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Marighella

(Marighella, 2018)
5,6
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26 votos
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Críticas

Cineplayers

Os Comunistas, os Comunistas!

8,0

"O mulato baiano, mini e manual
Do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas
Depois por Magalhães, por fim, pelos milicos
Sempre foi perseguido nas minúcias das pistas
Como são os comunistas?"

Como são os comunistas? Pergunta colocada por Caetano Veloso na canção “Um Comunista” – sobre o próprio Carlos Marighela – podia abrir qualquer domingo de reportagem especial no “Fantástico”, com trilha sonora assustadora e tom dramático. Sim, por mais informações que existam, ainda há uma insistência boboca (e calculista) em transformar uma escolha política num circo de atrações bizarras, facilmente aplaudido pelo público.

O cinema brasileiro do pós-ditadura, muitas vezes, tratou de desmitificar essa (s) máscara (s), trazendo um senso de humanidade aos monstros. Os exemplos são inúmeros, desde o aclamado O que é isso, companheiro? (1997), depois em O Ano que meus pais saíram de Férias (2006), ou mesmo no mais recente, Deslembro (2018), vemos a construção de relatos ficcionais que demonstram que a clandestinidade não era uma opção, mas sim uma imposição, e além disso, colocam a perseguição aos clandestinos no lugar onde deve estar: a total estupidez.

Marighela (2018) entra nesse bonde temático de cabeça. Biografar em imagens o inimigo numero 1 dos militares apresenta-se como uma dinamite acendida no momento político trágico que vive o Brasil. Como qualquer filme desse gênero, pretende retratar o período histórico ao qual está inserido – nesse caso, mais do que a maiorias dos filmes biográficos que você possa lembrar – e fala diretamente sobre o presente, ou melhor, grita.

Esta escolha arriscada significa não optar por uma verossimilhança total com a vida do biografado: o corte temporal e narrativo escolhido (adpatação ao livro de Mario Magalhães) deixa para trás o seu passado como político institucional, a relação mais profunda com Clara Charf, as viagens à Cuba, ou processo de escritura do “Manual do Guerrilheiro Urbano”. Wagner Moura deixa claro que não quer documentar, isso deixa para Silvio Tendler ou para Isa Ferreira; o realizador baiano escolhe um lado, o lado da dimensão ficcional.

O dendê da moqueca das experiências de Moura é olhar essa figura histórica, envolta de polêmicas, colocando-a especificamente sobre duas camadas de interesse entre as várias possíveis do camaleônico poeta, orador, amante de carnaval e futebol, que é o biografado. A primeira e mais famosa: guerrilheiro urbano; a segunda, e que assina o olhar do cineasta sobre a vida do homem Carlos Marighela: pai de um menino, separado dele por motivos de segurança. A dupla função social dá o ritmo da narrativa, do começo ao fim.

É certo que essa escolha proporciona um filme excessivamente longo, sem fazê-lo mais complexo, ou apresentar um corte histórico que vá além do seu período clandestino mais pesado. O relato centra-se em demonstrar o quão bárbara, assassina e burra era essa perseguição obsessiva aos comunistas travestida de patriótica, patrocinada pelos Estados Unidos – em especial a um pai de família nordestino.

Diferente do que a crítica idiota e os seguidos boicotes sem sentido apontam, o filme não constrói a imagem de um santo. Marighella optou pela luta armada, era um revolucionário que via na guerrilha urbana a solução única para desarmar a opressão aos marginalizados e lutar contra a ditadura. Se isso é correto ou não, a obra não pretende a esse texto resolver, mas o que é certo é: não há romantizações sobre essa escolha, o destino é a tortura e a morte.

O filme é político? Sim! Mas quem imaginou que um filme sobre o Marighela não fosse é no mínimo inocente. Não há demérito nisso, muito pelo contrário, vide Costa-Gravas, ou ainda mais explosivo Gilo Pontecorvo. Num país que ainda acredita e compartilha esquizofrenices como “mamadeira de piroca”, as escolhas de Moura, num primeiro filme, ainda que debatíveis narrativamente, são necessárias, desde explicar didaticamente que por trás de um comunista há um homem, até colocar na capa do filme de um dos atores queridinhos do país – O Capitão Nascimento da Nação – o rosto de um homem negro, e que homem, senhoras e senhores!

Confesso que umas maiores curiosidades deste que os escreve com o Wagner Moura como diretor, já que este já circulou em tantos e variados ambientes audiovisuais, era como construiria esteticamente o seu relato. E sim, vemos o cara do teatro baiano quando potencializa seus atores, o Moura das telenovelas, quando escolhe o Bruno Gagliasso (em excelente forma!) como um de seus principais personagens, O Capitão Nascimento ao usar a voz off como um de seus principais recursos, e finalmente um Moura experimentado e cinéfilo, fã dos longos planos sequência virtuosos de Olivier Assayas, seu parceiro em Wasp Network: Rede de Espiões (Wasp Network, 2020), essencialmente no inspiradíssimo ato de abertura num assalto ao trem (ponto alto da obra, cinematograficamente).

