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Memórias de um Assassino

(Salinui Chueok, 2003)
8,3
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Críticas

Cineplayers

Lágrimas na chuva

8,0

A construção dramática de um filme passa, dentre outros elementos, por personagens bem delineados e aprofundados em nível tal que possamos nós, espectadores, comprarmos as motivações e as ações dos integrantes de um universo ficcional. As obras de Joon-ho, apesar de não se apregoarem a um gênero específico, têm em comum atores performando em chave tridimensional. Os personagens possuem camadas e, ao longo das narrativas, deformam-se num bom sentido, naquela que se revela uma capacidade do diretor sul-coreano em tratar seus avatares complexos como verdadeiros seres humanos dotados de força e fraqueza. Em Memórias de um Assassino, constatamos claramente essa percepção, que se confirma com partícipes obstinados em desvelar um assassino em série. Um sádico e anônimo homem que estremece as bases de uma pequena província de um país igualmente diminuto.

Retomando o início do último parágrafo, vale acrescentar à argumentação o termo cosmologia. Entenda pela maneira como o diretor relaciona os acontecimentos de seu longa com a linguagem cinematográfica, de uma maneira bem específica. Reitero, Bong não enquadra sua abordagem em gênero único. Pelo contrário, transita, faz de seu filme um camaleão, por entre gêneros de maneira sutil. Ora ele imprime os efeitos de uma carga psicológica, constituindo um thriller, ora nutre um drama mais intimista e, por várias vezes, permanece no que há de mais sedutor em Memórias de um Assassino. A inquietação latente que, aos poucos, vai deixando seu lado adormecido para se converter em uma busca frenética.

A diferença de tom vista aqui pra o de um Zodíaco (2007), apesar da similaridade com a obra de Fincher, está justamente nessa capacidade do Bong em saltar por tons sem nunca perder de vista a preservação de uma unidade dramática bem estabelecida. Os três detetives que a linha narrativa segue têm em Park a figura, talvez, central. Seu rosto, dezenas de vezes, é enquadrado em um plano fechado, bem próximo às suas feições. Cada gota de suor que escorre pela cútis e cada micro expressão são captadas pela lente do diretor para dar amplitude ao sentimento que vai da momentânea satisfação a uma posterior angústia. Junto do protagonista, damos dois passos a frente e, simultaneamente, três para trás.

SPOILERS

Enquanto não se descobre a verdadeira identidade do serial, em meio a alarmes falsos, a sombra de obscuros sentimentos alivia a intensa luminosidade da cinematografia, carregada de close-ups, é verdade, mas também de planos em panorâmica, bem amplos, com iluminação natural. Isso é o que salta à vista, mas os pormenores também encantam. Memórias é um filme de simbolismos. Perceba, tudo o que aparece, apontando como uma bússola o rumo a ser seguido, ao final sofrerá de uma fusão poderosa. A chuva, as vítimas que sempre usam uma peça de roupa vermelha, as mortes à meia-noite, a música que toca no rádio de maneira nada coincidente, justamente no dia em que ocorrerá mais um homicídio. A figura feminina. Como esquecê-la? Todas as vítimas do caçador pervertido são mulheres. Símbolos que vão somando ao filme de Joon-ho no sentido da curiosidade e, de igual modo, na semântica que eles próprios carregam na lógica engendrada pelo meticuloso autor por trás de tudo.

O autor Bong versus o autor perverso. O primeiro manipula tanto as nossas expectativas que se permite até umas inserções de humor bastante peculiares do cinema sul-coreano. Algumas bem pontuais, por justamente servirem de sátira aos métodos detetivescos, outras um pouco disruptivas demais em relação à atmosfera pairante. O segundo consegue nos deixar incomodados e enojados. O modo como mata suas vítimas segue um padrão, e dos mais cruéis e inóspitos. Quem acaba vencendo esse duelo é Bong, com suas liberdades formais que soam até estranhas para um padrão hollywoodiano, mas que funcionam de maneira verossímil na engrenagem que ele mesmo propõe. Além das passagens jocosas ofertadas, uma exagerada manifestação corpórea dos detetives, interrogando suspeitos e testemunhas com socos, pontapés e, pasmem, voadoras. Aí vemos o autor que não estiliza seu filme na mera perfumaria estética, mas demonstra-se detentor de identidade. É um diretor-autor que faz funcionar o inusitado dentro da lógica do esperado.

Apesar de alguns momentos mais sérios serem quebrados por uma risada aqui outra ali, Bong nunca deixa seu filme desinteressante em termos de preservação do próprio cerne. O objetivo é entregar um filme investigativo, de perseguição, e nada disso é rarefeito, escasso. Temos elementos apelativos de sobra para quem aprecia o gênero. Mas, como cinema, Memórias ganha pontos por ir além e ousar na forma, na estrutura. Não é um filme pré-moldado, pré-fabricado para só encaixar peças e se entregar a uma tela. É todo cuidado, todo meticuloso, tal como seu assassino debaixo dos holofotes.

Bong arquiteta e assenta bem as bases para o clímax de sua história, quando se apropria da manipulação de expectativas da plateia. Ele, como proprietário desse sentimento de espera, entrega um final apoteótico, nos apresentando, numa das cenas finais, um dos símbolos mais fortes de seu filme hiper simbolista e conscientemente exagerado. A chuva. Debaixo dela, dois detetives e o principal suspeito. Aquele que imaginamos ser o monstro apanha, dada a valentia e a quebra de conduta por parte de um dos agentes. Um documento, vindo dos EUA, exclui a possibilidade de aquele ser realmente um suspeito. Quando o papel chega nas mãos de um colega de Park, as lágrimas emanam em gesto de erupção sentimental, puro ato involuntário. Toda a espera e toda a esperança armazenadas em sua consciência fervem, vem tudo à tona. A impotência toma conta de um homem e da própria tela, o quadro esmorece. Quando tudo parecia acabado, o choque. Frustração. A nossa é muito pequena, em palavras mais refinadas, ínfima, perto daquele homem que solta água pelos olhos e essa mesma se confunde com a que cai do céu. São lágrimas na chuva. Torna-se difícil o distinguir.

O filme salta no tempo, pulando para dezessete anos após as trágicas cenas em torno do trilho do trem e ao lado do memorável túnel onde uma inesquecível fotografia do momento fora captada por um prisma poderoso, do autor Bong, enclausurando num porta-retrato até mesmo um sentimento – ou sentimentos mil, no plural hiperbólico, algo que máquina nenhuma será capaz, nem na perspectiva futurista mais ousada. O plano é semelhante àquele que abre o filme. Uma região agrícola, belo cartão postal, volta como palco de reminiscência. Park ali, antes da fita se encerrar, pelo menos formalmente, agacha novamente, no mesmo local, olhando para a mesma vala no solo. Não há corpo sequer ali, mas uma lembrança sórdida e um sentimento de inquietude, tendo em vista a retomada de uma visão nada agradável. Uma garota, em segundo plano, interpela o nosso protagonista e, no transcorrer de um diálogo carregado de inocência, muito embora com passado tenebroso por detrás, eis que surge a pergunta derradeira. Park, na ânsia, solta um: “Você viu ele? Como ele era?”. A resposta, fatalmente, não atende as expectativas. Entretanto, Bong deixara sempre claro. Seu filme era de liberdade formal e, acima de tudo, dono de mais perguntas do que respostas.

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