporciona momentos dos mais variados, com situações que vão desde o romântico até coreografias masculinas que emulam golpes de luta. Há uma carga religiosa imensa e pontos nos quais o culto Rastafári se torna uma constante. Há todo um cuidado aqui em se criar uma cinematografia específica para engendrar uma oposição tensionada entre o baile, microcosmo, e o mundo externo, macrocosmo, de onde os problemas vêm.

Do mundo exterior, elementos perigosos invadem ou são emulados. A transição do DJ remete à sirene de policiais, que eventualmente aparecem. Um grupo de jovens brancos ameaçam Martha quando ela vai atrás de Patty, que deixa o baile. Cece é vítima de uma situação de violência perpetrada por Bammy. CT, um primo de Martha, invade o baile ao vê-la entrar e cobra uma antiga dívida de lealdade. É como se McQueen suspendesse esse clima quase onírico por momentos para situar o espectador das tensões sociais que perpassam aquele baile, que poluem a atmosfera dos amantes. Mesmo que esse seja o filme menos “sociológico” da antologia, com foco maior em questões individuais e psicológicas, não há uma isenção completa do macrocosmo aqui. Essa é a beleza do caminho traçado por Martha e Franklyn: seus percalços inusitados.

Mas o baile minúsculo também transcende a si mesmo em sua significância, se transportando para uma arena de luta. A música é um dos principais fatores para esse estado. A relação dos imigrantes e seus descendentes com ela é muito forte em todos os filmes da antologia. Ela assume uma espécie de protagonismo e nesse episódio em especial é talvez a teia de tricô que perpassa o emaranhado das pequenas tramas. O Reggae jamaicano está lá em toda sua majestade, mas há outros ritmos que compõem a mesa do DJ, como a Disco Music americana. Lovers Rock, o nome do filme, remete ao gênero musical favorito de Martha, muito famoso em Londres nos anos 1970 por compor músicas melódicas sobre o amor. Também há um sentido de amantes dançantes que o inglês e o filme permitem. É através da música que Martha e Franklyn se apaixonam e que CT encontra a cura e a redenção, em um lugar onde ele finalmente é aceito. O êxtase é alcançado em uma das cenas mais memoráveis do filme, quando Silly Games de Janet Kay explode um coro uníssono de expurgação.

MacQueen tem em sua filmografia um aspecto de sonho roubado, nesse caso, os sonhos de uma vida melhor de pessoas negras que são solapadas por injustiças sociais. Small Axe é inteiramente sobre isso. Mas o sentimento de esperança é um forte contraponto a esse sonho interrompido indevidamente. No movimento cadenciado de um simples baile o diretor demonstra que o amor em movimento acaba sendo um poderoso fio condutor de esperança.

Comentários (3)

Herbert Engels | terça-feira, 13 de Abril de 2021 - 18:39

Small Axe é uma das melhores coisas que saíram recentemente.

Igor Guimarães Vasconcellos | quarta-feira, 14 de Abril de 2021 - 04:17

Grande texto, minha amiga. Lindo você ter captado essa relação do amor como expressão, e o quanto isso significa também resistir, viver, respirar. Desde os detalhes do microcosmo do baile até o olhar de encantamento do espectador

Raphael da Silveira Leite Miguel | quarta-feira, 14 de Abril de 2021 - 13:50

Ouvi muitos elogios a respeito desse filme, não entendo como não está sendo lembrado nas premiações.

Carlos Eduardo | quarta-feira, 14 de Abril de 2021 - 18:40

Ele não é elegível para premiações de cinema Raphael. Foi lançado como parte de uma antologia pensada para TV pela Amazon.

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