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Maradona

(Maradona by Kusturica, 2008)
6,3
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

DIEGO ARMANDO MARADONA

10,0

O filme é razoável. Mas o personagem é sensacional. E este meu texto não é uma crítica ao filme. É uma ode a um gênio. Uso aqui do cinema como mera muleta para dissertar sobre o monstro DIEGO ARMANDO MARADONA. Sobre seu futebol, sobre sua personagem fenomenal. Sua política de esquerda com a qual coaduno bastante. Sim, sou daqueles que primam por um esquerdismo clássico mesmo. Que quando chamam de anacronismo, eu pergunto de volta onde está a mentira. Como o mestre faria. MARADONA. MARADONA. MARADONA.

Parte da mitificação do MARADONA por Emir Kusturica é feita (ou tentada) através das possibilidades conjecturais que seu cinema seria proporcionado pelo personagem gênio do EL DIEGO. Invenção do diretor para encaixar melhor o filme, metendo excertos de filmes outros seus na narrativa como uma tentativa de encaixe mesmo como se o personagem MARADONA fosse etéreo e presente em tudo, porém ficou na intenção. Virou uma aleatoriedade na verdade. Fora esta marmota, temos um material que visa a demonstrar facetas da personalidade do mestre através de discursos políticos e alguns causos de sua trajetória como jogador. A intenção de Kusturica não é primar por imagem ou narrativa mais bem acabada, mas sim estudar a mitificação do gênio. Como sua aura penetra e se permite ecoar na eternidade. Com um personagem como MARADONA, pode-se não conseguir decifrar totalmente o personagem por conta das escolhas de direção na obra, mas, com um personagem deste tamanho nas telas, é impossível não ser agraciado com excelentes momentos. Por mais que os cineminhas chatinhos encham o saco, o que interessa aqui não é nem o processo de cinema e nem o resultado do mesmo, mas, sim, o personagem.

Agito. Música. Putaria. MARADONA. Igreja maradoniana. O cara era 8 ou 80. Posicionamento político radical, frontal. Decidido. Sem subterfúgios. MARADONA teima na temática clássica da esquerda radical que consiste no acusacionismo sobre os EUA como uma nação imperialista escrota pra caralho. O que parecem ser frases soltas não aprofundadas pela narrativa escolhida por Kusturica mostram que o personagem não tem conversa mole e tem um posicionamento longe da docilização padronizada escolhida pelos jogadores modernos e era um padrão de fuga de alguns mais antigos. E, sobre a questão política, EL DIEGO estava errado? Criou-se uma lombra academicista liberal em querer alisar a narrativa ianque como se a crítica severa ao imperialismo fosse simplesmente uma falácia. Não é. Nesta conversa mole eu não caio. MARADONA assumia o caráter de esquerda abertamente apoiando ídolos que a própria esquerda cirandeira decidiu desabraçar nos últimos por vergonha burra. Por isso é tão simbólico o exagero do MARADONA agarrando com gosto personalidades como Che Guevara e Fidel Castro. Com gosto, porra. Uma esquerda clássica, grosseira. Deliciosa.

O jogo contra a Inglaterra e a política da Guerra das Malvinas é uma prova do EL DIEZ dentro do jogo político. A simbologia do gol de mão foi "como roubar a carteira de um inglês”, diz MARADONA. Qual então a do gol mais sensacional visto nas Copas e no mesmo jogo? O conflito das Malvinas (ocorrido entre Argentina e Reino Unido em 1982) foi usado como válvula de escape da junta militar direitosa que dominava a Argentina ditatorialmente e perdia o controle econômico do país; porém, há de se salientar, SALIENTAR, o tesão histórico dos ingleses pela colonização ultramarina em territórios além dos domínios continentais seus. E esta merda ainda rolava bem no século 20, com duas guerras mundiais ocorrendo por conta desta fuleiragem e tantos territórios na Ásia e África sob jugo europeu. Portanto não aliso os ingleses. E criou-se uma mística por conta do jogo na Copa de 1986 com o MARADONA estraçalhando um jogo que tinha um poder político alto; independentemente de que lado qualquer um esteja na torcida política, a cancha cheirava a grama e a pólvora velha. Melhor para os argentinos. Até quando o MARADONA não tinha envolvimento prévio direto nas questões, a política o perseguia. Imbecil aquele que faz questão de desvencilhar o futebol da política. Isto, sim, é tesão da direita. O PELUSA. Figura de coração revolucionário, como afirma Kusturica. O conservadorismo reaça não curte. Que se lasquem. “Não é muito o meu jeito agradar a todos.” Diz o ARMANDO da massa.

