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Moonage Daydream

(Moonage Daydream, 2022)
8,0
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Críticas

Cineplayers

A homenagem que David Bowie merece

9,0

David Bowie foi um dos artistas pop mais icônicos da segunda metade do século XX. Sempre se reinventando, ficou conhecido e foi celebrado pelos personagens que criava. Suas roupas chamativas e declarações estremeciam a conservadora sociedade britânica. Mais que isso, foi um artista radicalmente criativo que fez algumas das mais importantes canções do rock mundial, atuou em diversos filmes, arriscou-se na pintura, fez trabalhos memoráveis explorando a videoarte, além de roteiros para o cinema. É difícil pensar em outro artista com uma carreira tão prolífica e bem-sucedida como Bowie.

A tarefa do diretor Brett Morgen parece ingrata. Como fazer um filme sobre a vida do “camaleão do rock”? A proposta de Morgen é aceitar o caos e acentuar que a desordem é a única maneira de adentrar no universo artístico de Bowie. Sua visão é fundamental para captar a essência de um personagem tão singular no universo pop. Daí, surgem classificações esquizofrênicas para Moonage Daydream como documentário-musical-experimental, por exemplo. No fim das contas, tal classificação tresloucada parece encontrar uma possibilidade de definição, embora o filme seja muito mais do que isso e as especificações protocolares servem para indicar como o trabalho de Morgen é capaz de fugir das classificações óbvias.

A proposta de Brett Morgen dá uma dimensão real do artista. É um filme que se preocupa menos com fatos da vida do biografado e mais com um esforço para escavar seu gênio artístico. Afinal, se há um filme sobre Bowie, é por conta da sua carreira como cantor, ator, videoartista e tantas outras atividades às quais se dedicou com muito talento. A produção do artista - o que importa, de fato - é a base para a realização da obra.

A forma é fundamental para Moonage Daydream se estabelecer como um trabalho que valoriza a carreira de Bowie. Experimentalismo, colagens, sobreposições de imagens, ruídos, registros de época, sequências de filmes clássicos ou imagens reconhecíveis para a maioria dos espectadores inundam o filme de uma energia pop que estava no cerne do trabalho do artista. Não há espaço para uma linha do tempo teleológica (início, meio e fim), a partir de uma sucessão de fatos que condensariam toda uma vida em momentos supostamente importantes.

Há uma diferença colossal com outras biografias musicais como Rocketman (Rocketman, 2019), de Dexter Fletcher, sobre Elton John ou Bohemian Rhapsody (Bohemian Rhapsody, 2018), de Bryan Singer e Dexter Fletcher, que conta a história da banda Queen e tem o vocalista Freddie Mercury como protagonista. Tais filmes não dão a dimensão dos artistas que biografam porque se distanciam formalmente da ruptura criada por eles no universo musical. São formalmente conservadores e se limitam a indicar eventos importantes da vida dos artistas.

Certamente, há momentos importantes da vida de Bowie em Moonage Daydream. O casamento, a relação complicada com os pais ou shows importantes de sua carreira fazem parte do que interessa captar na vida do popstar. Contudo, são fragmentos, dentre tantos outros, que criam um denso mosaico do gênio criativo do biografado. O próprio filme se arquiteta a partir da forma como o artista se manifestava. 

A busca por Bowie é tão radical que o rosto do cantor é constantemente explorado. Como se as expressões dele contivessem a resposta para os enigmas de seu processo criativo. Assim, entrevistas na televisão, shows, bastidores, imagens de arquivo são selecionadas para que seja possível perceber as características do cantor. Por outro lado, há uma negação de certas obviedades. Seria fácil imaginar que sequências como a de Denis Lavant correndo ao som de Modern Love em Sangue Ruim (Mauvais Sang, 1986) do Leos Carax, e replicada por Greta Gerwig em Frances Ha (Frances Ha, 2013) de Noah Baumbach, fizessem parte da sucessão de imagens propostas, mas não é o que acontece. Assim como David Bowie, o filme nunca se rende ao que seria mais óbvio.

Moonage Daydream celebra um artista virtuoso, excêntrico, delirante, genial e competente. Em dado momento, o próprio David Bowie menciona que sua cabeça sempre está a mil por hora. Dessa maneira, Brett Morgen não poderia fazer outra coisa senão construir sua própria ópera do absurdo para valorizar Bowie. É a partir de tal condução que a obra é capaz de captar seu grande gênio.

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