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Lugar Silencioso - Parte II, Um

(A Quiet Place Part II, 2020)
6,9
Média
77 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Eu preferiria que tivesse mais zuada

5,0

Continuação de terror cult bacanoso geração millennial, cuja obra original fizera sucesso por sua proposta esperta, alguma qualidade na direção (John Krasinski, também protagonista da fita primeira) e pelo suposto ineditismo da citada proposta. Porém o que sobra nesta continuação é a sombra do segundo, encontrando-se uma cópia visual e narrativa do que já havia sido mostrado. Mas agora sem novidade e com ares de preguiça, mesmo que haja uma tentativa forçadamente sucedida para substituição do protagonismo dos sobreviventes.

A trama busca seguir à risca o que fora mostrado no primeiro longa seguindo a partir do exato momento de término deste. Não antes de demonstrar um tesão pelas origens ao mostrar um flashback do dia em que tudo mudou com aliens invadindo a cidade. Nisso acerta por manter o foco na família e em seu protagonista já morto. Nesta sequência temos o melhor trabalho dirigido e narrado da fita, com travellings sólidos usados na conjuntura cênica de restabelecimento do personagem principal de outrora em seu dia a dia, denotando sua liderança para a ação demonstrada desde a primeira aterrorização. Bom preparo esquemático do que estaria por vir, com tensão crescente e suspense bem arrumado. A partir disso o material se debruça de volta ao espectro temporal conhecido. De fugas, falta de zuada e forçando amedrontamento eterno.

É o truque repetido à exaustão. Nada contra. Só o que tem é continuação copista solta por aí, algumas deliciosamente bagaceiras e divertidas, outras tantas – raras – tão boas quanto (quando muito até superiores) o material original, ou a massacrante maioria que se perdem no tempo como repetições. Esta não consegue fazer crescer a mitologia proposta no original e encerra-se num círculo vicioso modorrento. Já sabemos bem que se barulho fizerem, os bichos aparecem, e que os pés fazem barulho nos pisares. O espectador está sabendo disso. Mas o filme age como se isso fosse novidade, e mesmo assim não visa aprontar nem uns sustos marotos pra divertir a massa. Caso de coito interrompido. A trama quando não visa amedrontar (tentativa), cai na esparrela de permear a trama dum enfadonho arremedo de relações entre os personagens. Por sorte a equipe de montagem juntamente com o diretor mantém a duração na rédea curta de pouco mais de 95 minutos (acrescentados de um final desperdiçado), o que pelo menos dinamiza um pouco mais a questão. Se o filme propõe um flashback maroto pra aproveitar seu protagonista em esperteza pra angariar a galera acerca de figura conhecida num espaço anterior, a obra não condiciona nada mais à mitologia do universo. Foca na repetição sub-reptícia confiando que isto vai servir para manter a obra de pé.

A divisão de tramas, a certa altura, visa fazer crescer não só a dinâmica, mas o estabelecimento dum protagonismo dividido. Não entre os adultos, mas na geração infanto juvenil. Esta passagem de bastão é desenvolvida à fórceps mediante escolhas absurdas (a filha surda sair sozinha perambulando com plano estapafúrdio) e necessidades inventadas (a mãe sair atrás da filha enquanto as outras crias ficam sozinhas). Sobre estas invenções que a direção propõe a mudança que, inverossímil ou não, acaba sustentando-se por conta do bom elenco que defende tudo isso. Além da sempre bem vinda adição do excelente Cilliam Murphy, que soma à baleada família um ar inquieto de desolação e paranoia.

Há uma consciência de não ter a necessidade de esconder mais os monstros. O que é um acerto da equipe. Já sabemos como são os bichos, então porque não os banalizar logo? Salvaguardando as diferenças de proporções catastróficas, foi esta a escolha utilizada por James Cameron em Aliens – O Resgate (Aliens, 1986), ao lidar com a continuação do clássico de Ridley Scott Alien – O Oitavo Passageiro (Alien, 1979), onde Cameron mudara totalmente o escopo narrativo, o lance da mitologia que tanto citei. Inclusive na dimensão a termos visuais no que tange a se exibir mais os monstros. Cameron o exibiu mais e o multiplicou abusivamente. Krasinski topa mostra-lo mais. Um caminho óbvio e honesto. O público já conhece o monstro. Vamos deixar isto posto de cara. Assim a trama poder-se-ia avançar com mais ação proposta frontalmente. Isto até é tentado, como na sequência envolvendo um trem ou nos humanos zumbis inúteis à frente, ou mais a frente ainda, o suposto plot com uma turma numa ilha. Ao mesmo tempo que aceita mostrar mais as feras (com as proporções orçamentárias para tal em pauta, obviamente), tenta incutir a novidade através do aparecimento de personagens extras que quando não somam nada à trama, servem para aumentar a duração da obra desnecessariamente.

Ora, no primeiro quando um personagem é mostrado em solidão numa floresta temos ali um dos melhores momentos da fita que une tensão e pleno desespero, aqui a tentativa é frustrada não pelo exagero, mas pelo despropósito. Aparecem do nada sem ter nada que acrescentar e ainda saem de cena sem impacto visual/narrativo algum. Este é o problema. Se tu consegues meter quem quer que seja em tela e o fazes de forma a dar um entendimento factual do que aquilo pode servir de tensionamento da trama, tu acertas. E se errar em tudo isso, mas ao menos entrega uma sequência decentemente isolada, joia. Neste não há nem aqui e nem acolá. Fica na tentativa. Se cortares estas figuras não trazes diferenças nem na trama e nem no imaginário coletivo que a obra visa ensejar. No fim das contas faltou mais barulho.

Comentários (3)

Herbert Engels | sexta-feira, 23 de Julho de 2021 - 01:13

Pra mim foi uma pura perca de tempo. É penas uma emulação do primeiro, e pior, com uma narratica ainda mais limitada.
Incrível é como os, críticos, americanos adoram um repeteco generalizado. Mas também não é surpresa. Estilo cultural viciado na cultura do espetáculo.

Ted Rafael Araujo Nogueira | quarta-feira, 28 de Julho de 2021 - 02:19

Total. E como tal a repetição se faz necessária pela questão financeira. O público pediu por isso? Respondeu nas bilheterias e ganhou mais um brinquedo. Esqueci El até o próximo.

Alexandre Koball | sexta-feira, 23 de Julho de 2021 - 09:58

Eu achei bem "mais do mesmo", produção de primeira, bem acima da média, e fica claro que Krasinski manja da construção de ambientação e sabe usar os clichês do gênero pra criar boas cenas. Mas não justifica uma sequência e - pior - possivelmente uma trilogia.

Ted Rafael Araujo Nogueira | quarta-feira, 28 de Julho de 2021 - 02:21

A fórmula deu o que tinha no primeiro. Daí pra frente é só frescar e se repetir. Pelo menos se desse conta de alguma diversão... Repita, mas faça com farra.

Marcelo Queiroz | sexta-feira, 23 de Julho de 2021 - 14:53

Ted mandando bem mais uma vez. Quanto ao filme, preciso assistir ainda. Gosto do primeiro e, realmente, essa sequência parece uma cópia sem o mesmo vigor e ineditismo.

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