Se o filme inicial de uma das carreiras mais exitosas do nosso cinema perde-se em narratividade, também pelo desejo de estilhaçar o finíssimo e sujo vidro do desgoverno brasileiro atual com um símbolo de resistência que jamais deve ser esquecido, é de lastimar por um lado, por outro devemos aplaudir a sua notória competência de poder alcançar esse lugar e optar por não se acovardar.

Viva a Bahia! Viva Marighella! Viva o cinema brasileiro!

- filme visto em Lisboa, Portugal

Comentários (11)

Igor Guimarães Vasconcellos | sábado, 29 de Maio de 2021 - 09:14

Eu fiz diversas críticas ao filme, algumas inclusive citadas aqui.
Resumidamente, penso que Moura ficou muito focado em bater no Bolsonaro, isso desequilibrou o filme.

Não acho que humanizar seja santificar, isso é Dois filhos de Francisco, e cia. Mas são opiniões.
O que acho "poesia" é determinar um critério ao filme estabelecido por um preconceito.
Boicotar esse filme não tem sentido algum.

Caio Jr. | sábado, 29 de Maio de 2021 - 11:59

Apesar de eu achar o boicote ao filme algo estúpido e pusilânime, o boicote ainda é algo democrático quando não agressivo( e eu não acha nada pacífico invadir o IMDB pra dar nota em filme que não viu, é só idiotice de desocupado). O pior é a censura, mascarada por burocracia, basta ver todos os que passaram no Ministério da Cultura no atual governo, hoje a gente tem um ex-malhação fracassado pagando de jagunço, e fracassado e ressentido é o adjetivo mínimo que se pode dar a estes que surfam no bolsonarismo. Acho que Marighella, sendo terrorista para alguns ou revolucionário para outros, deve ter um papel na História, com este papel na historia é natural que venha uma biografia/cinebiografia que deve ser analisada sem ódio fora sdo contexto, e quem acha que a história é formada por santos, de Historia não entende nada. Novelas com D. Pedro I galã são mentirosas em relação a um déspota, ou filho dele como um iluminado governado por um parlamentarismo escravocata ninguem fala...

Caio Jr. | sábado, 29 de Maio de 2021 - 12:05

Quanto a minha preferencia ao livro do Magalhães, ele tem uma qualidade literária de compreender o biografado de maneira mais clara. Alguém aqui é a favor do Estado Novo getulista ou de Hitler?Espero que não. Mas as biografias escritas pelo Getúlio por Lira Neto, ou de Hitler por Kershaw, se juntam ao livro do Magalhães como livros qe retratam o desenvolvimento psicológico e biográfico do personagem com uma narrativa próxima à ficcional, mas com bases em fontes explicitadas. Claro que não comparo Marighella com nenhum dos citados acima, mas livros de biografia que levam ao entendimento do porque o fulano se tornou um revolucionário ou um fascista pegando desde a infância, são grandes méritos da lietratura biográfica brasileira nos ultimos anos.Como eu disse eu não sou comunista e não me alicio com o tipo de resistência armada que procura a revolução comunista através de bombardeios. Mas se me perguntam se Marighella merece seu lugar na história eu respondo SIM!

Caio Jr. | sábado, 29 de Maio de 2021 - 12:10

...porque Getulio tem e ele não? Porque os presidentes do Regime Militar tem e ele não? Porque D. Pedro I e D. Pedro II tem e ele não?Deodoro?Floriano?Hermes da Fonseca?Arthur Bernardes?PLínio Salgado?
Todos estas pessoam defenderam em algum momento o pior lado da humanidade, ou fizeram um desgoverno trágico, mas ficaram nos livros de História mesmo assim.
Marighella faz sim parte do "Quem é Quem?" no Brasil e merece pelo menos um lugar dentro do contexto da evolução da nossa nação. Entretanto o preconceito como qualquer preconceito, não vem de uma análise mais sóbria como a que eu tento botar, mas sim de pessoas consumidas pela nova paranóia do comunismo(paranoia de 1930(quando desconfiaram que o plano de Getulio era comunista), de 1937(Plano Cohen, quando Getulio pensou que os comunistas judeus iriam atacar)...e em 1964.Agora com a sombra do comunismo devido às mentiras desta extrema-direita,se nega a participação de personalidades históricas por causa de uma moral inculta e ingenua.

