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Monstro do Mar, O

(Beast from 20,000 Fathoms, The, 1953)
7,2
Média
6 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A Besta das 20.000 braças

8,5

Filme de monstro das antigas. Vanguardista. Criatura pré-histórica é acordada após um teste atômico, e a partir disto, parte aterrorizando a costa leste estadunidense até tocar o terror em plena Nova York.

As velhas desculpas científicas para corroborar a existência do monstro. Há uma preocupação para se justificar a existência do anormal, que seria um antepassado do Tiranossauro Rex, e chamar-se-ia Rhedossauro e teria o dobro do tamanho do neto famoso. E a radiação – sempre ela envolvida – o tiraria dum congelamento de 100 milhões de anos. E agora liberado para destruir. Existe toda uma confluência de personagens em busca de provarem a existência de tal colossal cria, com direito a paleontólogos, exército e a porra toda. Tudo isso entrecortando com aparições do bruto. A intenção era desenvolver um preparo para a chegada final desse cretácico em Nova York, e a trama funciona mostrando o bicho logo de cara enquanto mostra a relação descrença/pesquisa dos personagens ante a sensacional fera.

O fator humano é o diferencial diante da responsabilidade do acordar dum animal perigoso adormecido. É o fator guerra fria, donde os experimentos radioativos teriam feito isso. A paranoia do período, por onde se desconfiava desse poder tecnológico nuclear absurdo recém adquirido. Afinal, havia menos de uma década das bombas de Hiroshima e Nagasaki criadas pelo Projeto Manhattan para a Segunda Guerra Mundial. A intenção desta envergadura pra longa-metragem de terror, estaria adiantada em um ano em relação ao famoso nipônico Godzilla (ゴジラ, Gojira, 1954), que nos brindara com um tratamento sensacional e pessimista do tema entrando para a história veementemente. O nosso filme-objeto aqui não faz tanto, mas é pioneiro na seara, tratando-a rapidamente sim, mas registrando-se como um dos primeiros (senão o primeirão) a lidar com a situação. Nisso temos um ser fora de seu tempo que não entende onde está, e age como se simplesmente tivesse acordado como em qualquer situação de sua existência, e, assim, parte em busca daquilo que conhece causando estrago em tudo que lhe incomode pelo caminho. Tratamento clássico.

Acerca do que é clássico, temos aqui as mais variadas sequências que atestam esta condição da fita: o início num frio acachapante onde o monstro surge em seu esplendor destroçador; a verificação de loucura nos personagens frente ao encontro com o feroz; a tradicional descrença das figuras ao redor; a busca pela verdade; a experiência de mergulhar no mar atrás do animal; a cena de entrada na cidade na invasão desse descomunal pelo mar; pessoas correndo em desespero, entre outras invenções. São momentos que quando não totalmente originais – existe o velho King Kong (King, Kong, 1933) que atesta bem algumas destas questões – são importantes para o estabelecimento das mais variadas referências dali em diante.

Para servir bem ao tema da fita de monstro propriamente dita, precisar-se-ia de um bichão de primeira qualidade e isto ficara a cargo do grande mestre Ray Harryhausen, que aqui faria seu primeiro grande trabalho como responsável mor pelos efeitos. Feito sob a tecnologia do stop-motion – e outras trucagens, como o uso de fantoches nalguns planos – com maquetes e montagens analógicas unindo, por vezes, três camadas numa mesma imagem (humanos num primeiro plano; besta a posteriori; e cenário da cidade ao fundo - aqui numa mistura dalgumas técnicas: Rear Projection e dynamation – esta última criada pelo próprio e que aqui era um protótipo – a união entre miniatura filmadas e universos maiores encaixados, com a criatura entre camadas e lidando com outros personagens dando uma sensação de profundidade e realidade em 3 dimensões), Ray dá a dinâmica urgente necessária para tornar crível tal criatura. Desde os planos concebidos com a intenção de demonstrar o tamanho do cara (bom uso de luz e sombra) com alguns leves contra-plongées, ou em planos abertos dando visão mais completa do assombroso, incluindo seus momentos de interação com pessoas.

Para que tudo operasse decentemente seria necessária uma direção minimamente objetiva e segura, e é exatamente isto o que proporciona Eugène Lourié, que faz um encaixe esperto entre o núcleo humano em busca da fera e as imagens do gigante propriamente dito. Há uma espera pelas aparições do dinossauro, claro, mas o diretor consegue equilibrar a as ações e manter o interesse aliado a uma boa fotografia que nos condiciona a entender perfeitamente os espaços e quando a fera aparece fica uma impressão orgânica pelo que é pensado e ainda nos impressionamos com o monstro. Não sem uma trilha sonora forte, alta e muito marcada para as cenas de ação, algo usual em fitas do gênero, coisa que o King Kong, por exemplo, já administrava.

Mediante todo o desmantelo causado, além da descoberta do seu sangue possuir uma doença contagiosa, aquela criatura necessitava de ser parada de qualquer maneira – mesmo que o paleontólogo principal afirme que para a ciência o mais interessante era capturar ele vivo (mais uma invenção desse material para a posteridade?) –, e para tal temos mais uma solução de achismo científico, que seria atingir o bicho com um dardo radioativo que penetrasse numa ferida dele. Há de se perceber que mesmo passando o trator na cidade, verificamos que aquela era uma figura que estava ali em busca de sobrevivência buscando entender o mundo ao seu redor e perdido como estava, não tinha completamente a culpa da esculhambação inteira, afinal o cara fora acordado no susto. Mesmo que a fita não procure aprofundar uma questão tão sagaz como esta, acaba por deixar isso carimbado nos estertores finais da criatura. Um animal. Ele papoca e fim. Operacional daquele cinema. A praticidade de sua estória, apontando elementos chave e seguindo-os por um caminho claro com os variados pormenores que captam a essência de um clássico filme de monstro, com uma puta construção de clima e do próprio mostrengão.

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