MARADONA e a política. Discurso severo sobre desigualdade social e o fato dele não querer ser político por ter um posicionamento contra roubalheira, uma generalização grosseira e polêmica que encaixa na coerência de sua personalidade e não deixa de funcionar como uma hipérbole quando olhamos para sua história. Claro que ele perfila seu discurso através de ídolos históricos da esquerda que os toma também como seus literalmente na pele, já que é sabido que os tatuara. Che Guevara e Fidel Castro. Estes são os ídolos de MARADONA, revolucionários latinos que lutaram na base da porrada por liberdade em seus países contra o capitalismo. Claro que os conservadores torcem o nariz e apontam os excessos destas figuras em seus processos revolucionários. Mas DIEGUITO cita até o tal do bloqueio continental pelo qual a pequena ilha de Cuba passa. Aliás, os conservadores, liberais e reaças em geral são chatos pra caralho e demagogos até o talo outros tantos também o são. Os primeiros a reclamarem que o MARADONA cheirava pó, mas participam de curtições regadas a drogas. Ou só quem critica o BARRILETE CÓSMICO na questão dos entorpecentes são os puristas? Que se lasquem também. O fato do usar ou não estas merdas, não diminui porra nenhuma o tamanho do seu impacto, esportivo, cultural, social e político.

Os algozes políticos de MARADONA são vários. Ao contrário do que fomos condicionados a pensar no Brasil por muitos anos de desinformação, o MARADONA tem somente uma discordância política com o nosso Pelé. Não passa disso. Os algozes mesmo do ARMANDO eram figuras de poder tais quais Joseph Blatter e João Havelange – dois ex-presidentes da FIFA e envolvidos em altos escalões de pura maracutaia na entidade – e figuras políticas de alta elite como o songamonga do príncipe Charles e George W. Bush, este com bastante destaque tanto por ser o presidente estadunidense em voga à época da fita e assim ser alvo de debates, onde o EL DIEGO conclama que “Bush é um assassino e que não pode decidir por todos.” Anacrônico o discurso? Não existe imperialismo? E somente luta por liberdade à fórceps contra o alcunhado terrorismo?  Sem falar no falecido pilantra e ex-presidente da Federação argentina de futebol (AFA Julio Grondona, que MARADONA acusou de corrupto também. Todos bem alcunhados e esculachados por MARADONA. Um posicionamento raro por esportistas, talvez visto com veemência na figura do também genial e irascível boxeador Muhammad Ali. A raridade de posicionamentos públicos radicais chama muita atenção, e o MARADONA sabia disso e usava bem este esquema em seu favor. Por isto ele era único. Uni a performance de gênio em campo com o tom completamente independente fora dele, batendo em instituições poderosas sem medo de represálias. E se colocando como figura não só popular, mas como ídolo pelo povo. Sem esquecer da velha luta de classes. A esquerda o adora, claro.

MARADONA conta sua história de dificuldades na infância com seriedade e sem a nostalgia sensacionalista que poderia ser impressa, mas com orgulho de sua família. Porém, rápida e superficialmente, Kusturica aponta a idealização de D10S' para com a sua origem. Já que o mesmo passara quinze anos sem pisar por lá e o diretor fabula a ideia de que isto ocorre pela questão de memória afetiva que EL PIBE DE ORO queria manter de seus tenros anos. A citação é para uma reflexão, já que o próprio DIEGO jamais negou as origens e sempre buscou lutar por sua classe social antiga.

