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Meus Vizinhos São um Terror

(The 'burbs, 1989)
6,5
Média
128 votos
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Críticas

Cineplayers

Joe Dante e os agitos suburbanos

8,0

Reza a lenda que, após os desdobramentos da Segunda Guerra Mundial, um novo modelo de comportamento, pautado no consumismo e nos ideais de família passou a vigorar em território norte-americano. Com forte apelo, o tal do American Way of Life virou símbolo nacionalista. Passou a balizar padrões de vida, daqueles típicos dos comerciais. Logo virou argumento a arrimar roteiros claramente intencionados e inclinados para a crítica. Uma classe média tipicamente estadunidense virou alvo de filmes como Beleza Americana e Clube da Luta. Em tempo pregresso ao lançamento desses dois filmes, Joe Dante alçava 'The Burbs (Meus Vizinhos São Um Terror no título em português). Filme da infância de muitos e, certamente, dono de um conjunto de memórias nostálgicas. Mas, também, um projeto com facetas ácidas, ocultas no meio de todo um cenário presumivelmente pacato, com famílias felizes e plenamente satisfeitas com massageamentos de ego e manutenções de aparência. O jogo fílmico proposto por Dante não arremessa isso na nossa cara, mas constrói toda uma aventura pra prender a atenção sem o pedantismo de querer passar a mensagem a todo momento de maneira autoindulgente.

Contrariamente à evidenciação escancarada dos podres suburbanos, uma linha argumentativa se estabelece em ponto de ignição nefasto. A casa vizinha à de Ray (Tom Hanks) não assusta única e exclusivamente pela aparência, mas pelos estranhos eventos que aparentam ocorrer em seu interior. Principalmente à noite, quando a personagem paranóica do protagonista sai de roupão e tudo pra tentar entender melhor o que se passa no terreno ao lado de sua casa, vira e mexe barulhento e com ruídos bastante suspeitos. Dante não demora a apresentar os coadjuvantes, se é que podemos chamar peças essenciais desse tabuleiro de tal forma. Além, claro, da esposa de Ray, incorporada por Carrie Fisher, temos o vizinho gente boa e parceirão, o republicano águia a ostentar sua bandeira, o adolescente rebelde, o senhor de idade que só quer sossego em sua residência. Apresentada está a rua de uma vizinhança, enquanto representativa de compleição diversa.

Os tipos estão lá servem ao jocoso e ao andamento narrativo. Engraçado notar como o escopo paranóico vai ganhando força e descentraliza de Ray em direção aos seus vizinhos, digamos, normais até certo ponto. Certo é que muitas vezes mostram-se igualmente grotescos e empáticos ao ridículo quando assumem a investigação acerca da casa misteriosa da família Klopek como obsessão. Dante, por intermédio de diálogos triviais, porém abertos ao bom humor, tece pequenas cutucadas a um estilo de vida que se preza todo sacro, mas que no fundo vive procurando por burburinhos e intromissões à vida alheia.

De modo demasiadamente orgânico, o diretor insere referências, como quando é citado elemento primordial de A Hora do Pesadelo. Nas conversas entre os representantes arquetípicos, demonstra a hipocrisia que banha de águas invisíveis a vida padrãozinha dos moradores daquele pequeno espelho do mundo real, aquele fora da esfera cinematográfica. A direção para exprimir tudo isso é carregada de identidade, tem energia com movimentações mais livres de câmera, quebras de eixo e, especialmente no primeiro ato, um permissivo gesto aos diálogos. Eles estão lá em bom número e conseguem dosar bem momentos que flertam com algo iminente e momentos onde só é jogada conversa fora.

Toda uma mobilização da vizinhança é vista e, nesse agito, vemos bem desenhadas situações hilárias e peculiares. Um Ray que não quer sair no final de semana, frustrando sua amada companheira, tudo para investigar a casa sombria com seu amigo engajado, o homem que não controla seu cão, permitindo que o mesmo defeque no terreno vizinho, a típica teenager oitentista que só quer escapes, um Bruce Dern com sua persona patriótica e chucra. Vários personagens com ações a evidenciar os meandros do American Way of Life numa história que mescla o drama típico suburbano com um estudo ácido e, ufa, com um estudo de cinema de horror.

Com ecos de The Twilight Zone, Joe Dante molda nossas expectativas, constrói e desconstrói, enquanto entretém com personagens que, se não bem aprofundados, servem quase à função, eu diria, de concretizarem uma busca MacGuffin. Só lá, próximo ao terceiro ato, é que conhecemos o interior da residência dos Klopek e suspeitamos que algo de muito errado há ali dentro. A casa não deixa de ser um objeto de busca, mas já não é mais desconhecida. E, por sinal, o momento em que conhecemos a casa pela primeira vez é dos melhores do filme. O anfitrião carrancudo, o irmão dele, um médico sinistro e o jovem Stan parecem aterrorizantes por essência.

Outra grande passagem no longa é a síntese do discurso danteano, materializada no monólogo vociferado por Tom Hanks, expondo ao ridículo a vizinhança de gramados aparados e sorrisos na varanda. É quando as máscaras caem, ou melhor, quando elas terminam de cair. Todo o filme caminha para essa exposição do grotesco suburbano. O final, para além das reviravoltas, representa uma apoteose de sentidos em torno do que realmente é ou em torno do que realmente deveria ser o American Way of Life. Um estilo de vida fincado mais na futilidade do que propriamente na pose clássica que dele se supõe. Com tudo isso, ainda há espaço para uma reflexão existencial do cidadão médio. Quais suas preocupações e objetivos? Viveriam eles tão bem assim como em propagandas televisivas?

O fecho satisfaz o espectador, mas vai além da consequência intrínseca a um bom entretenimento. Há todo um discurso ajoujado que nos faz refletir muito sobre padrões, aparências, identidade e orgulho. Particularmente, vejo uma certa lentidão de início, fazendo com que filme demore a engrenar. Alguns diálogos são muito expositivos e, por vezes, se estendem na composição de conversas banais que em nada agregam. Filme parece meio maçante em seu bloco inicial, até que Dante exiba suas garras satíricas. Aí o foguete decola. Chegando a um espaço aberto para amplo debate. Debate que nos faz rir do americano classe média e do próprio padrão hollywoodiano de família, representado em filmes como A Felicidade Não se Compra, do brilhante Frank Capra. Não fossem fatores que citei acima e um final que dilui parcialmente a sátira que fora firmada ao longo de todo o filme, teríamos uma quase obra prima. Mas agora jogo no ar um questionamento. Vizinho esquisitão aí do teu lado lado. Quem nunca?

Comentários (2)

●•● Yves Lacoste ●•● | sexta-feira, 23 de Outubro de 2020 - 16:32

Mais um exemplar inesquecível da Sessão da Tarde. Comédia equilibrada com uma emulação de terror muito divertida. Fica a hesitação: os Klopek's são a esquisitice que achamos que são ou nós é que somos realmente exagerados por nossa intrusão além da cerca de nosso jardim?

Marcelo Queiroz | sexta-feira, 23 de Outubro de 2020 - 23:39

É a cara da Sessão da Tarde. O filme promove esse questionamento de maneira bem irreverente. Lança essa mesma pergunta sua, Yves, usando de todos os elementos que constituem uma boa comédia satírica. Exemplar marcante dos anos 80 para o cinema!

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