Caio Jr. | sábado, 29 de Maio de 2021 - 12:16

Mas vale dizer Igor que respeito a sua posição e opinião, e que seu texto conseguiu se equilibrar entre sua subjetividade e a objetividade da polêmica envolta ao personagem. Minhas opiniões aqui serão construtivas, jamais atacaria ninguém da forma como eu vejo as pessoas atacando hoje em dia, elas estão sendo educadas pelo Brasil Paralelo e pelo MBL, Bolsonaro já mostrou para vários os erros, alguns ainda insistem, e ao invés de procurar o contexto histórico e os dilemas do biografado, apenas cospem a ignorância que lhes é natural. Minha opinião sobre a revolta aramda eu já explicitei, vi o filme de coração aberto mas me deparei com essa mistificação(e sim ele se perde demais na protesto contra o Bolsonaro através da biografia de uma pessoa em outro contexto, que perde o foco).Mas, e essa é a minha opinião, eu prefiro aprender mais sobre o real Marighella, do que na versão semi-ficcional idólatra. Respeito sempre! Provacação também,enquanto saudável.

Caio Jr. | sábado, 29 de Maio de 2021 - 12:20

Se alguém se ineterssar pela minha opinião, que me perdoe a pressa que gera erros ortografais...

Ted Rafael Araujo Nogueira | sábado, 29 de Maio de 2021 - 12:37

A figura de um guerrilheiro tal qual o Marighela sempre vai estar composta no campo simbólico repleta de referenciais caros como o suposto pedestal sobre ele. Lutar contra um regime ditatorial sempre será algo de vulto e orgulho pra quem quer que seja, mas isto não impede críticas. Como afirmara o Jacob Gorender no Combate nas Trevas, que o Marighella e que parte da luta armada não levou em consideração aspectos de clima, espaço e tamanho das forças armadas no país quando se inspiraram no exemplo cubano pra meter o seu louco. Independentemente disso o foco deve ser o combate a porra do regime autoritário. Isto suplanta as escolhas feitas pelo autor quando o foco é bater em quem merece. Maighella vive.

Caio Jr. | sábado, 29 de Maio de 2021 - 12:43

Mesmo quando lutar contra um regime ditatorial implica instituir outro?

Caio Jr. | sábado, 29 de Maio de 2021 - 12:48

Lembrando que o Manual do Marighella, se você achar na Internet e através de um ctrl - f procurar a palavra "alvo", tu acha predios públicos onde inocentes trabalhavam como alvo da guerrilha, enquanto os generais e aliados estavam protegidos banqueteando.

Ted Rafael Araujo Nogueira | sábado, 29 de Maio de 2021 - 12:56

Pra começar, não dá pra confundir a reação do oprimido com a violência do opressor. Já começa daí. O exemplo que você deu - não vou entrar no mérito se procede ou não - corrobora com a minha crítica acima. Que a metodologia tinha seus erros sim, na intenção de bater numa parada maior.

Ted Rafael Araujo Nogueira | sábado, 29 de Maio de 2021 - 13:00

Quanto a questão de veracidade histórica, dependendo de como as escolhas são feitas, não vejo um grande problema. Ainda mais porque o Wagner afirmara desde o começo que o filme é uma homenagem. Tem gente de esquerda mais raiz que reclamou do filme também. Que a obra não trabalha bem a importância do PCB, por exemplo. A escolha é do cara pra passar uma mensagem. Bem diferente da marmota que a Petra Costa fez na pataquada com as imagens com/sem armas no Democracia em Vertigem.

Caio Jr. | sábado, 29 de Maio de 2021 - 13:09

Procede amigo, o exemplo do Manual procede, basta lê-lo. Só pra deixar claro que eu não "opinei sem ler". O problema é que a humanização que o nosso amigo Igor falou, na imnha interpretação favoreceu mais o melodrama, do que uma visão do verdadeiro Marighella, e todos os atos e acontecimentos que moldaram sua transformação; do verdadeiro. Então entra a fabulação da formação da alma que eu façei citando o trabalho do Jo´se Murilo de Carvalho(que é meio que um clássico). Ele usa bastante a figura de Tiradentes resgatada no início da República, como inimigo do Império e com a cara de Jesus como exemplo no livro, e poderia ser feito um filme que "humanizasse" Joaquim da Silva Xavier porém com a mesma ótica messiânica imposta pela fabulação histórica convenientemente adoatada para salvar um momento histórico através do exemplo destas pessoas modificadas pela fabulação. Eu prefiro ler e ouvir sobre o real Marighella, isso é uma vontade intelectual que eu tenho. Respeitando as opiniões...