Cocaína. “Porque põem a culpa nos colombianos que produzem se são os americanos que consomem?” Afirma MARADONA que era contumaz usuário, mas entendia sua culpa na sua micro história familiar cheia de problemas por conta disso e de seu papel ao se dopar, mas apontava o problema da questão macro. Que é bem interessante quando a nação norte-americana é conhecida por também ser a maior cheiradora de pó do planeta. O filme é meio que um apanhando de gaiatice, endeusamento e polêmicas vomitadas. Sobre as drogas o cara não foge. Assume inclusive que a pior faceta disto foi perder o crescimento de suas filhas, já que se mantinha entorpecido. Ele não se exime de culpa em momento algum. Fala de si de acertos e falhas. Sem fugas. E deixa clara a importância de sua esposa e salvadora Claudia que suportou suas esculhambações e o salvou um par de vezes. No meio disso ele passa a cantar num bar uma música que é uma ode a ele, onde somos contemplados por flashbacks de vários momentos de sua trajetória profissional e pessoal, desde os gols fantásticos às prisões, e até ao antidoping de 1994, passando pela infância das filhas e o escambau. Vários momentos geniais intercalados com bonecagens diversas.

O filme desconjunta-se em sequências escrotas para manter o tom de épico dos feitos de MARADONA que entre várias temos uma bem curiosa que mistura a essência do argentino em MARADONA através dos tangos e cabarés. Com direito a uma dança de duas mulheres seminuas num processo de strip-tease com os gols de MARADONA rolando na tv, como sendo algo a dividir as atenções entre futebol e mulheres. O macharal ia querer perambular este local. Esta doideira tem a serventia para apontar que o mítico figura está presente e enraizado em todos os ambientes. Dramático e maravilhoso tal qual o tango argentino e esculhambado e visceral tal qual um cabaré. Isto é o DIEGUITO. Chegamos ao ponto de uma set piece visual confusa de MARADONA em algum evento não explicitado que permite-nos uma percepção de seu tamanho como mito. Ele perambula pelas ruas enquanto é absolutamente caçado por milhares de frenéticos que querem um mínimo de atenção de seu ídolo máximo. Ele causa este efeito. Isto não é somente bola na rede. É como se põe a bola na rede e sob que circunstâncias se faz isto, da maneira mais épica possível e tudo seguido por um extra campo carismático e personalista que cativa pra cacete, menos aos chatos, claro. De novo. Que se lasquem.

A volta de Deus e a recepção dele no Boca Juniors após o lance das drogas. A forma como o MARADONA consegui ser ídolo por onde quer que passasse existia independentemente daquilo que vencera ou não nestes clubes. Claro que os títulos conseguidos de maneiras absolutamente épicas – tais quais àqueles conseguidos pela seleção argentina e pelo Napoli – só aumentam sua aura endeusada, mas seu carisma e personalidade magnetizavam torcedores por onde passava. E obviamente seu futebol absurdo, mesmo em fases como a conturbada no Barcelona, onde colecionou desgraças, mas ainda assim deixaria sua marca em campo em algumas partidas memoráveis. Assim era o ARMANDO.

E no Napoli? Ao escolher o escrete napolitano, MARADONA comete um grande acerto em sua carreira. Aquele era um time que proporcionar-lhe-ia o caráter épico que ele precisara para decolar de vez sua carreira. Com direito a sobrepujar grandes times tais quais Juventus de Turim e Milan e Inter, ambos de Milão, que eram conhecidos por tamanho e gigantismo na Itália. E como não poderia faltar o tom político, a Itália mantinha uma divisão social e econômica entre norte e sul que gerava conflitos na intenção de sempre diminuir o sul, que era mais pobre. O craque mesmo afirma que um time do sul vencer era considerado impossível, e mesmo assim o genial MARADONA levara o pequeno Napoli não somente a títulos, mas a possibilidade de expiação de excluídos. Tanto que isto reverberara na copa de 1990 na própria Itália, onde uma das semifinais da copa seria entre os anfitriões e argentinos liderados por MARADONA e na cidade de Nápoles, no estádio de seu time. Se isto não é épico, eu não sei o que é. O caráter mítico dele era tão poderoso que fizera vários napolitanos torcerem para a argentina contra seu próprio país, num somatório de conflito político entre norte e sul já histórico com o amor que tinham por MARADONA. E deu MARADONA. Por momentos assim que o cara é considerado o maior de todos por milhões. O que ele fizera para o esporte bretão é absolutamente único. Sabendo disso ele mantém o discurso no filme (ainda é um texto que cita aqui e ali o filme em questão, só cito).

