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Massacre da Serra Elétrica, O

(Texas Chain Saw Massacre, The, 1974)
7,4
Média
374 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Uma podreira suja e organizada

10,0

Tobe Hooper escolhe o tom semidocumental, num acachapante crescimento narrativo de insanidade, para emular uma realidade visual que nos é mais próxima. E é aí que mora o horror. Que está à espreita sem subterfúgios, proveniente de qualquer lugar, criado por qualquer figura. Isso num manejo esperto/genial do Hooper no drible do orçamento mínimo disponível, além de impor uma estética e narrativa longe dum terror sobrenatural e seus vícios. Sobre o que ele inventou, e para se sacar as consequências da obra, o próprio desenrolou a fita com poucos takes por conta da falta de grana, o que o obrigava a invocar um puta planejamento das imagens, onde não se gastasse película. Muita luz natural é usada, sempre pensando em economizar os já escassos recursos, o que entra em contato com o que é proposto desde o início do projeto. Estas eram as condições daquilo que se tornaria um dos maiores clássicos do horror.

Fotografia, som e os caralhos. Há um excesso de planos em contra-plongées que indica uma deturpação mental da galera através da distorção das imagens, algo construído através do tempo na fita. O interessante dessa escolha é ela ser usada para todos, vilões e vítimas, mostrando – não somente as transformações dalguns personagens –, mas, sim, a piração na qual estão inseridos, sob a intenção de causar conflito ou desconforto. Na primeira opção temos Pam (Teri McMinn), vítima que parte em direção à casa Sawyer numa câmera baixa seguindo a moça num contra, que se inicia ao chão duma cadeira de balanço de jardim. A ida de encontro ao macabro desconhecido numa casa comum. Nesse plano, conforme a câmera se movimenta, a casa vai crescendo e a moça diminuindo. O horror crescendo. Hooper manja. O desconforto também pode ser exemplificado nos zooms decididos nas faces exageradas. Tudo escancarando o terror. Como dentro da Kombi no diálogo entre as futuras vítimas e o caronista maluco que se esfaqueia. Sem escape, em tom direto e canalha, pegando as faces dos jovens aterrorizados diante do abismo de diferenças quando se infiltram no terror do interior norte-americano. O uso das cores está em conluio criminoso na questão imagética. As cores quentes num calor absurdo, onde o suor age como elemento de tensão e agonia. Quando finalmente anoitece – falo dum filme horrorífico que mais da metade de sua trama ocorre às claras – a câmera na mão perambula na casa, nos trazendo uma árdua demência em tela abusivamente granulada. Ela age como um espectador sentado vendo aquela putaria esperando o próximo passo num misto de asco e curiosidade mórbida. Segue a turma de forma onisciente e assustada. Nervosa e movimentada, porém dentro dos limites de visibilidade verossímil e com uma puta sensorialidade. Sem excessos de cortes e nem tremedeiras. Aqui tudo é mostrado. Outro ponto de inferência de contraste é a entrada dos tons frios na escuridão, obscurecendo o ambiente para perseguições noturnas, invocando o que seria considerado um elemento mais tradicional do horror, mas aqui com um estilo próprio definido pela montagem econômica e pelo som ensurdecedor da porra da motosserra. Outro ponto chave de tensionamento. O famigerado jantar. Entre outros artifícios, Hooper se utiliza dos planos ultra fechados, captando a exasperação em Sally (Marilyn Burns) progressivamente até pegar somente seu grande olho verde arregalado. Uma proposta sensorial, que é algo absolutamente sagaz ao horror. Usa bem demais do que a imagem pode proporcionar do medo. Do tom semidocumental em seu nascedouro aos usos e abusos de cores e planos.

Leatherface. A rigidez dos seus ataques. Sem trilha, só vídeo e sons secos. Como animais abatidos num açougue. São carne. E como tal, são assim tratados. O horror cru com sonoridade acachapante incômoda. Filme sujo. Leatherface e a serra. O nascimento dum mito. A representação do terror humano absoluto. Possível dentro duma família americana ao avesso. Sai a alegria e prosperidade dos anos 50, alimentada por bonanças e discursos apaziguadores, e entra a sujeira abandonada da era Vietnã/pós-Vietnã. Como um esgoto atravessando o asfalto. Mostrando a podridão. Desequilíbrio e loucura dum país que vende a violência como algo a ser perseguido em uma suposta busca pela paz. O fim da era hippie, do amor livre e do uso de drogas avulsas por causas sérias, mas com desdobramentos etéreos, que são trocadas pela selvageria dos rednecks miseráveis. Sai o caipira legal e entra o psicopata canibal, numa visão pessimista do que havia de pior nos EUA. Tudo isso embalsamado no abandono econômico, onde, como um microcosmo viral, se explicita que havia um açougue na cidade e que o mesmo a movimentava, agora não mais existe. Com seu fim, há o abandono da região. O que abre portas pra todo tipo de esculhambação com os doentes que residem pela localidade.

Este gênero motiva críticas de costumes e políticas. O Massacre da Serra Elétrica fora um dos seus exemplos mais proeminentes, sendo um puta material doentio que incitara o início do subgênero Slasher, que viria a tomar conta da cena nos anos 80. Tudo isso viria do descontentamento social por sobre vários conflitos inúteis daquela década, principalmente a já citada guerra do Vietnã. A entrada desse terror mais visceral, e visível ao olho nu, com traumas conhecidos e figuras possíveis viera de encaixe exato mediante a insatisfação social. E nada melhor que a biltre violência servindo como um machado nos córneos da galera. Mensagem mais direta impossível. Tobe Hooper. Filme escrotíssimo.

Parte do especial Tobe Hooper: A maldição grotesca do excessos

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