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Massacre da Serra Elétrica 2, O

(Texas Chainsaw Massacre 2, The, 1986)
5,4
Média
78 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A serra faz parte da família

9,0

Tobe Hooper volta à carga na continuação de sua fita mais famosa, porém com intenções outras. Produção da grosseira e extinta Cannon Group Inc., que era uma produtora proeminente na criação de diversas bagaceiras honestas com tudo que a década dos 80 propiciava. E teve em Hooper um dos seus principais artificies visuais. Não que os resultados de público e crítica tenham sido positivos, mas numa marota releitura são trabalhos interessantes demais. Brabos e seminais, e o principal deles é o objeto deste texto. Aqui é no alopramento absoluto, onde se apostava no barbarismo da espetacularização dos personagens e de toda a parte técnica envolvida. Isto fica claro já na escrota abertura, numa ponte interminável – uso da longa duração de cena para provocar o choque –, na qual Leatherface massacra 2 imbecis em perseguição ao som de "No one lives forever" do Oingo Boingo, expondo o caráter disparatado do que está chegando. Continuação e sarro com o gênero, sem deixar de ser uma puta fita ultraviolenta e controversa.

A direção chuta o balde ao fazer desta criação um negativo do material original, abraçando tudo o que novo período pedia do subgênero slasher. A diferença é que o comandante aplica seu estilo descomedido até as últimas consequências, se utilizando ora de metáforas sexuais absurdas ora de conflitos internos a serem externalizados com abundante bestialidade. Um cinema sem concessões, tal qual o exemplo vil do Leatherface esfregando a motosserra entre as pernas da nova final girl quando a encontra. Estes elementos tornam esta obra um passo adiante no desvario narrativo se comparada a outros parceiros do subgênero que possuem uma dose a mais de rivotril. Narrativa agressiva e lisérgica com a intenção de divertir, chocar e nausear. Um cinema considerado inferior para muitos detratores por conta do que se propõe no excessivo. Hooper toca o foda-se e aposta fartamente no abuso daquilo que já estava em voga no período. Brutaliza o todo com muita vontade e tesão.

A câmera muito viva, aumenta a inconsequência horrorífica casando perfeitamente com a proposta. Zooms absortamente repetitivos indo e voltando nos mesmos planos, em várias partes da fita, como um esquizofrênico inquieto movendo seu dorso pra frente e pra trás pelo operativo que a sua própria piração enseja. A ideia é esta, um ensaio visual e sonoro sobre demência – sem julgar ou acusar – nas ações e no que elas carregam. O zoom da radialista e seu espanto na chegada da família Sawyer na rádio é exemplo do que o longa quer ser, homenageando tiques do primeiro filme, tal qual o arregalar de olhos e o desespero completo na base da incessante gritaria. Desmantelo máximo com suas personagens sempre em histeria afetada. Tanto que transformaram de vez a motosserra em instrumento fálico do Leatherface, que, com sua inabilidade social, usa esse instrumento como brinquedo sexual. Sobre estas armas é bom salientar a escolha certeira e oportunista em ter o Dennis Hopper como vingador nessa bagaceira. A cena que ele compra as motosserras e parte com destino a disputa com o Leatherface é foda. A luta em si é genial. Um duelo de motosserras numa caverna de canibais. Não tem como ficar ruim. Grandes animais escrotos com suas serras barulhosas. Ápice da porralouquice. O vingador parte rumo ao seu destino munido da arma de seu algoz, uma espécie de duelo de cavaleiros medievais doentes no inferno. Aliás, aquele local é infernal. Numa escolha brilhante, a mudança da casa de família do interior isolado para um parque de diversões. Nada mais justo duma coisa já que abraçou a estética do exagero.

Seus personagens são desajustados que se encontram num lugar por vezes lúdico, mas sempre tido como característico do medo comum na madrugada do abandono. As cores escolhidas dão o tom psicótico. Se aquilo é um manicômio cinematográfico, tem de ser altamente colorido, nauseabundamente vibrante. Espalhafatoso com uma direção de arte em excelência. Algo já característico do cineasta e caro ao horror. Esta é personagem vivo mediante toda sua gama de detalhes e em como o diretor a trata na relação com outros personagens. Figuras que lidam com o cenário e são, não somente perambulares a ele, mas, de fato, vinculados. Paredes, pisos, tetos e apetrechos como coisas doentias que estão ali querendo continuar existindo. Corroborando com o serviço temos os excepcionais efeitos de maquiagem do Tom Savini, que amplificam o horror tenazmente, completando a atmosfera sórdida da fita. Tornando físico e nojoso o destroço pensado por Hooper.

Esse Hooper assumiu o risco e fez uma obra em contraste com o anterior, algo que causou asco de críticos e público que esperavam um material de continuação e clima do material de 1974. Algo usual quando se quer emular um clássico ainda quente nos debates devido ao tamanho de suas influências vigentes. O que acontecera foi seu negativo escrachado. Merece respeito por isso. A intenção geral duma sequência é repetir o sucesso, e o caminho óbvio é abraçar o que funcionou e não buscar inovar abusivamente, que foi exatamente o que a direção fez. Pegar carona no bonde da doidiça e executar algo ainda mais alucinógeno e degradante. Somos a radialista final girl, estarrecida com a violência que passa pelo processo de piração num universo na qual fora jogada na marra, tanto como musa quanto como isca. Sendo usada, massacrada, amada, avacalhada, para ao fim se agarrar de vez a uma motosserra. Filmão.

Parte do especial Tobe Hooper: A maldição grotesca do excessos

Comentários (1)

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