E 1986? A copa chamada de um homem só tem seu momento mais épico (o gol do pé de anjo passando por meio time) repetido sub-repticiamente ao som de narrações e, principalmente, pela música God save the queen, do Sex Pistols. Aqui numa provocação onde animações dos tais algozes são ridicularizadas eternamente por este gol. Uma opção nada original e até infantil do Kusturica, mas que enche o saco propositalmente. Porém nunca cansa ver aquele momento único do futebol. Representa não só um campeonato, mas uma mitificação majestosa dum ídolo explodindo.

Não poderia faltar a citação de doping em 1994. Este é talvez seu último momento gigante no futebol, que envolve polêmicas, política, suposta maracutaia, drogas e futebol. Onde o argentino conseguiu chegar muito bem na copa credenciando a Argentina entre os melhores e com uma constelação de craques ao contrário do que teria acontecido antes, mas MARADONA fora pego no doping. Algo que ele nega até hoje e afirma que tudo isto teria acontecido por conta de seu posicionamento severo contra a FIFA e seus desmandos e corrupções. Algo que se provaria cabalmente adiante. Assim a carreira dele teria seu ápice final. Épico do jeito errado. Mas não menos inesquecível.

O sorriso, as piadas ácidas, a ironia, a alegria contagiante, o espírito indomável e crítico. Foi uma crítica de cinema estre troço? Não mesmo. O texto está solto, com parágrafos diversos, separados por alguns temas que o filme aborda e com outros tantos que eu mesmo quis abordar. Um misto de sensação de descontrole que o filme passa (rima com a doideira do personagem principal) com a urgência de meter este texto aqui escrito numa madrugada após várias reflexões sobre este genial jogador. E vai ficar assim mesmo já que a vida é inconstante e cheia de reverberações difusas e que no fim das contas o que interessa é a mensagem. Sou bem maroto. Aqui tem cinema, tem paixão, tem documentário, e tem MARADONA. As vezes, somente isto é necessário. Eu sou passional mesmo, apaixonado, quero nem saber. A mitificação de um monstro é medida pelo tamanho épico de suas vitórias. Que são conseguidas com a mais pura genialidade. A perna esquerda incansável de MARADONA encantava na mesma proporção que assustava. Dos dribles absurdamente espetaculares às finalizações decisivas, este mestre escreveu seu nome no futebol. Este cara foi um extremo do futebol e se mantém assim fora dele. Sem meias medidas. Exagerado. Absoluto. Irascível. Original. Incontrolável. Genial. Ao fim, a jornada absurda deste monstro é nada menos que cinematográfica. Por isso se encaixa. Cinema. Futebol. Política. Comunismo. Grosseria. EUA escroto com Bushs e Reagans. Inglaterra e Thatcher. Argentina. Cuba. Bolívia. Colômbia. Venezuela. Evo Morales. Che Guevara. Simon Bolívar. Fidel Castro. Hugo Chávez. DIEGO ARMANDO MARADONA.  

Sobre a igreja maradoniana, deixo somente a sua versão do Pai Nosso, que talvez os cristãos mais ortodoxos não curtam a apropriação.

Diego nosso, que estás nos campos
Santificada seja sua esquerda
Venha aos nossos olhos a tua magia
E faça-nos recordar os seus gols
Assim na terra como no céu
Dai-nos hoje uma alegria neste dia
E perdoa aqueles jornalistas
Assim como nós perdoamos a máfia napolitana
E não nos deixes cair em tentação
E livrai-nos de João Havelange

Um ator da vida, como ele mesmo afirma. O texto dele é a vida, ele diz. E na rua, aos olhos de alguns, o Manu Chao toca e canta "La Vida Tombola", música em homenagem ao DIEGO ARMANDO MARADONA, onde o próprio o fita com orgulho e emoção.

Se eu fosse Maradona
Viveria como ele

Com toda certeza.

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