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Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta

(Moxie, 2021)
7,1
Média
7 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Grito aprisionado

6,5

Coincidência ou não, este simpático Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta ganhou um lugar ao sol uma semana antes do Dia Internacional da Mulher. O espaço de distribuição no streaming foi viabilizado num 3 de março, data de estreia do filme na Netflix. Isso porque o filme trata, a partir de um filtro high school, de uma luta atemporal. Uma batalha travada há séculos por uma colocação honrosa das mulheres na sociedade. Essas que se libertaram de algumas amarras históricas, mas ainda patinam numa pista escorregadia, que pouco permite um amplo espaço de fala e de representatividade.

Todo esse discurso é embalado por Amy Poehler, aqui demonstrando mais maturidade na direção em relação a seu primeiro e anterior filme (Entre Vinho e Vinagre), em um invólucro assumidamente juvenil que visa atacar o machismo com um discurso bastante conhecido. Porém, ao menos nos dois primeiros atos de Moxie, o clichê da narrativa teenager é bastante evitado e, quando se faz presente, é bem trabalhado numa subversão que o furte da obviedade. O pilar dessa costura bem azeitada dos elementos arquétipos pré college, quando batem cartão a nerd, o atleta, o romântico e a melhor amiga, é a ótima interpretação da Hadley Robinson para a protagonista Vivian.

A garota central na história é uma versão em miniatura, pelo menos na feição, da mãe interpretada pela própria Poehler. É também aquela que vai iniciar um movimento feminista no colégio, repetindo o feito da mãe agora em outra época. O trabalho de Robinson é convincente e não fica circunscrito em um único traço personalístico. Sua Vivian é tímida e introvertida, mas ao mesmo tempo solta quando assuntos que a fazem entrar em ebulição vêm à tona.

Inicialmente, o trabalho de Poehler na direção vai bem, por explorar a questão feminista de modo a não embrutecê-la, jogando-a e diluindo-a em rodas colegiais e conversas de cantina. É quando o filme mostra seus ecos de Meninas Malvadas, no entanto, sem o mesmo cinismo impregnado no longa de Mark Waters. É notável a opção por acoplar esse discurso de sororidade às mini arenas de onde podem brotar sinceros debates a respeito, sejam nos corredores, no pátio ou no intervalo, ainda que isso não se constate no filme de maneira menos expositiva.

Muito embora o filme engaje o espectador, fazendo com que o mesmo se identifique com a distribuição de panfletos pelas salas de aula para uma união feminina, às vezes falta mostrar mais e verbalizar menos, algo que teóricos como Robert McKee tanto preconizam em reflexões sobre cinema. Mas já que estamos falando do cinematográfico, Moxie reúne características de um cinema destacável. Além de discorrer sobre as pequenas violências até mesmo psicológicas sofridas pelas meninas no cotidiano escolar, como quando uma aluna é retirada de sala por usar uma regata e “mostrar demais o colo”, o filme é suficientemente eficiente e até mesmo “sofisticado” na exploração de seus dramas mais gerais e menos nichados nessa questão feminista em que tanto bate.

Tem alguns sopros aqui e ali do que Greta Gerwig fizera em Lady Bird, especialmente se compararmos a sensibilidade e tato para conduzir uma boa trama de passagem de bastão do indivíduo para consigo mesmo, quando este tem de amadurecer ao sair da adolescência para a vida adulta. As escolhas estilísticas de Poehler compõem um todo formal digno de nota. Essa arquitetura casa com um conteúdo, um recheio que tropeça aqui e acolá pela falta de aprofundamento no discurso feminista, quando este poderia ir além do previsível.  Há, ainda, um tempo despendido no filme em um certo romance, tendo o carismático Seth em um dos lados da moeda, que não se sustenta apenas com sua presença. Falta um elo mais forte para encorpar e dar uma cor a esse relacionamento e até mesmo à relação subaproveitada de Vivian com a mãe.

Mesmo com esses percalços, o filme é uma grata surpresa, vinda de uma diretora que ainda engatinha. Tem personalidade dentro de uma redoma pop e no fim das contas um conteúdo bem agradável dentro de si. Toda essa escalada de mobilização feminina é um dos pontos altos do filme, que se encerra num grito coletivo na cena final. As garotas, das reservadas às populares cheerleaders, todas reunidas no pátio. Um grito puxa todos os outros. O movimento Moxie acaba de ganhar mais adeptas do que imaginava. Por um momento, o que Vivian queria é efetivado. As vozes aprisionadas saem violentamente da garganta e o patriarcado estremece.

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