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Críticas

Cineplayers

O fantasma de 68.

10,0
É possível discutir sobre qual filme retrata melhor a inflamada geração de maio de 68 e sua insatisfação política e estética com o status quo dominante. Mas é certo que Jean Eustache fez o filme que melhor sintetiza suas consequências, a filosofia da nova geração e os anseios e desejos de novos indivíduos: A Mãe e a Puta.

Declaradamente autobiográfico, o filme conta em tom brutalmente sincero a história do vagante personagem Alexander, vivido por Jean-Pierre Léaud, a cara da nascente da Nouvelle Vague em Os Incompreendidos e do auge da sua explosão em Week-end à Francesa e A Chinesa, aqui em seu canto de cisne. Trata-se de um homem jovem e intelectual que também é ocioso e vive sem dinheiro com a amante Marie. 

O conflito principal que explanará o caráter moral do protagonista masculina ao espectador se dá quando Alexander passa a se relacionar com a enfermeira Veronika, sem se preocupar em esconder de Marie. Não demora para que a relação a três torne-se problemática, com cada uma querendo se relacionar com Alexander de maneira monogâmica e vendo-se presas à estranha dinâmica que surge.

Eustache encenava diálogos extraídos da vida real, em ruas movimentadas, em mesas de bar, em camas bagunçadas; e seus longos planos onde seus protagonistas dialogam sem parar marcam uma verdadeira reflexão do espírito do que foi intimamente o maio de 68 para aquela geração de jovens adultos. Marie se prende a um homem carismático porém imoral, fascinado e envaidecido com a possibilidade de ter para si uma mulher que cuide dele ao mesmo tempo que se relaciona com a sexualmente desinibida Veronika, que toma a iniciativa ao flertar com ele.

O filme potencializa todas as grandes inovações da nouvelle vague e as radicaliza, libertando o espírito vagante do neorrealismo, a montagem fragmentária, o contexto marginal de seus personagens tão bem representado pela eclosão de novos cinemas. Tudo que foi arranhado previamente aqui é experimentado ao máximo, fazendo um filme difícil, contemplativo, onde grande parte de suas monumentais quatro horas não são dedicadas a conhecer o mundo onde seus personagens vivem, mas sim seus universos particulares de pensamentos e sensações.

Mas esse espírito libertado na verdade é um fantasma, pois A Mãe e a Puta é, antes de mais nada, uma ressaca moral. Um olhar para dentro após toda uma década de ambições políticas, de promessas de mudar o mundo, de novas filosofias que prometiam uma transformação universal, cujo resultado permaneceu inalterado. O homem em si, pensado como sociedade, não havia mudado muito, e permanecia impassivelmente conservador, chauvinista e egocêntrico.

Em seu primeiro longa-metragem, o diretor fez mais do que pôr para fora seus pensamentos encarnados na boca de Léaud - também fez questão de ver como os outros viam Léaud, seu lado feio e degenerado. Marie e Veronika transgridem a condição de simples personagens-apêndice de Alexander, recusando-se a simplesmente serem encaixadas da forma como o título as define, como pontes para o homem que quer transitar entre os costumes mais conservadores e liberais sem culpa. A “mãe” Marie tem tanto de “puta” quanto Veronika tem de “mãe”, e a decadência do relacionamento dos três é intrínseca à dificuldade de Alexander ter empatia e entender as pessoas com quem se relaciona como indivíduos.

Em certo nível, Eustache também pavimentou o esvaziamento existencial e formal que ocorreria entre os anos sessenta e oitenta, onde a classe artística não era tanto mais uma classe quanto indivíduos que tateavam em busca de rumo. Os coletivos com missões sociais e humanistas bem definidas foram decantados na maré de experimentação particular de obsessões, com a indústria perdendo os nortes de vanguarda e a sectarização em ciclos muito particulares.

Claro, é superestimação dizer que um filme mudou todo o panorama; é mais realista dizer que o espírito sensível de Eustache anteviu a dissolução de noções como coletivos cinematográficos e políticas de autores. Dificilmente se viu cinema tão inflamado como da nouvelle vague, do qual A Mãe e a Puta se ergue como um filme de escombros, como brasa letárgica que queima por um longo período, retrato de almas cheias de vida mas sem nenhum rumo a seguir. 

Em seu monumento, Jean Eustache pregou a tampa do caixão de uma revolução com o mais doído e exposto dos filmes, onde refletiu a liberdade, seus sacrifícios e suas mentiras. Epítome do autor, fez um filme mais pessoal e limítrofe que qualquer outro - o filme mais pessoal e intransferível entre uma legião de obras singulares. Não havia outro A Mãe e a Puta antes e também nunca houve depois. Uma obra única na história da sétima arte, que a encerra e a liberta de uma só vez.

Comentários (4)

Caio Lucas Martins Matos | terça-feira, 22 de Maio de 2018 - 02:08 | Responder

Isso não está claro: "Em certo nível, Eustache também pavimentou o esvaziamento existencial e formal que ocorreria entre os anos sessenta e oitenta, onde a classe artística não era tanto mais uma classe quanto indivíduos que tateavam em busca de rumo. Os coletivos com missões sociais e humanistas bem definidas foram decantados na maré de experimentação particular de obsessões, com a indústria perdendo os nortes de vanguarda e a sectarização em ciclos muito particulares.”

Caio Lucas Martins Matos | terça-feira, 22 de Maio de 2018 - 03:10 | Responder

No mais, a resenha parece partir de um conceito que você atrelou e inflou junto ao filme, não verifico, no processo de imaginação/criação do autor, passeio tão extensivo pelo evento histórico narrado... Poderia pelo menos ter fundamentado melhor como estas ideias estão organizadas e estruturadas NO filme, na sua engrenagem, como e quando aparecem refletindo o "espírito pós-68"... Colocar que as ações são pautadas por tais acontecimentos neste caso parece meio forçado, esvaindo a verdadeira condição espiritual dos personagens – que vai bem além dos mencionados conservadorismo, egocentrismo, imoralismo ou qualquer outra ponte aí. Se não foi a intenção, é o que está no texto tornando A Mãe e a Puta menor.

Bernardo D.I. Brum | terça-feira, 22 de Maio de 2018 - 16:08 | Responder

Esse parágrafo é uma observação histórica sobre como a consciência política de 68 transformou-se ao longo do tempo. Pode não ter sido proposital de Eustache, mas o filme já reflete como pós-68 ser autor tornou-se mais radicalmente pessoal que uma missão política, como Godard ambicionava, por exemplo. O início do parágrafo seguinte é mais sucinto nesse sentido.

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