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Críticas

Cineplayers

Clint Eastwood estuda o cinema de crime.

7,5
Em uma primeira análise, é surpreendente Clint Eastwood encarnar a figura de Earl Stone, um veterano da Guerra da Coreia que nos tempos atuais opta por ser uma mula do tráfico, transportando entre destinos diferentes quantidades cada vez maiores de cocaína para o cartel de drogas mexicanos. A ideia do filme foi tirada de uma notícia de jornal sobre Leo Sharp, famoso horticulturista que após ter dificuldades financeiras tornou-se uma lenda do transporte de drogas. 

Logo Clint, famoso por interpretar o famoso policial politicamente incorreto “Dirty” Harry Callahan na franquia Perseguidor Implacável, e que nas poucas vezes que interpretou foras-da-lei os reservou para o Velho Oeste, próprios ou do italiano Sergio Leone, como Os Imperdoáveis e Três Homens em Conflito.

É, também, seu primeiro filme que dirige e protagoniza em dez anos, desde Gran Torino (2008), onde viveu o veterano Walt Kowalski e seus problemas com marginais que se mudam para o seu bairro. Após esse papel, atuou sem dirigir no drama Curvas da Vida, que havia sido seu último crédito como ator, e desde então havia se voltado para trás das câmeras filmando eventos da história americana, como o musical Jersey Boys: Em Busca da Música, o controverso filme de guerra Sniper Americano e os dramas Sully e 15h17 - Trem Para Paris.

Aqui o escopo é outro: em moldes que superficialmente lembram o seriado Breaking Bad - A Química do Mal, para além da ambientação no novo Oeste-Sul americano, o roteirista Nick Shenk, que colaborou com Clint no filme de 2008 e também fez o seriado sobre o tráfico de drogas colombiano Narcos, dedica boa parte do seu terço inicial a mostrar Earl como um homem tradicional, famoso por repetidamente ganhar prêmios de floricultura por seus lírios a custo de se distanciar da sua família e seu casamento. A perda da casa onde morou a vida inteira então o catapulta para resolver seus problemas financeiros, mas logo o “homem comum” sente o gosto do poder e então passa a fazer cada vez mais viagens e ter gastos cada vez mais esdrúxulos, como reformar o bar de veteranos que frequenta e pagar pelo serviço de garotas de programa.

Mas apesar de não ser o típico personagem em sua filmografia (mesmo com precedentes), A Mula surge como um eficiente suspense dramático, onde o nonagenário floricultor e ex-militar é acossado pela família amarga com a distância, onde só tem alguma proximidade com a neta Ginny (Taissa Farmiga, de A Freira) e é cobrado ou destratado pela ex-mulher Mary (Dianne Wiest, de Hannah e Suas Irmãs) e a filha Iris (Alison Eastwood, de Meia-Noite No Jardim do Bem e do Mal). Também  tem de lidar com o instável e violento cartel chefiado por Laton (Andy Garcia, de O Poderoso Chefão Parte III). E por fim, é perseguido pelos policiais Colin (Bradley Cooper, de Nasce Uma Estrela), Trevino (Michael Peña, de Narcos: México) e seu superior (Laurence Fishburne, de Matrix). Para cada um deles, é uma pessoa diferente, e a “atuação de tipo” de Clint como envelhecido homem tentando lidar como um novo mundo arranca risos e comoção com igual facilidade com o caráter inflexível, rabugento e individualista de sua performance.

O roteiro é hábil em equilibrar essas três camadas e como o seu protagonista reage a elas, como é cada vez mais seduzido pelo cartel enquanto também a culpa da família distante aumenta. A esfera da polícia, apesar de não tão abordada quanto as outras esferas, reúne momentos que equilibram comédia, tensão e até mesmo drama, como quando a polícia faz uma batida no hotel onde Earl está hospedado, prendem a pessoa errada (um fisiculturista grosseiro) e logo em seguida Colin compartilha sua crise no casamento com o homem que na verdade persegue. O recurso mostra um controle narrativo e tanto de Schenk, pois ao equilibrar as informações concedidas pelo espectador e as informações compreendida pelos personagens sabe extrair o efeito dramático desejado com muita precisão.

Com isso, todos os elementos descritos - os clichês do filme de crime com suas traições, mortes, batidas frustradas e reviravoltas e as ferramentas narrativas exploradas - Clint consegue fazer um filme que soa quase como um estudo do gênero, pois ao infiltrar-se como elemento estranho naquele mundo (um floricultor nonagenário traficando drogas e fugindo da polícia) consegue reverter os clichês do gênero ao mesmo tempo em que segue suas estruturas arquetípicas. Não são poucas as cenas em que encontros entre familiares, bandidos e policiais se convertem conversas ternas, debruçadas sobre memórias e arrependimentos. Clint nos lembra que há pessoas frustradas e vulneráveis por trás dos típicos papéis quase mitológicos que tem de perseguir.

Em um filme com suas falhas como um excesso de personagens que pouco são explorados e pouco fazem, simplificados ao máximo como exemplos de virtude ou degeneração, piadas repetidas além da conta (como os preconceitos de Earl e os confrontamentos que enfrenta), além de um final apressado, alguns momentos como o início e o final circulares, apesar da jornada, fazem o filme se sobressair com Clint desmanchando o gênero com sua sensibilidade única, com seu campo de batalha cinematográfico onde ninguém sabe direito quem é o inimigo e a perseguição por histórias não contadas, diferentes, e sobretudo interessantes em seu potencial cinematográfico de refinar os mesmos contos com peculiaridades individuais. Gostem ou não, Clint Eastwood é Clint Eastwood, clássico porém inimitável.

Comentários (2)

nelson rios dias | segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2019 - 07:43 | Responder

"Clint Eastwood é Clint Eastwood, clássico porém inimitável." disse td

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