Caio Jr. | sábado, 29 de Maio de 2021 - 13:15

..pra concluir, respeitando as opiniões, não me apetece a transformação de um personagem real em um ídolo mistificado. O suposto pedestal que tu mencionou, deixa de ser uma suposição quando você diz "Marighella vive!" ou "Viava Marighella", ou seja, existe um pedestal. Nada contra, diga viva a quem você quiser, eu vejo "vivas" piores. Mas eu gosto de ser mais pé no chão e analisar o personagem histórico como ele foi. Em relação ao fato que tu mencionou que as guerrilhas eram cheias de erros e bagunçada, bom, Marighella morreu "de bobeira" para alguém que se dizia guerrilheiro e estava a qualquer momento prestes a ser assassinado. Mas eu estou falando do Marighella, não do Marighella do filme.

Caio Jr. | sábado, 29 de Maio de 2021 - 13:22

Eu espero que ao menos este tipo de discussão racional, evite aqueles que venham aqui apenas para vomitar impropérios. O paradoxal; a problemática daqueles que se dividem entre guerrilha armada ou o etapismo dentro do Comunismo; os que respeitam Marighella mais como uma figura da nossa Historia do que como essencialmente um ídolo(como é o meu caso), merecem ser discutidos com respeito e contextualização. E o filme merece as salas de cinema(pelo menos quando a pandemia passar) ou o streaming; censura é condenável, certos boicotes(como os contra este filme) são até democráticos, mas não por isso menos vergonhoso. Volto a ressaltar, respeito é educação é o que o Brasil precisa. Procurar informações antes de condenar ou idolatrar. Volto a repetir: respeito e educação vs. desrespeito; livros vs. armas; tolerância e discussão vs. intolerância. Hoje com o ódio ao Bolsonaro talvez eu sinta o sapo na garganta que Marighella sentiu em situação bem pior, por isso não julgo, só analiso e critico.

Ted Rafael Araujo Nogueira | sábado, 29 de Maio de 2021 - 21:48

Não o culpabilizei que você não leu, mas não vou confirmar de pronto o que não tenho certeza ouvindo de terceiros. Só isso. Eu citei "Marighella vive" independentemente do que o filme propõe, mas, sim pela importância histórica de combate do cara num regime autoritário. Isso não é meter o cara num pedestal, mas respaldar uma figura histórica. Tem uma grande diferença simbólica aí. Da mesma forma de se respeitar a trajetória de um Getúlio Vargas (com tudo que isto implica) é diferente de endeusa-lo. A história não é um construto imparcial que perambula pela efemeridade do contemporâneo. É uma ciência feita por seres humanos que leva em consideração tanto o rigor acadêmico quanto crenças políticas pessoais. Existe um equilíbrio aí.

Jonas Bittencourt | domingo, 30 de Maio de 2021 - 01:59

Wagner Moura devia ter aprendido com Walter Salles como fazer panfleto político em forma de filme.Diários de Motocicleta ficou um arraso provocante e belo, por mais que você despreze o biografado, é impossível não se envolver na sua trajetória e respeitar sua consistência intelectual, etc. Já esse filme é apenas uma propaganda oportunista, o que fez do filme de Salles um baita cinemão foi a forma como ele soube retratar o homem, além do personagem que fãs e detratores fizeram dele. Em Marighella, Moura não só esquece o homem, como aumenta demais o personagem, usando-o de escada para dar lições de moral baratas no público e transmitir mensagens específicas que ele julga pertinentes,que fogem quase que inteiramente da essência do próprio biografado.É só um panfletinho universitário, uma pregação pra convertidos, Moura apenas deu o que a turma dele já recebe, só disse o que eles gostam de ouvir. É mais uma forma de autoafirmação que a esquerda tem,como quando o PSOL disputa a presidência.

Igor Guimarães Vasconcellos | segunda-feira, 31 de Maio de 2021 - 05:45

Jonas, entendo o seu raciocínio e concordo em partes. Acho que você enxerga o copo meio-vazio, e eu meio cheio.
Explico: Sim, penso que em certa altura o Moura se propôs a dar respostas mais ao Bolsonaro do que ao próprio filme- como escrevi no texto- isso enfraquece a obra cinematograficamente. Por outro lado, imagino o cara trabalhando no filme, e vendo as coisas acontecerem, e viu-se obrigado a dar respostas, um pouco como Bacaru. A diferença é que Mendonça Filho é um cara mais experiente na direção, por isso pondero também que esse tenha sido o primeiro trampo do WM como realizador, e que sim há momentos interessantes, como a plano inicial, por exemplo.

Eu cresci na Bahia, e ele também, a figura do Marighella, no senso comum, tá conectada com aquela capa da Veja. É notável e justo, o desejo por humanizar essa figura- que foi construida no imaginário nacional como perigosa e monstruosa.

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